sábado, 24 de julho de 2010

Comunidade negra comemora a sanção do Estatuto da Igualdade Racial

Representantes da comunidade negra de todo o país estiveram, terça-feira, 20 de julho, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, para a cerimônia de sanção, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Estatuto da Igualdade Racial. O documento, aprovado pelo Congresso Nacional no mês passado, após sete anos de tramitação, prevê garantias e o estabelecimento de políticas públicas de valorização aos negros.

O Estatuto da Igualdade Racial define uma nova ordem de direitos para os brasileiros negros, que somam cerca de 90 milhões de pessoas. O documento possui 65 artigos e tem como objetivo, segundo a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), corrigir as desigualdades históricas no que se refere às oportunidades e aos direitos dos descendentes de escravos do país.

A lei prevê fontes de financiamento para programas e ações de promoção à igualdade racial. Ela estabelece, ainda, que os orçamentos anuais da União contemplem as políticas de ações afirmativas destinadas ao enfrentamento das desigualdades em áreas fundamentais, como educação, trabalho, segurança, moradia, entre outras.

O documento contemplará também todos os integrantes das comunidades tradicionais, como as de terreiro, os ciganos, os indígenas e os quilombolas. Confira a Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010, que institui o Estatuto da Igualdade Racial.

Dia de Ogum

“Hoje é terça-feira, dia de Ogum, o Orixá do caminho e da transformação. A concretização desse documento é de grande importância, principalmente para as religiões de matrizes africanas”, comemorou a mãe de santo e integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Egbonmy Conceição Reis de Ogum. Ela acredita que o Estatuto da Igualdade Racial é resultado do trabalho dos movimentos sociais e de negros que contribuíram, historicamente, para a sua elaboração.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, compareceu ao evento e lembrou que o Estatuto não significa a institucionalização de tudo que era necessário. “Mas é um marco importante e nele está contida a possibilidade e a obrigação de desenvolver políticas de igualdade em todos os níveis de poder”, assegurou Ferreira, acrescentando que, a partir de agora, o governo poderá tornar mais complexa as políticas de igualdade racial no país.

De acordo com o ministro Eloi Ferreira de Araujo, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a lei sobre a igualdade racial no Brasil apresenta respostas para a inserção dos negros, ciganos, e indígenas, dentre outros, nos meios de comunicação de massa, assim como para as demandas por moradia, acesso à terra, segurança, acesso à justiça e financiamentos públicos.

Unilab

Além do Estatuto da Igualdade Racial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
também assinou a lei que cria a Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab). A nova universidade tem o objetivo de promover atividades de cooperação internacional com os países da África por meio de acordos, convênios e programas de cooperação internacional, além de contribuir para a formação acadêmica de estudantes dos países parceiros.

A Unilab será construída no município de Redenção, no maciço de Baturité, a 66 quilômetros de Fortaleza. As atividades acadêmicas terão início este ano em instalações provisórias, em prédios cedidos pela prefeitura de Redenção.

Brasil terá Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio

Assinatura de Protocolo
Brasil terá Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio

Abertura do Centro reforça proposta de valorizar a cooperação internacional
no Comitê do Patrimônio Mundial

O Brasil e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) vão formalizar, durante a 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, a criação do Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.

A assinatura do protocolo deverá ocorrer até segunda-feira, dia 26 de julho. A abertura oficial da 34ª Sessão será realizada no domingo (25) e contará com as presenças do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Cultura e atual presidente do Comitê do Patrimônio Mundial, Juca Ferreira, do presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Luiz Fernando de Almeida, da diretora-geral da Unesco, Irina Bokowa, e do diretor do Centro do Patrimônio Mundial, Francesco Bandarin.

O Centro é o resultado do esforço brasileiro para a cooperação técnica internacional e foi aprovado na 35ª Conferência Geral da Unesco, realizada ano passado na França. Entre suas missões estratégicas estão a capacitação profissional e o aperfeiçoamento dos instrumentos de gestão do patrimônio e que esse seja considerado um recurso e instrumento de promoção do desenvolvimento das nações.

Em suas ações de formação, intercâmbio e produção de conhecimentos, o Centro tem como foco a implementação das Convenções da Unesco para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, de 1972, para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003, e para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005.

Meta é incentivar a cooperação internacional

O Comitê do Patrimônio Mundial definiu quatro objetivos estratégicos para considerar um bem como Patrimônio Mundial, conhecidos como os 4 Cs: credibilidade, conservação, capacitação e comunicação, respectivamente. A delegação brasileira irá propor que volte à pauta o chamado 5º C, de cooperação. A intenção é incentivar os países a realizarem ações conjuntas para capacitar pessoas a atuarem na preservação dos patrimônios, com parcerias nos moldes da que já existe entre o Brasil e 18 países da América Latina, África e Ásia, organizadas pelo Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio.

Apesar de ainda não fazer parte dos objetivos estratégicos, a cooperação técnica já é um dos propósitos do Fundo do Patrimônio Mundial, que todos os anos destina mais de 4 milhões de dólares para auxiliar os Estados Partes a manterem a integridade de seus bens. A verba também é usada para ações emergenciais e treinamento de especialistas para trabalharem na pesquisa e conservação dos patrimônios.

* A 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial será realizada no Hotel Royal Tulip Brasília Alvorada, de 25 de julho a 3 de agosto. Página oficial: www.34whc.brasilia2010.gov.br.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Censo 2010: Sou negro e sou de Axé!

No próximo mês de agosto, a população brasileira dos 5.565 municípios estará recebendo recenseadores e recenseadoras para o levantamento demográfico que desde o primeiro censo, em 1872, com 643(1) municípios, se mostrou como importante fonte de dados.

Sabemos do valor das informações coletadas para acompanhar o crescimento, a distribuição geográfica e a evolução das características da população e como elementos importantes para definição de políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal, bem como para a tomada de decisões na iniciativa privada, incluindo, atualmente (para algumas), as ações de responsabilidade social.

Foi no censo de 1872 que, pela primeira vez, o conjunto da população era compreendido oficialmente em termos raciais, base para o estabelecimento de novas diferenças entre os grupos sociais. Diferenças ainda longe das concepções hierarquizantes e poligenistas que se acercariam da noção de raça, anos mais tarde.

Naquele momento, tratava-se de conhecer uma população de ex-escravizados que começava a exceder cada vez mais o número dos ainda escravizados. E esta diferença era possível na medida em que a instituição escravista tinha perdido a legitimidade devido à ação de grupos abolicionistas ou mesmo por meio das consequências da abolição do tráfico (1850) ou das leis posteriores que prometiam, apesar de gradual, a abolição da escravidão: a lei do ventre livre (1871), depois a lei dos sexagenários (1885), seguida da proibição dos açoites (1886) (2).

É muito importante anotar que a noção de “cor”, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matrizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição social estavam indissociavelmente ligadas. (3)

O novo Movimento Negro, surgido nos anos 1970, enfrentou a falácia da “democracia racial” entendendo que a o quesito “cor” era determinante do lugar social da população negra. Esse conhecimento, sustentado por militantes e pensadores na área das ciências humanas e sociais (incluindo a economia e a estatística), levou a uma campanha, em nível nacional, para o censo de 1991: “Não deixe sua cor passar em branco”.

Se fizermos uma breve retrospectiva do quesito “raça” / “cor” nos censos do País, não é difícil compreender a necessidade dessa campanha por parte do Movimento Negro:

1 - o quesito “raça” foi pesquisado nos censos de 1872 e de 1890;
2 - foi suprimido em 1900 e 1920;
3 - o quesito retorna em 1940, sob o rótulo de “cor”;
4 - em 1970, o questionário não contemplou o quesito “cor”;
5 - em 1980, o quesito volta a aparecer;
6 - em 1991 o quesito “cor” está presente, incorporando a (nova) categoria “indígenas e amarelos”;
7 - o censo de 2000 admitiu “raça e cor” como sinônimos, compondo uma única categoria (“cor ou raça”). (4)


A força da campanha do Movimento Negro tinha ainda maior razão! Além da invisibilidade da população negra, pela falácia da “democracia racial”, o quesito “cor”, respondido apenas no Questionário Amostra, tangenciava uma população já impregnada pelo não lugar do ser negro, colocado sempre no lugar de 2ª classe!

“Não deixe sua cor passar em branco!” cobriu o censo de 1991 e foi reprisada no censo de 2000, com o objetivo de sensibilizar os negros e seus descendentes para assumirem sua identidade histórica insistentemente negada; ao mesmo tempo em que era um alerta para a manipulação da identidade étnico-racial dos negros brasileiros em virtude de uma miscigenação que se constitui num instrumento eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição de uma hierarquia cromática e de fenótipos que têm na base o negro retinto e no topo o ‘‘branco da terra'', oferecendo aos intermediários o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, o branco. (5)

Apesar de, neste novo censo de 2010, o quesito “cor ou raça” sair do Questionário da Amostra e passar a ser investigado também no Questionário Básico, cobrindo toda a população recenseada (6), ainda há um longo caminho da superação do racismo para que todos e todas respondam pela dignidade e pelo reforço da auto-estima de pertencerem a um grupo étnico que só tem feito contribuir eficiente e eficazmente para o desenvolvimento do País.

Ao contrário do que propõe as “assertivas” de exclusão, a identificação da população negra se faz necessária sempre e a cada vez para que se constate em números (como gosta o parâmetro científico) o racismo histórico que ainda está perpetrado sobre a população negra. Só depois que alcançarmos a liberdade de fato é que as anotações étnicas passarão a ser fatores que dizem respeito exclusivamente à cultura. Enquanto estivermos, como estamos hoje – após 122 anos da abolição da escravatura – vivendo uma abolição não conclusa, precisaremos reafirmar nossa etnia do ponto de vista político; econômico; habitacional; na área da saúde; na área da educação; nas condições de supressão da liberdade que não se dá apenas aos presidiários, mas a pais e mães que clamam por políticas para garantir que seus filhos e filhas possam crescer com dignidade e sem ameaças.

A proposta do IBGE de tirar a “fotografia” mais nítida o possível do Brasil, ainda está longe de ser alcançada!

E a luta do povo negro não termina! O racismo é tão implacável que, a cada etapa alcançada, um novo desafio se apresenta!

Para este ano, novamente o Movimento Negro está em campanha, em nível nacional! E, agora, é para que todos aqueles que são adeptos das Religiões de Matrizes Africanas respondam sem qualquer dissimulação: “Quem é de Axé diz que é!” (**)

O quesito “religião ou culto” continua no Questionário de Amostra e tem campo aberto para que o recenseador ou a recenseadora anote a “religião ou culto” declarado pelo cidadão, pela cidadã.

Tanto no quesito “cor ou raça” para todos (no Questionário Básico); quanto no quesito “religião ou culto” para alguns que responderão o Questionário Amostra, a população negra e seus descendentes estão conscientes de que suas palavras precisam ser firmes e que devem estar atentos para que a anotação seja feita sem qualquer margem de erro em relação ao que declarou.


Já se justificou essa omissão do quesito “cor” por um possível empenho do regime republicano brasileiro em apagar a memória da escravidão. Entretanto, parte da explicação pode vir do incômodo causado pela constatação de que nossa população era marcada e crescentemente mestiça, enquanto as teses explicativas do Brasil apontavam para os limites que essa realidade colocava à realização de um ideal de civilização e progresso. (7)

Não temos qualquer dúvida de que a resistência em tratar de raça-cor e em tudo o que a discussão implica – como políticas de reparações, com fundo para superação do racismo histórico – é a mesma que teremos de enfrentar no tratamento das Religiões de Matrizes Africanas. Não dissimular a declaração de adepto ou adepta das religiões de Axé, trazidas e preservadas como memória ancestral por aqueles e aquelas que resistiram à travessia e morte nos porões dos navios tumbeiros é dignificar a humanidade que por princípio e necessidade é diversa e assim deve permanecer.

A poligenia está superada! As evidências de que a humanidade surgiu no continente africano são cada vez em maior número e com rigor científico sempre mais acurado. O conceito de raça não tem o menor sentido, dizem nossos opositores, no afã de jamais ceder o lugar histórico de conforto a que estão acostumados! Enquanto não repararmos o estrago que o uso histórico do conceito fez a cidadãos e cidadãs que hoje são em mais de 50% da população, qualquer discussão conceitual será apenas a má retórica que tenta persuadir para continuar reinando.

Por isso,
Não vamos deixar nossa cor passar em branco!
E vamos dizer que somos de Axé!
“Quem é de Axé diz que é!”

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A ponte entre o Orum e o Aiyê



Reza uma história africana, originária de Ketu, que no início de tudo havia o Orum, o espaço infinito, e lá vivia o deus supremo Olorum. Certo dia, Olorum criou uma imensa massa de água, de onde nasceu o primeiro orixá: Oxalá, o único capaz de dar vida. Olorum mandou Oxalá partir e criar o aiyê, o mundo. Só que Oxalá não fez as oferendas necessárias para a viagem e enfrentou sérios problemas no caminho.

Quem acabou criando o mundo foi Odudua, sua porção feminina. Para consolar Oxalá, o deus supremo lhe deu outra missão: a de inventar os seres que habitariam o aiyê. Assim Oxalá usou a água branca e a lama marrom para criar peixes azuis, árvores verdes e homens de todas as cores. Foram justamente os homens que, mais tarde, imaginaram formas de adorar e representar a saga de deuses como Oxalá, Odudua, Olorum e tantos outros.

100 Anos do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos mais tradicionais terreiros de candomblé do país

Um século de força, afirmação de identidade e resistência negras
“Todos os que passam do portão do terreiro para dentro são considerados por Xangô, seus filhos”. Com esta frase a professora Vanda Machado, egbomi do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, explica aos convidados com simpatia o acolhimento que terão dentro de um
dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia. E deixa antever princípios filosóficos de uma cultura de matriz africana ancestral.

Na tradução do iorubá – língua falada pelos negros nagôs - para o português, o nome do terreiro significa “Casa de Força Sustentada por Xangô”. Foi em referência a este Orixá que a criadora do Axé, dona Eugenia Anna dos Santos, a famosa Mãe Aninha, fundou o terreiro no ano de 1910. Mãe Aninha dizia sonhar ver os filhos do Axé “de anel de doutor nos dedos e prostrados aos pés de Xangô”. Passados cem anos, e sob a direção de Mãe Stella de Oxossi, a atual sacerdotisa que dirige toda a comunidade religiosa situada no bairro de São Gonçalo do Retiro, em Salvador, o Opô Afonjá, além de espaço de culto ao sagrado, é sinônimo do “axé” (força), de resistência cultural e local de afirmação das identidades negras.

Ocupando uma área com cerca de 39.000 m2, o terreiro abriga ainda a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, reconhecida pelo MEC como instituição modelo no que se refere àquilo que a lei 10639/2003 advoga: que as escolas do país devotem tempo e atenção à história e a força das culturas negras. Estas tão bem representadas por personagens como mãe Aninha e Mãe Stella, mas também por outras sacerdotisas que ocuparam o posto máximo daquela Casa, tais como Mãe Badá, Mãe Ondina, Mãe Senhora. E tantas outras que, neste território de dimensões continentais, vem acolhendo em seus “axés” aqueles que buscam proteção, força vital, esperanças, troca comunitária e felicidade na religião dos Orixás.

É bem verdade que as ações, a coragem, a determinação e a luta destas mulheres negras valorosas ainda fazem parte da história não-oficial do país. Mas é incontestável também as possibilidades de reconhecimento pelos jovens e crianças de nossas escolas do quão interessantes e exemplares são estas – e tantas outras – personalidades negras. Muitos vem lutando para que este seja um dos frutos a serem colhidos através da obrigatoriedade da lei que passou a regular, em 2003, as práticas educacionais em nossas escolas na direção da Igualdade Racial. Para além dela (e fortalecendo-a) temos ainda, o recém aprovado Estatuto da Igualdade Racial – com artigos garantidores não apenas dos avanços na área educacional, mas também dos direitos das comunidades-terreiros. São avanços que podem contribuir efetivamente para que todos que protagonizaram a história do Ilê Opô Afonjá integrem-se já neste século XXI e nos vindouros, às páginas que registram a História Oficial da Nação Brasileira.

Veja e as “ditaduras africanas”

Na edição de 14 de julho em reportagem sobre a recente viagem do Presidente Lula a África, a revista “Veja” assume de forma clara o papel de cão de guarda dos EUA no que considera “reserva territorial” americana, a África.

O preconceito racista escravocrata contra países pobres do continente negro que, generalizando, chama de “ditaduras” é evidente. “Veja” ainda demonstra contrariedade com a objetividade e eficiência da diplomacia brasileira. Contra uma política externa independente, cujo “mérito dos fins diplomáticos” tem sido oposto à política de big stick americana, mas que não impediu que o Presidente Barak Obama dissesse que o Presidente Lula é “o Cara”, para desventura de “Veja”.

As “ditaduras africanas” das quais “Veja” “acusa” o Presidente Lula de ser amigo são todos os países com os quais, segundo ela, só os EUA podem se relacionar e manter como mercados cativos para suas multinacionais sugarem riquezas como petróleo e diamantes. E além disso, obter lucros adicionais exorbitantes com a venda de produtos industrializados, sobretudo armas. Enquanto a África continua abandonada padecendo da miséria, da fome e de doenças do subdesenvolvimento, escravizada pela política predatória dos monopólios.

Os EUA mantêm inúmeras bases militares em vários países africanos e um comando militar especial no oeste da África. Base de apoio que utiliza para trafegar soldados e armas de um a outro país com o objetivo de garantir seus interesses econômicos e políticos nas guerras tribais. Guerras que fomentam através de ONGs, “missões humanitárias” e “religiosas” que espalham por todo o continente.

Não há nada que determine que a África seja propriedade privada dos EUA e que o Brasil não tenha que cultivar e desenvolver relações políticas e econômicas autônomas com os africanos, como aliás, muito justamente tem sido feito desde que Lula assumiu a presidência.

Em respeito e em reconhecimento à África, em defesa dos interesses do Brasil, Lula tem se empenhado em que o país seja, cada vez mais, amigo e parceiro das nações africanas e, nesse sentido, desde 2003 visitou quase todos os países do continente. África do Sul, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Nigéria, Argélia, Burkina Faso, Congo, Benin, Botsuana, São Tomé e Príncipe, Namíbia, Egito, Líbia, Gabão, Camarões, Gana, Guiné Bissau, Senegal, Quênia, Guiné Equatorial, Tanzânia, Zâmbia são alguns deles.

Com todos esses países, graças à ação irretocável, firme e serena do Chanceler Celso Amorim - que não se indispôs com os EUA mas também não considerou a África “reserva de mercado” dos EUA - o Brasil foi até lá, ampliou a amizade, a cooperação bilateral em vários e diferentes níveis, estimulou as políticas de paz e o comercio internacional ampliando a pauta das exportações brasileiras.

Inconformada com a força moral do governo Lula e com o respeito e a credibilidade que o Brasil tem merecido do conjunto das nações, “Veja” evoca bandidos guzano-cubanos financiados pela CIA para fazer greve de fome e gerar factoides no “palco da globalização” para alimentar a cruzada que os monopólios de mídia realizam contra Cuba há 50 anos e, de tabela, atacar Lula e o Brasil. A revistinha não admite que a diplomacia brasileira não se submeta à farsa que ela repercute.

Seria imoral atender os latidos de “Veja”, e desconsiderar os interesses do Brasil. Já passou o tempo em que um FHC submisso diante dos interesses imperialistas e arrogante diante dos mais fracos e mais pobres envergonhava o Brasil. Tempos ruins a que hoje “Veja” e seu candidato Serra – que há poucos dias atacou a Bolívia e o MERCOSUL - tentam retroceder inutilmente. “Veja” está contra o Brasil. Mas, o que é bom para “Veja” não é bom para o Brasil.

Lula: “não sou homem de duas caras, Dilma é minha candidata”

Multidão parou o Centro do Rio para ouvir Lula, Dilma e Cabral. Presidente repele tentativa de calá-lo


O presidente Lula denunciou para os milhares de participantes do comício da Dilma e Sérgio Cabral, realizado na Cinelândia, no Centro do Rio, na última sexta-feira, que os adversários querem que ele finja não conhecer a sua ex-ministra da Casa Civil e coordenadora dos principais programas do governo federal. “Há uma premeditação de me tirarem da campanha política para não permitir que eu ajude a companheira Dilma a ser a presidente da República desse país”, afirmou o presidente.

“Na verdade o que eles querem é me inibir para eu fingir que não conheço a Dilma. É como se eu pudesse passar perto dela... tem uma procuradora qualquer aí... eles querem é me inibir, para eu fingir que não conheço a Dilma, para que eu passe por ela e vire o rosto. Mas não sou homem de duas caras. Ela é a minha candidata. Vou dizer que a minha companheira Dilma, que foi chefe da Casa Civil, está preparada para ocupar a Presidência da República desse país”, destacou, enquanto apertava fortemente as mãos da candidata.

O recado do presidente, de que ninguém vai calá-lo nesta campanha, foi uma resposta às declarações absurdas feitas por uma vice do Ministério Público que deveria cumprir sua obrigação e garantir a lisura do pleito, mas, ao contrário disso, tenta impedir o presidente de externar suas opiniões políticas.

A vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, pediu as fitas do ato de lançamento do edital do trem bala, ocorrido há alguns dias, em Brasília, porque Lula teria feito na ocasião referência ao papel de Dilma, quando ela esteve na Casa Civil, para garantir o sucesso do projeto.

Além disso, a vice-procuradora fez o comentário de que “o PSDB tem demonstrado mais zelo e respeito à Lei Eleitoral do que o PT”. Com essa visão superimparcial, não é de estranhar que muitas violações dos tucanos contra a Lei tenham passadas “despercebidas” pela procuradora. Além do mais, ela não tem que comentar nada. Tem que fiscalizar. Não satisfeita, ela disse que o presidente Lula não consegue “ficar de boca calada”. A mesma procuradora que diz essas coisas sobre o presidente, finge não ver Serra participando ilegalmente de programas de outros partidos que não o seu, além dos elogios do governador de São Paulo, Alberto Goldman, feitos em solenidades oficiais, ao candidato tucano. “São dois pesos e duas medidas”, denunciou Dilma.

Mas, apesar das tentativas de tirá-lo da campanha, Lula deixou claro para todo o povo brasileiro no comício que não vai ficar calado. Ele vai mesmo é para as ruas, fazer a campanha de Dilma. Debaixo de chuva, e sem que o povo arredasse o pé da praça, Lula prosseguiu: “Ao indicá-la para ser a futura presidente, estou indicando uma pessoa que eu colocaria minhas duas mãos no fogo, a minha alma em jogo”. “Sei da competência e da honestidade, do compromisso e do sofrimento dela. Esta mulher com cara de anjo já foi torturada e tomou choque elétrico. Mas ela não guarda mágoa. Ela não quer viver o passado. Ela quer construir o futuro do Brasil”, prosseguiu Lula, arrancando aplausos da multidão.

A gigantesca caminhada da Candelária à Cinelândia organizada pela coligação “Para o Brasil Seguir Mudando” reuniu as principais lideranças políticas do estado e agitou o centro do Rio. Para os organizadores, cerca de 40 mil pessoas participaram da marcha pelo Centro da cidade, região que foi palco de grandes manifestações pelas Diretas Já, em 1984.

No comício, na Cinelândia, Lula afirmou que a sua amizade por Dilma é recente. “Vou dizer do fundo da minha alma: não tinha amizade por essa mulher até pouco tempo antes de entrar na Presidência”. “Ela ganhou a minha confiança. Ao indicar a Dilma é como se eu colocasse as minhas duas mãos no fogo”, disse o presidente. “Dilminha”, falou o presidente, dirigindo-se à candidata, “eu tenho a convicção de que o Brasil precisa de você e que você pode ajudar o Brasil”. “Olé, olé, olá...Dilma, Dilma!”, gritavam os presentes.

Quando a chuva apertou, Lula disse que não era o mau tempo que o impediria de pedir votos para Dilma Rousseff e o candidato ao governo estadual, Sérgio Cabral. “Eu acho que a primeira vez a gente nunca esquece e essa é a primeira vez que a gente vem fazer a campanha da Dilma e do Sérgio Cabral no Rio e não há chuva que me tirasse de estar aqui nessa praça para poder conversar com vocês”, afirmou. “Certamente sairei daqui tão molhado como vocês. Mas, sairei convencido de que me dirigi a uma parte do povo brasileiro para que a gente não permita que nenhum retrocesso aconteça nos próximos anos”, afirmou Lula, sob intensos aplausos da população presente.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, agradeceu a todos e fez uma conclamação. “Por isso, Dilma, nós vamos continuar juntos, avançando, fazendo do Brasil um país mais justo, fazendo do Rio de Janeiro um estado mais justo”.

Participaram do comício, além do presidente Lula e da candidata Dilma Rousseff, o candidato a vice, deputado Michel Temer (PMDB), o governador e candidato a reeleição, Sérgio Cabral (PMDB), o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), o ex-prefeito de Nova Iguaçu, e candidato ao Senado, Lindberg Farias (PT), além de centenas de lideranças políticas, prefeitos do interior do estado, parlamentares e candidatos de todos os partidos que compõem a coligação.

Comenta-se que os repórteres da “Folha de S. Paulo” que foram designados para cobrir o comício no Rio de Janeiro devem ter se perdido e não conseguiram chegar à tempo na Cinelândia. Não sabiam que o melhor caminho para o centro da cidade é descer no Aeroporto Santos Dumont e não no Galeão. Resultado: pegaram a Linha Vermelha e devem ter sido parados nas blitz de bafômetro que vêm sendo feitas por lá. Demoraram para convencer os policiais que não estavam bêbados. Aí, chegaram atrasados. Só viram mil pessoas na Cinelândia. A “Folha”, que não conhece bem o Rio, acreditou nos retardatários e repetiu a barriga, na capa e em outras duas matérias internas. O Frias não teve tempo de checar as informações. Devia estar ocupado, fabricando números para mais uma pesquisa de seu instituto, o DataFolha.