quinta-feira, 6 de maio de 2010

Artistas expressam sua arte e consciência política em premiação da Cultura Afro-brasileira

"Desde os tempos das senzalas, mesmo antes, nos porões turvos dos navios negreiros, a arte fez parte da fé, é o lamento, é a cura, a redenção e o clamor", falou Zezé Mota na solenidade de entrega do 1° Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, ontem (27) em Brasília, em cerimonial com o ator Antonio Pompeu.

O público, formado por artistas vencedores, jurados, representantes de Embaixadas, representantes da Federação Brasiliense e Entorno de Umbanda e Candomblé e pessoas ligadas a cultura negra, participaram - não só da entrega do Prêmio - como da perfomance do grupo de teatro brasiliense, Cabeça Feita, dirigida por Cristiane Sobral, com roteiro do Diretor do Departamento de Fomento e Promoção da Cultura Afro-brasileira, Elísio Lopes Junior, a partir dos textos de Rita Reikki, Cleise Mendes e Marina Seneda e Soraia.

No momento de descontração da solenidade, Zezé Mota soltou a voz para embalar os passos dos bailarinos, Rubens Barbot, Júlio César e Edu Passos que manifestaram-se no salão como forma de agradecimento ao prêmio recebido. A premiação também foi marcada por reivindicações dos artistas: "Muitas pessoas acham que Norte se escreve com "M", mas as pessoas não têm noção da produção cultural da região. Esse Prêmio para nós foi uma grande oportunidade, somos quase da metade do País, merecemos e queremos espaço para mostrar nossa cultura", disse Amilton Barreto, representante do projeto "Emy - a concepção iorubana do universo", apresentado pela Associação dos Amigos do Ilê Aye Omi Ofa Kare, do Pará.


Representante do projeto "Ogum - o Deus e o homem", apresentado pela Uzon Filmes e Produções, da Bahia, Susan Marques, também expôs sua opinião ao subir no palco: "Por que nossos filhos têm como referência o Batman, o Homem Aranha e não sabem nada de Iansã, de Xangô? Por que nossas histórias não podem ser contadas, nossos heróis cultuados? A Bahia está cheia de cantoras de sucesso nacional que cantam nossas músicas negras, mas não pisam em um terreiro. Queremos nossas histórias contadas por nós, nossa música contada por nós. Quem vai estar no palco agora é o povo negro".

Além da divisão do edital por região, o Prêmio também inovou na forma de selecionar os jurados, eles foram escolhidos pelos próprios artistas em votação livre pela internet. Foram selecionados 20 projetos de todas as regiões do País, contemplando não somente os grupos dos grandes centros mas também os de regiões remanescentes de quilombos como o projeto "Arte resgatando o quilombo", apresentado pela Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo Morro do Fortunato, de Santa Catarina.


Assessoria de Comunicação da FCP

Professor Eduardo no 1º de Maio: “com o trabalho se constroem as grandes nações”

“O Dia do Trabalhador é o dia mais sagrado, porque é com o trabalho que se edificam os grandes países, as grandes nações e a grande sociedade brasileira. Com o suor e com o trabalho”, afirmou o presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), professor Eduardo de Oliveira, durante o ato promovido pela Força Sindical e pela CGTB, em São Paulo.

Para o líder do movimento negro, “o dia 1º de Maio vem defender os que fazem hoje a luta de classes, as suas conquistas no governo Lula. Neste momento em que nós batemos palmas para essas conquistas, temos que saudar a unidade dos trabalhadores, que é a grande arma, a grande força, a grande corrente de pujança da nossa gente e da nossa pátria”.

“Nós somos um povo que foi escravo e hoje está liberto. E todos nós somos irmãos. Por isso eu quero uma salva de palma calorosa para esse grande 1º de Maio”, acrescentou. “Parabéns, para o alto e para frente”.

1º de Maio: SP comemora com Lula e Dilma. Para Serra restou Camboriú

Lula e Dilma estiveram nos três atos. Menos Serra, que foi para o interior de Santa Catarina”



São Paulo comemorou o 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalho, com três grandes manifestações organizadas pelas Centrais Sindicais. Força Sindical e CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil) promoveram o ato na Praça Campo de Bagatelle, na Zona Norte da capital; a CUT (Central Única dos Trabalhadores) organizou um ato no Memorial da América Latina, Barra Funda; CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), UGT (União Geral dos Trabalhadores) e Nova Central encabeçaram a manifestação na avenida Marques de São Vicente, na Barra Funda.

FORÇA SINDICAL E CGTB

O presidente Lula e a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência da República, participaram das três manifestações e foram recebidos com entusiasmo pelos trabalhadores. Na maior delas, que reuniu cerca de um milhão de pessoas na Praça Campo de Bagatelle, Lula destacou que em seus dois mandatos houve forte reajuste do salário mínimo, criação de empregos e ganho real para todos os trabalhadores. Dilma também salientou que “enquanto outros países tiveram desemprego por conta da crise, o Brasil criou milhares de empregos”.

Centenas de sindicatos e entidades populares participaram do ato da Força e da CGTB. Por volta das onze horas da manhã os dirigentes das duas centrais sindicais anunciaram para a multidão que lotou a praça a presença das autoridades que foram prestigiar a festa do trabalhador: o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB), os senadores Aloizio Mercadante (PT), e Romeu Tuma (PTB), a ex-prefeita Marta Suplicy, dezenas de parlamentares, entre eles José Anibal (PSDB) e lideranças de vários partidos políticos e entidades, além de Lula, da primeira-dama Marisa Letícia e da ex-ministra Dilma Rousseff.

Em seu discurso, Lula falou das conquistas obtidas pelos trabalhadores durante o seu mandato e ironizou aqueles que diziam que ele não conseguiria governar o país porque “não falava inglês”. “Ah, eu fico feliz, eu fico feliz, companheira Dilma, quando a revista Time diz que eu sou a pessoa mais influente do mundo, porque a elite brasileira dizia que eu não tinha competência para governar porque eu não sabia falar inglês”, afirmou. “Eu não falo inglês, mas meu coração pensa brasileiro, meu coração pensa o povo brasileiro, a minha consciência pensa o povo brasileiro”, arrematou.

Dilma dirigiu-se aos trabalhadores ressaltando que os avanços obtidos com o governo Lula “abrem um novo tempo de esperança para os brasileiros”. “Em muitos lugares do mundo hoje é um dia de luta contra o desemprego, que se espalhou com essa crise. O Brasil é um dos poucos países do mundo onde comemoramos recordes e mais recordes de geração de emprego”, disse Dilma. Ela anunciou que “coisas muitos melhores estão vindo por aí”. “Diziam que se a gente aumentasse o salário mínimo, teria inflação e provamos que não. Provamos que era possível aumentar o salário mínimo e conter a inflação para ela não corroer o bolso dos trabalhadores”, discursou.

Aloizio Mercadante, Marta Suplicy, Michel Temer e o ministro Carlos Lupi também discursaram saudando os trabalhadores. O presidente da CGTB, Antônio Neto, defendeu a redução da jornada de trabalho e a ampliação dos direitos dos trabalhadores. Paulinho, presidente da Força Sindical, fez questão de dizer que todas as autoridades do estado foram convidadas para a manifestação. “Inclusive o prefeito Gilberto Kassab esteve hoje cedo conosco”, informou. “Convidei também o ex-governador José Serra, mas ele não veio. Sabem por que ele não veio? Porque ele não gosta dos trabalhadores. Ele tem medo dos trabalhadores”, disse. “Nunca nos recebeu para negociar nada”, acrescentou o sindicalista. (veja matéria nesta página). Serra deixou São Paulo e não compareceu a nenhum ato de comemoração pelo Dia do Trabalhador (ver matéria abaixo).

CUT

À noite, o ato organizado pela CUT, no Memorial da América Latina, discutiu a integração dos trabalhadores latino-americanos. Prestigiado por artistas como Milton Nascimento, que fez uma homenagem à Mercedes Sosa, Carlinhos Brown, Raíces de América e o cantor cubano Fernando Ferrer, o ato reuniu cerca de dez mil pessoas. Lula se emocionou ao falar sobre o orgulho de voltar a residir em São Bernardo do Campo após sair do governo. Ele disse que vai morar bem perto do sindicato que o projetou na política. Para Lula, será uma honra poder cumprimentar qualquer trabalhador com a certeza do dever cumprido. “O que mais vai me dar orgulho é que eu vou poder me levantar de manhã, encontrar qualquer trabalhador e dizer para ele “bom dia, companheiro”, porque eu fui leal àquilo que nós fizemos neste país”, disse. Dilma falou das conquistas que os trabalhadores brasileiros obtiveram com o governo Lula. Na política externa, ela destacou que com o governo atual o Brasil deixou “de estar de joelhos diante das potências do Hemisfério Norte e tem se inserido de maneira soberana nas relações políticas e econômicas”.

CTB, UGT E NOVA CENTRAL

A CTB, a UGT e a Nova Central também reuniram milhares de trabalhadores na Avenida Marquês de São Vicente. Recebida no ato aos gritos de “olê, olê, olá, Dilma, Dilma”, a ex-ministra Dilma Roussef discursou na festa.“Estamos reunidos num dia de comemoração e de luta”, ressaltou Dilma. “Temos o que comemorar. O salário mínimo hoje equivale a 300 dólares, quando o governo Lula começou valia menos que 100 dólares. O Brasil está crescendo e não só para os mais ricos, mas para todo o povo”, acrescentou. O presidente Lula, além de outras lideranças políticas e artistas também prestigiaram o encontro. Entre outras personalidades passaram pela manifestação da CTB, UGT e Nova Central o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, os deputados federais Aldo Rebelo, Carlos Zaratine e Roberto Santiago, os senadores Aloizio Mercadante e Eduardo Suplicy, o delegado Protógenes Queiroz, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi e o presidente da UNE, Augusto Chagas.

Discurso do presidente Ahmadinejad, 3/5/2010, Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (traduzido)]

Senhor Presidente,
Ilustres Delegados,
Senhoras e senhores,

Agradeço a Deus Todo Poderoso, o Compassivo, o Generoso, pela oportunidade desse diálogo sobre uma das questões cruciais de nossas preocupações comuns. Sem dúvida, essa Conferência para Revisão do Tratado de Não-proliferação Nuclear (NPT) é das mais importantes.

Congratulo-me também com Vossa Excelência, Sr. Presidente, por sua eleição para presidir esse encontro.

Amigos,

A busca da segurança sustentável é parte inerente e instintiva do ser humano e luta histórica. Nenhum país pode ser indiferente à própria segurança. Os profetas divinos e os justos também têm de ser ouvidos como fonte de orientação, à luz de sua fé em Deus e nos ensinamentos divinos, para assegurar serenidade e segurança nessa e noutra vida. Para aqueles profetas e justos, a sociedade ideal é sociedade global, baseada no monoteísmo e na justiça e repleta de segurança, afeto e fraternidade, conduzida pelo mais nobre dos servos de Deus ao lado do Jesus Cristo, que a paz esteja com eles, e outros seres bons.

Sem segurança sustentável, seria impossível planejar o desenvolvimento e o bem-estar.

Hoje, apesar de a maior parte dos recursos das nações serem alocados para assegurar segurança nacional, dificilmente se veem sinais de avanço em direção da paz, se se consideram todas as ameaças que pesam sobre todas as nações.

Lamentavelmente, porque alguns Estados afastaram-se dos ensinamentos dos Profetas divinos, a sombra da ameaça de bombas nucleares pesa sobre todo o planeta, e ninguém se sente seguro. Alguns Estados definem em suas estratégias a bomba nuclear, como elemento de estabilidade e segurança – e esse é um dos seus muitos grandes erros.

Produzir e possuir uma bomba nuclear, e seja qual for o pretexto de momento, é ato perigoso que, em primeiro lugar e sobretudo, expõe o país que produza e armazene esse tipo de arma. Todos lembramos o risco que todos corremos quando foi preciso transferir um míssil carregado com uma ogiva nuclear, de uma para outra base dos EUA, transferência que preocupou todo o povo norte-americano. Em segundo lugar, a única razão de ser das bombas nucleares é aniquilar todos os seres humanos e o meio ambiente, sabendo-se que as radiações afetam gerações ainda não nascidas, com impacto negativo que continua ativo ao longo de séculos.

A bomba nuclear é arma contra a humanidade. Não é arma de defesa.

Ser dono de bombas atômicas não deve orgulhar ninguém; antes, deve provocar preocupação e vergonha. Mais vergonhoso, contudo, do que ser dono de bombas atômicas, é ameaçar usá-las – e essa ameaça é crime cuja vergonha não se compara a nenhum outro, na história do homem.

Os que pela primeira vez usaram bombas atômicas contra cidades habitadas estão entre os mais odiados do mundo.

Por mais de 60 anos, as Organização das Nações Unidas, em particular o Conselho de Segurança, têm-se mostrado incapazes de implantar condições sustentáveis de segurança e de criar sensação de segurança nas relações internacionais – e o momento que o mundo vive hoje parece ainda mais complexo e desafiador que as décadas passadas.

Guerras, agressões e, sobretudo, a sombra da ameaça nuclear e dos arsenais atômicos, mas, mais grave que tudo isso, as políticas aplicadas por uns poucos Estados expansionistas, obscurecem hoje a possibilidade de segurança internacional para todos, em todo o planeta. Hoje, todos os pensamentos, de todas as comunidades mundiais são afetados, em grande medida, por sensação de intimidamento e de insegurança.

O desarmamento nuclear e a não-proliferação têm de ser efetivos – mas a Agência Internacional de Energia Atômica não tem tido sucesso no desempenho de sua missão. Nas últimas quatro décadas, alguns, dentre os quais o regime sionista, encheram seus arsenais com armas atômicas.

Qual, de fato, a causa de tudo isso? Para responder essa pergunta, é preciso examinar as políticas e prática de alguns Estados, além de examinarem-se também a ineficácia e o desequilíbrio na apropriação dos fundamentos do Tratado de Não-proliferação. Discuto aqui alguns desses casos.

1 – A ambição de dominar

Da perspectiva dos Profetas Divinos e dos justos e conforme todos os conceitos que a humanidade construiu, a supremacia, a felicidade, a maturidade da humanidade é avaliada pela moralidade dos atos, pela modéstia e pela devoção de cada um a todos os demais seres humanos nossos irmãos. Infelizmente, apoiados na teoria da luta pela sobrevivência, alguns Estados buscam tornar-se superiores mediante ameaças e supressão do direito dos demais; assim semeiam sementes de ódio, de inimizade e da disputa pelas armas nas relações internacionais. O erro basilar dos que assim agem está em entender que a violência da força geraria direitos.

2 – A produção e uso de armas nucleares, manobrada como arma política

As primeiras armas atômicas foram produzidas e usadas pelos EUA. À primeira vista, pelo que depois se viu, para garantir aos EUA e seus aliados a supremacia no mundo do pós II Guerra Mundial. Imediatamente, contudo, a produção dessas armas tornou-se fonte de desenvolvimento para outros, processo que, em pouco tempo levou à corrida armamentista nuclear. A produção, o armazenamento e o desenvolvimento qualitativo da tecnologia nuclear num dado país serviu como justificativa viável para que outros se pusessem a criar seus próprios arsenais, tendência que não se alterou ao longo dos últimos 40 anos, em flagrante violação de tudo que determina o Tratado de Não-proliferação.

3 – Armas atômicas como meio para “conter os inimigos”

Essa política, chamada “de contenção” [em inglês, deterrence] é a principal causa da escalada na corrida armamentista, porque a “contenção” impõe que todos tenham armas aproximadamente equivalentes, em qualidade e quantidade. Pode-se dizer que a chamada política “de contenção” foi como o combustível da corrida armamentista nuclear. Há mais de 20 mil ogivas nucleares declaradas em todo o mundo, metade das quais pertencem aos EUA. O outro lado, que disputa a supremacia com os EUA, continua a desenvolver e a armazenar armas nucleares, sob o pretexto de que, assim, “conteria” os EUA. Os dois lados violam os compromissos que assumiram nos termos do Tratado de Não-proliferação, NPT.

4 – Ameaça: as armas nucleares serão usadas

Lamentavelmente para todos nós, o governo dos EUA não apenas já usou bombas atômicas, mas continua a ameaçar que as usará novamente contra outros países, entre os quais o Irã. E outro país europeu fez semelhante ameaça nuclear, sob falso pretexto, há poucos anos. Além do regime sionista, que incansavelmente repete a mesma ameaça contra países do Oriente Médio.

5 – A exploração instrumental do Conselho de Segurança e da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA)

Porque gozam de privilégios nos corpos mais altos de decisões sobre segurança global e na Agência Internacional, alguns Estados nucleares exploram essas plataformas contra Estados não-nucleares, em movimento oposto ao do espírito do NPT. Essa prática injusta, repetida sempre e sempre, é hoje padrão de ação.

Por isso, nenhum dos Estados não-nucleares tem conseguido, sequer, exercitar seu direito inalienável ao uso da energia nuclear para finalidades pacíficas, sem se tornar alvo de pressões e ameaças. Apesar do que claramente determina o artigo IV do Tratado e o Estatuto da IAEA, não há notícia de relatório dos inspetores daquela Agência sobre instalações nucleares dos EUA e seus aliados, nem de qualquer plano de desarmamento entre eles; mas já se adotaram Resoluções contra Estados não-nucleares, sob a pressão dos Estados nucleares, sob falso pretexto – e sempre com a clara intenção de negar aos países não nucleares o gozo de direitos legais e reconhecidos.

6 – Dois pesos, duas medidas

Simultaneamente, o regime sionista, que armazena centenas de ogivas nucleares, já fez várias guerras na Região e continua a ameaçar povos e nações da Região com terrorismo e invasões, goza de apoio incondicional do governo dos EUA e seus aliados e receptadores, além da indispensável assistência para desenvolver seu programa de armas nucleares. Os mesmos Estados impõem vários tipos de pressão sobre os membros da IAEA, sob o pretexto falso de uso indevido de programas sabidamente pacíficos, sem jamais produzir uma prova crível, que seja, de suas acusações.

7 – Usar como expressões equivalentes “arma nuclear” e “energia nuclear”

A energia nuclear é uma das fontes mais limpas e mais baratas de energia. Mudanças climáticas severas e a poluição ambiental provocadas pelos combustíveis fósseis tornaram premente a necessidade de expandir-se o emprego da energia nuclear. Quase 7 mil barris de óleo são consumidos para a geração contínua de 1.000 megawatts de eletricidade ao ano, o que, aos preços atuais do óleo cru custa acima de 500 milhões de dólares. O custo de gerar a mesma capacidade com energia nuclear é de cerca de 60 milhões de dólares. Em termos gerais, o investimento necessário para construir e utilizar uma usina de energia nuclear é inferior a menos da metade do custo de uma usina que consuma combustível fóssil ao longo de sua vida útil.

A tecnologia nuclear pode ser usada amplamente e eficazmente na produção de isótopos para uso medicinal, no diagnóstico e tratamentos de doenças graves, assim como na indústria, na agricultura e em outros campos.

Uma das mais graves injustiças cometidas pelos Estados não-nucleares é difundir a ideia de que “armas nucleares” e “energia nuclear” seriam coisas equivalentes.

A verdade é que os Estados nucleares querem o monopólio nos dois campos, tanto das armas nucleares quanto do uso pacífico da energia nuclear e, assegurado o monopólio nos dois campos, visam a impor seu desejo a toda a comunidade internacional.

Todos esses pontos expostos até aqui são absolutamente contrários ao espírito do Tratado de Não-proliferação. E essas práticas implicam flagrante violação dos termos daquele Tratado.

8 – Descompasso entre os fundamentos do Tratado e as ações da Agência Internacional de Energia Atômica

Apesar de a razão de ser do Tratado de Não-proliferação e sua principal missão ser a prevenção da corrida armamentista nuclear, a promoção do desarmamento e a garantia de que países não-nucleares possam usar a energia nuclear para finalidades pacíficas, inseriram-se as mais impossíveis condições e condicionantes nos mecanismos e regulações, contraditoriamente mais pesadas sobre países que busquem o uso pacífico da energia nuclear. Na direção oposta, não se incluiu no Tratado qualquer mecanismo efetivo para enfrentar a verdadeira ameaça das armas nucleares – quando essa, afinal, deveria ser a principal missão da Agência Internacional. Nessa direção, todos os esforços são, no máximo, conversações, sem qualquer mecanismo ou regulação que limite os abusos e garanta a efetividade do controle contra abuso de armas nucleares.

A IAEA dedica-se a pressionar o mais possível os países não-nucleares, sob o pretexto de que há risco de proliferação nuclear, ao mesmo tempo em que os Estados cujos arsenais estão abarrotados de ogivas nucleares gozam de completa imunidade e de direitos exclusivos, de privilégio.

Caros amigos,

Já está suficientemente claro que a produção e armazenamento de armas nucleares e as políticas praticadas por alguns Estados nucleares, além do descompasso entre o espírito, as resoluções e as práticas da IAEA, são as principais causas da insegurança e serviram como incentivo para o desenvolvimento daquelas armas.

Hoje, o desarmamento nuclear, a eliminação da ameaça nuclear e a não-proliferação são vistas como o mais importante impulso que se pode dar ao estabelecimento de paz, segurança e fraternidade sustentáveis.

A questão é, contudo, se se alcançarão esses objetivos, se continuarmos a atribuir poder especial aos Estados nucleares dentro da IAEA, ao mesmo tempo em que lhes atribuímos tanto poder na questão do desarmamento nuclear.

Seria ingenuidade, seria, mesmo, irracional, esperar deles qualquer iniciativa voluntária na direção do desarmamento e da não-proliferação, pela suficiente razão de que os Estados nucleares consideram as armas atômicas como instrumentos essenciais para garantir a própria superioridade.

Provérbio iraniano ensina que “a faca nunca corte o próprio cabo”.

Esperar que os maiores comerciantes de armas do planeta trabalhem para defender a paz e a segurança é fantasia.

O governo dos EUA – país que é o principal suspeito na produção, no armazenamento, no uso e nas ameaças de uso das armas nucleares –, insiste em assumir a liderança da revisão do Tratado de Não-proliferação. Em documento divulgado há poucos dias, “Nuclear Posture Review 2010” (NPR), os EUA anunciaram que não produzirão novas armas nucleares nem atacarão com bombas atômicas os Estados não-nucleares.

Os EUA jamais respeitaram qualquer dos seus compromissos. Pode-se perguntar o quanto alguma nação poderia realmente confiar nos EUA, para que cumpram os compromissos que assumam. Que garantias haveria, de que os EUA realmente farão o que dizem que farão, e não farão o que dizem que não farão? Que instrumentos há para fazer qualquer fiscalização independente do cumprimento desses compromissos?

É preciso não esquecer que, nas últimas décadas, praticamente todas as guerras e conflitos que os EUA protagonizaram foram guerras e conflitos contra seus ex-aliados e ex-amigos. Mais do que isso, nos termos daquele mesmo documento NPR-2010, alguns Estados membros da IAEA que também são signatários do Tratado de Não proliferação são ameaçados e postos como alvos possíveis de um futuro ataque nuclear preventivo!

O governo dos EUA sempre tenta desencaminhar a atenção da opinião pública, afastando-a das ações ilegais e de não cumprimento de acordos dos EUA, e transferindo o foco da atenção para questões momentâneas. Recentemente, levantaram a questão do terrorismo nuclear, como pretexto para conservar e ampliar seus arsenais nucleares por um lado; e, por outro lado, para afastar a atenção da opinião pública da questão do desarmamento e da evidência de que os EUA continuam a armar terroristas com bombas atômicas. Esse tipo de artimanha só pode ser imaginada por Estado que tenha grande arsenal atômico, que já o tenha usado e que tenha longa ficha corrida de apoio a terroristas.

Na NPR-2010, os EUA mantêm silêncio sobre a possibilidade de atacarem Estados nucleares, para concentrarem a pressão da propaganda sobre Estados não nucleares independentes.

Por isso algumas grandes redes de terrorismo são apoiadas pelas agências secretas dos EUA e do regime sionista. Provas confiáveis disso serão disponibilizadas, se necessário, na próxima Conferência Global Contra o Terrorismo, em Teerã.

Na NPR-2010, anota-se que os EUA não desenvolverão armas nucleares, mas que continuarão a aperfeiçoar as que existem. “Aprimorar” armas nucleares significa torná-las mais letais e mais destrutivas – e isso é fazer proliferar armas nucleares. Não bastasse, essas políticas são absolutamente opacas, sem transparência, sem mecanismos de verificação e acompanhamento, pela suficiente razão de que não há programa ou autoridade independente que fiscalize e supervisione os programas nucleares dos EUA e seus aliados.

Se se comparam a Cúpula de Segurança Nuclear de Washington e a Conferência Pró-desarmamento e Pela Não-proliferação Nuclear de Teerã, vê-se que a primeira foi organizada com o objetivo claro de preservar o monopólio e a superioridade nuclear dos EUA sobre outros Estados. Na Conferência de Teerã, todos buscavam meios de chegar a um mundo livre de armas nucleares. O lema da Conferência de Teerã foi “Energia Nuclear para Todos. Armas Atômicas para Ninguém!”

Senhor presidente,

Ilustres Delegados,

Para que alcancemos a aspiração humana de completos desarmamento nuclear e não-proliferação, e para que todos tenham direito aos benefícios do uso pacífico da energia nuclear, tenho a oferecer as propostas seguintes:

1 – 1 – Revisão e acompanhamento do “Tratado de Não-proliferação”.

O atual NPT deve ser convertido em “Tratado Pró-Desarmamento Nuclear e pela Não-proliferação” [ing. Nuclear Disarmament and Non-Proliferation Treaty, DNPT (sic)] e o desarmamento nuclear deve ser introduzido no centro de todas as disposições e ordenamentos do novo documento, associado a mecanismos efetivos, apoiados em garantias internacionais confiáveis.

2 – Estabelecimento de um grupo internacional independente com plena autoridade delegada por essa Conferência para elaborar um conjunto de providências e orientações para tornar operativas as provisões do artigo VI do NTP, incluindo planejamento e mecanismos efetivos para supervisionamento do desarmamento nuclear, que efetivamente evitem a proliferação.

O grupo deve conduzir seu trabalho com participação efetiva de todos os países, com data determinada para apresentar resultados – a completa eliminação de todas as armas nucleares hoje existentes – e cronograma completo de etapas.

3 – Introdução de um conjunto legal, amplo e compreensivo de garantias de segurança, sem discriminação ou precondições, que será vigente até que se complete o desarmamento nuclear, a ser subscrito e respeitado por todos os Estados nucleares.

4 – Fim imediato de todos os tipos de pesquisa, desenvolvimento ou “aprimoramento” de armas nucleares e respectivas unidades de produção e armazenamento, e introdução, nesse contexto, de um mecanismo também para supervisionamento, pelo grupo internacional independente, exposto no item anterior.

5 – Adoção de um instrumento que proíba legal, formal e completamente a produção, o armazenamento, a proliferação, a manutenção e o uso de armas nucleares.

6 – Suspensão, do corpo de Diretores [ing. Board of Governors] da Agência Internacional de Energia Atômica, de todos os Estados que ataquem ou ameacem atacar com armas nucleares.

A presença e a influência política desses Estados têm impedido, até hoje, que a IAEA cumpra de fato sua missão, sobretudo no que tenha a ver com os artigos IV e VI do Tratado. Devido à presença e à influência desses Estados, a Agência tem sido desviada na condução de suas missões autorizadas.

De fato, como poderia o governo dos EUA participar do corpo diretor da IAEA, se é Estado que não só usou bomba nuclear (contra o Japão), como também, mais recentemente, usou armamento e munição produzida com urânio empobrecido, na guerra do Iraque?

7 – Cessação de todos os tipos de cooperação nuclear com Estados não-signatários do Tratado de Não-Proliferação, e adoção de medidas punitivas contra Estados que mantenham cooperação nuclear com Estados não-signatários.

8 – Se se considera que qualquer ameaça de ataque nuclear contra instalações nucleares civis e para objetivos pacíficos é ameaça à paz e à segurança internacionais, recomenda-se rápida reação da ONU e o fim de toda cooperação dos Estados signatários do Tratado de Não-Proliferação com o Estado agressor/ameaçante.

9 – Imediata e incondicional implementação da Resolução adotada na Conferência de Revisão de 1995, sobre a criação de Zona Desnuclearizada no Oriente Médio.

10 – Imediato e completo desmonte das armas nucleares dos EUA armazenadas nas bases militares dos EUA e aliados, inclusive na Alemanha, na Itália, no Japão e na Holanda.

11 – Esforço coletivo para reformar a estrutura do Conselho de Segurança.

A estrutura atual do Conselho de Segurança é extremamente desequilibrada e ineficiente e só atende aos interesses dos Estados nucleares. Reformar a estrutura do Conselho, além de revisar e complementar os dispositivos e instrumentos do Tratado de Não-proliferação são medidas interrelacionadas e essenciais para que se atendam os objetivos da IAEA.


Ilustres Delegados,

Representando aqui o Irã, nação civilizada e de rica cultura, que sempre se orgulhou de suas raízes religiosas, empenhada em garantir mais justiça e mais paz para o mundo, anuncio que a República Islâmica do Irã está pronta para participar do trabalho de implementar essas propostas e planos com vistas ao desarmamento e à não-proliferação, assim como para defender o uso pacífico da energia limpa nuclear. (...) A lógica e o desejo da nação iraniana é reflexo da lógica e do desejo de todos os povos.

Todos os povos amam a paz, a fraternidade e o monoteísmo, e sofrem discriminação e injustiça. Muitos de meus companheiros chefes de Estado e muitos dos dignitários e campeões da luta por justiça e muitos especialistas e comentadores, em conversa comigo, concordam que é urgentemente necessário desarmar os Estados nucleares; expandir o uso pacífico da energia nuclear; e quebrar o monopólio imposto nesses campos. Para isso, construímos as propostas que lhes trazemos. Porque sabemos da importância e da urgência dessas propostas, fiz questão de vir pessoalmente a essa Conferência, como representante desse pensamento e dessas demandas.


Ilustres colegas,

Devo agora dizer algumas palavras aos que ainda entendem que a produção e armazenagem de armas nucleares seriam fontes de poder e dignidade.

Devem entender que o tempo de confiar em bomba atômica passou. A produção, a manutenção, a estocagem, o uso e a ameaça de atacar com bombas atômicas são práticas típicas de quem não busca nem lógica consistente nem atitudes sábias. São ideias e lógicas ultrapassadas, que não são viáveis no mundo contemporâneo. Vivemos tempos de nações, ideias e culturas. Confiar em armas, nas relações internacionais é legado de Estados anacrônicos, sem sabedoria.

É absolutamente claro que a política da hegemonia fracassou e o sonho de estabelecer e manter novos impérios é sonho e esperança vãos, irrealizáveis.

Em vez de manter a política fracassada de seus antecessores, melhor seria unir-se no vasto oceano transparente das muitas nações e diferenças, de Estados independentes, de sabedoria e cultura humanas contemporâneas. Isso seria andar na defesa do interesse de todos. O futuro pertence às nações. Segurança, paz e justiça são construções de povos virtuosos e de homens bons, em todo o mundo. O poder da lógica derrotará a lógica do poder. No futuro, não haverá lugar para o agressivo e o arrogante. O movimento comum das nações em todo o mundo, em busca de reformas fundamentais baseadas no monoteísmo e na justiça já começou nas relações internacionais.

Convido o presidente Obama dos EUA a unir-se nesse movimento humano, se ainda estiver comprometido com seu lema eleitoral de “mudança”, porque amanhã será tarde demais. Reconheço o esforço do presidente dessa Conferência, de todos que aqui acorreram e de quantos anseiam por mais paz e justiça no mundo.


Caros amigos,

Mediante cooperação, com solidariedade e em harmonia, nossa aspiração por um mundo abençoado de paz e justiça é aspiração alcançável. O lema “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém!” é a base para a interação entre os homens, e também para a interação entre homens e natureza.

Esperemos pelo dia em que, em mundo justo, ninguém mais será tomado pela fúria das guerras. E ainda que aconteça, esperemos que não encontre à mão, pelo menos, armas atômicas.

Pela justiça e pela liberdade.

Pelo amor e pelo afeto.

Saúdo os que se guiam pela escola da compaixão, humanos que amam humanos.

Desejo sucesso e prosperidade a todos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Criaturada do “índio sutil” faz artes

Influência das populações tradicionais amazônidas na cultura do Pará: uma dialética regional-universal em movimento.

“Laçar é arte que a gente morre nunca sabendo.” (filosofia de vaqueiro: Soure, Marajó; apud Dalcídio Jurandir em entrevista com Augusto Morbach, “Folha do Norte”, 1960).
No aprendizado contínuo da diversidade do arquipélago cultural ícones “regionais” abrem o universo Brasil ao mundo externo ao mesmo tempo que mostram o povo diante de um espelho. O mundo gaúcho, por exemplo, com Érico Veríssimo, a Bahia com Jorge Amado; falou-se em Mario de Andrade logo se pensa na Paulicéia desvairada... Assim por diante. No Pará, ao falar em literatura o nome de Dalcídio Jurandir salta à frente: mas nem Veríssimo é tudo no Rio Grande do Sul, nem tudo da Bahia é Amado; tampouco Mário ou Oswald de Andrade na “Semana de Arte Moderna” esgotam a rica diversidade e criaturada de São Paulo do café que Portinari retratou. O Pará velho de guerra tem muito mais que Dalcídio, nosso “índio sutil” na inspirada saudação de Jorge Amado, na Academia Brasileira de Letras, na sessão de entrega do “Machado de Assis” de 1972. Intelectuais de grande qualidade e fidelidade amazônida, como Marcio de Sousa e Milton Hatoum declaram ter Dalcídio Jurandir como mestre.
O que se quer frisar não é o “maior” nem “melhor” representante de cada região cultural. Mas a principal referência do mapa de cada uma. Por exemplo, acho que é consensual nos respectivos países que os poetas da Negritude, Aimé Cesaire na Martinica e Léon Damas na Guiana francesa são os principais ícones, pelo fato que eles – sínteses intelectuais vivas – interpretam os sentimentos e esperanças (para não dizer utopia) de seus povos. Como tantos outros em diversas regiões da Terra, tornaram-se, ao longo da vida, pais da negritude e guardas do “fogo sagrado” por um complicado processo em que o indivíduo se faz coletividade.
'Mutatis mutantis' a sociedade humana imita as abelhas e formigas que “elegem” dentre operárias uma destas últimas do reino para ser rainha da colmeia ou formigueiro. Entre a extrema simplicidade da vida dos insetos e a fantástica organização bizantina dos seres celestiais na alta imaginação das estrelas, subsiste a dura realidade e complexidade dos seres humanos na terra. Entretanto, a gente faz artes e ofícios intercomunicantes da cultura criando céus e infernos, inclusive.
É antes a sensibilidade neurocerebral de certos indivíduos em simbiose com a coletividade de seu tempo (que a psicologia e a neurociência talvez possam explicar, ainda que palidamente) dotados da “ânsia” de viver com razão e encontrar saída ao sofrimento e fugir do eterno dilema da existência em curso para a morte, que se transforma em ser social e cria espírito de comunidade.
Claro, homem nenhum é uma ilha e sozinho ninguém se salva nem vai para o inferno! Nem mesmo no mundo da animalidade, mãe da humanidade, subsiste indivíduo sem espécie. Isto posto, vejamos a passagem original da natureza para a cultura. Na Amazônia, 11 mil anos desafiam nossa vã filosofia: a cabo de cinco mil anos de nomadismo pelo seio da planície a várzea foi berço da civilização neotropical. Sendo a ilha do Marajó espaço natal da primeira cultura complexa, os cacicados da Amazônia. A arqueologia dá várias pistas tateando no labirinto do mito da primeira noite do mundo... Se não fosse a imaginação dos pajés, mais a utopia da Terra sem mal do bom selvagem tupinambá e a loucura sebastinista a gente ainda estaria (para o bem e o mal) no mato sem cachorro.
É da revelação deste mundo sem fundo que trata o romanceiro do “índio sutil', aliás crioulo filho de branco e de negra. Dalcídio Jurandir, homem-síntese da amazonidade profunda e que queria ser tratado apenas como um romancista marajoara. Certamente, para ser mais universal ainda. Vicente Salles informa que o escritor marajoara “não extrai desse universo qualquer imagem idealizada. As experiências foram vividas e, por isso, permitiram-lhe fazer com autenticidade a literatura do cotidiano, nos campos de Marajó, como nos bairros pobres de Belém.”... Diz com a autoridade que tem na matéria, que “não é possível escrever a história social paraense sem o conhecimento da obra de Dalcídio Jurandir”.
Em “Chão de Dalcídio” (revista Asas da Palavra, nº 4, Belém: UNAMA, 1996) Vicente Salles esclarece que no romance dalcidiano é marcante a presença de negros e mulatos. No entanto, a este mulato a intuição de Jorge Amado colou o apelido perfeito de “índio sutil”... O próprio Dalcídio preveniu que em “Chove nos campos de Cachoeira”, escrita na vila de pescadores de Salvaterra em 1939, depois de vagar pelas ilhas com um calhamaço de rascunho do romance; se encontra a obra toda em manifesto. No mesmo ano e lugar escreveu “Marajó” (único da série em que Alfredo não aparece, para depois por astúcia do autor o alter-ego puxar o segundo romance para dentro da jornada do ginasiano em “Primeira Manhã”, um choque frontal entre os anseios do menino ribeirinho e a educação oficial da cidade grande), que o crítico vislumbra um rebento amazônico do “velho romance “Dona Silvana”, chegado até nós de fontes ibéricas, modificou-se certamente neste contexto em que se agitam pretos e mulatos, caboclos e brancaranas em geral.”
Aí estão as fontes das letras paraenses, uma Amazônia ribeirinha onde o rio e o mar pelejam sem parar através da dialética da maré. E, inúmeras vezes, se harmonizam na singela paz da tipacoema e grandeza cósmica da preamar a um passo do paraíso na Terra...
É claro que Dalcídio coletou as suas chuvas como a ilha para inventar a Cultura Marajoara com o milagre dos peixes. Todavia, o romancista foi poeta e como tal teve um mestre, este também à semelhança do africano Senghor, do antilhano Cesaire e do guianense Damas um bardo da Negritude. Mas, a sutil diferença da negritude amazônida de Bruno e Dalcídio é que aqui o índio (como foi principalmente no Caribe, porém esquecido) foi o primeiro escravo do branco, o nosso “negro da Terra” cativo na Casa das Canoas. Celeiro da revolta da Cabanagem com os ventos que sopraram do Haiti (1804) – primeira república latino-americana – através das tropas paraenses mestiças da ocupação de Caiena (1809-1817) de regresso ao Pará.
Em suma, não dá para falar de Dalcídio sem seu mestre Bruno e de ambos sem a “Criaturada grande do Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas”. A negritude poética de Bruno converge no romanceiro do “índio sutil”. Ambos autodidatas, o mestre do bairro do Jurunas (Belém) é 16 anos mais velho que seu aprendiz de Cachoeira do Arari e não se conheceram, provavelmente, antes de 1922 ou 1923, quando Bruno fundou a revista modernista “Belém Nova”, enquanto diretor do departamento de Cooperativismo, da secretaria estadual de Agricultura.
Bruno de Menezes foi propagador do surrealismo e este é mais um ponto de contado da negritude paraense com as Antilhas de Cesaire, onde André Breton andou bebendo inspiração. O catolicismo popular povoado de encantaria, orixás e vóduns pelo sincretismo faz a ponte entre o altar da igreja e o terreiro. Deuses e santos dissimulam-se na face oculta da feira do Ver O Peso atrás de tabuleiros e bancas de ervas, mandingas e frutas exóticas, aí o poeta de “São Benedito da Praia” foi mestre.
O discípulo escrevia: “Bruno de Menezes: Meu babalaô – como vão os orixás, meu velho? Me lembro ainda da bênção da Mãe de Santo naquela tarde sagrada. Venho vindo do mar. Meu corpo de encantou num filho de Iemanjá! É preciso que os oguns rezem, que a mãe de santo evoque o pai dos orixás para o filho de santo se desatuar e volte ao terreiro... Como vamos de “Não posso me Amofiná”? [bloco de carnaval]. Pai João está alegre porque o seu babalaô faz falação no jornal. Notável. Análise aguda. Abençoou, babalaô? Dalcídio.”
Com a morte do amigo Bruno de Menezes, em Manaus, 1963, a correspondência Rio-Belém não se interrompeu senão com a morte de Dalcídio Jurandir (Rio de Janeiro, 1979): Maria de Belém Menezes, filha do poeta, abastece o romancista marajoara com notícias e coisas do Pará. Com que a criaturada grande foi exilada com seu fiel intérprete numa modesta morada carioca em Laranjeiras.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Midas na privatização da Cia. Vale do Rio Doce & a dança dos cifrõe$ de fundos de investimento

Em dólares, a valorização das ações da empresa na bolsa foi de 140% neste ano. Nos últimos 4 anos, seus lucros cresceram 556%. Desde que foi privatizada, em 1997, sua cotação na bolsa passou de US$ 10 bilhões para US$ 167 bilhões. Esses resultados garantiram à Vale o posto de 16ª maior empresa das Américas e 31ª do mundo, à frente de ícones, como a IBM, o banco de investimentos JP Morgan Chase etc.

Segunda-feira, 03/05/2010, 07h38
Noruegueses compram Albrás e Alunorte
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Multinacional Norsk Hydro, da Noruega, é a nova dona da Albrás, Alunorte e da Companhia de Alumina
A Vale surpreendeu ontem o mercado com a decisão de se desfazer de toda a sua área de alumínio, cuja cadeia produtiva completa está hoje concentrada no Estado do Pará. Através de release distribuído à imprensa, pela administração central no Rio de Janeiro, a mineradora anunciou a assinatura de um acordo através do qual transfere para a multinacional Norsk Hydro todas as suas participações na Albrás, na Alunorte e na Companhia de Alumina do Pará (CAP), a nova refinaria de alumina em fase de implantação no município de Barcarena.

A transferência se dá, conforme anunciou a mineradora, em conjunto também com seus respectivos direitos de exclusividade e contratos comerciais em vigor, por US$ 405 milhões em dinheiro e uma quantidade não especificada de ações ordinárias da Hydro. “Após oferta de ações a ser realizada futuramente pela Hydro, essa quantidade de ações deverá representar 22% do capital da Hydro. Além disso, a Hydro assumirá uma dívida líquida de US$ 700 milhões”, acrescentou a nota distribuída pela Vale.

Como parte dessa transação, a Vale criará uma nova empresa, denominada “Bauxite JV”, para a qual transferirá a mina de bauxita de Paragominas e todos os seus demais direitos minerários de bauxita no Brasil. Quando concluída a transação, a Vale venderá 60% da “Bauxite JV” para a Hydro, por US$ 600 milhões, em dinheiro. A parcela remanescente de 40% será vendida em duas parcelas iguais de 20% em 2013 e 2015. Cada parcela tem valor desde já fixado em US$ 200 milhões.

ACORDO

Pelos termos do acordo, uma vez finalizado, a Vale transferirá para a Hydro 51% do capital total da Albrás, 57% do capital total da Alunorte e 61% do capital total da CAP, bem como venderá 60% do capital total da “Bauxite JV”. Uma vez concluída a transação, a Vale deterá 40% de participação na “Bauxite JV”, que será integralmente vendida até 2015.

A participação da Vale na Hydro terá um período de lock-up de dois anos após a conclusão da transação, durante o qual a Vale não poderá vendê-la. Além disso, a mineradora terá direito a um representante no Conselho de Administração da Hydro, sujeito a aprovação pelos órgãos de governança da empresa norueguesa. Como parte da transação, a Vale não poderá aumentar sua participação além de 22%.

A conclusão da transação, aprovada pelos Conselhos de Administração das duas empresas, conforme esclareceu a Vale na nota que distribuiu à imprensa, dependerá “da satisfação de condições precedentes”. Entre estas, a aprovação pelos acionistas da Hydro, incluindo o governo da Noruega, e sócios da Vale nas empresas nas quais a participação será transferida para a Hydro. “Uma vez que todas as aprovações requeridas sejam obtidas, espera-se que a transação seja finalizada no quarto trimestre de 2010”, esclareceu a mineradora.

>> Derrota no leilão de Belo Monte seria motivo

A decisão de se desfazer dos seus ativos da área de alumínio foi tomada pela Vale menos de duas semanas depois de disputar e perder o leilão de concessão da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. O leilão foi realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no dia 20 de abril. Tido como virtual vencedor, o consórcio Belo Monte Energia, liderado pela Vale e pela Andrade Gutierrez, acabou derrotado pelo consórcio Norte Energia, liderado pela Queiroz Galvão e com participação da Chesf em 49,98%.

Na nota que distribuiu ontem, a Vale fez referência a dificuldades de acesso a fontes de energia de baixo custo, sem no entanto deixar claro se foi esta ou não a principal razão que a levou a passar em frente os seus empreendimentos eletrointensivos da área de alumínio. Por outro lado, se a empresa tinha intenção de se desfazer desses ativos, não fica muito clara a razão pela qual ela tinha interesse em participar de um megaprojeto como o de Belo Monte.

A geração de energia, de qualquer forma, sempre foi definida como “prioridade” pela direção da Vale. Como grande consumidor, a empresa acredita que o ato de investir em projetos de geração de energia, para atender às suas operações, é o meio mais eficaz de proteção contra a volatilidade dos preços, contra eventuais riscos regulatórios e também de suprimento. Atualmente, 34% do consumo global de eletricidade da Vale é atendido por produção própria, com usinas no Brasil, Canadá e Indonésia.

Atualmente a Vale tem participação em oito usinas hidrelétricas de geração de energia em território brasileiro, com potência total instalada de 2.509 MW. A participação média da mineradora, sempre em parceria com empresas públicas e privadas, é de 39%. A expectativa da empresa, considerando os investimentos previstos, é de que até o final deste ano seus empreendimentos de geração de energia serão capaz de produzir 15 milhões de MW.

Ao se desfazer dos empreendimentos da área de alumínio, a Vale transfere o controle da Albrás, a primeira fábrica de alumínio primário da Região Norte do país, que no ano passado produziu 446 mil toneladas e gerou divisas da ordem de US$ 712 milhões. A mineradora abre mão também da Alunorte, que entrou em operação em 1995 e já é hoje a maior produtora de alumina do mundo. Depois de passar por três expansões, a refinaria saiu de um patamar de 1,6 milhão na sua fase inicial para uma capacidade instalada hoje de 6,3 milhões de toneladas.

>> Vale: difícil acesso a fontes de energia a baixo custo

De acordo com a nota emitida pela Vale, a administração ativa do seu portfólio de ativos é um dos pilares da estratégia para a criação de valor em base sustentável. “A Vale está bem posicionada no upstream da cadeia do alumínio, com ativos de classe mundial de bauxita e alumina. No entanto, nossa participação na indústria de alumínio primário é pequena, e sem potencial de crescimento devido à falta de acesso a fontes de energia de baixo custo. E energia é um fator fundamental para a competitividade nessa indústria”, acrescentou.

Ressaltou a nota da Vale que a Hydro é uma grande produtora de alumínio primário, “tendo acesso à energia com custos competitivos, expertise tecnológica e potencial de crescimento”. A combinação dos ativos da Vale e da Hydro, conforme frisou, “criará uma das maiores e mais competitivas companhias, uma produtora integrada de alumínio, com acesso a grandes reservas de bauxita, baixo custo de energia e know-how tecnológico”.

ACIONISTAS

A mineradora brasileira observou ainda que, dado que ela permanecerá exposta ao negócio de alumínio, através de uma participação acionária significativa na empresa combinada, acredita fortemente que essa transação “criará valor substancial” para os seus acionistas.

Uma fonte credenciada da Vale disse ontem, por telefone, que a Mineração Rio do Norte, que produz bauxita no município de Oriximiná, não foi incluída na transação – pelo menos por enquanto – porque ela é apenas coligada, mas não controlada pela Vale. Acrescentou que a decisão foi comunicada ontem mesmo ao Governo do Estado. O porta-voz da informação foi o diretor de alumínio da empresa, Ricardo Carvalho, que conversou com o secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, Maurílio Monteiro, e por telefone com a governadora Ana Júlia Carepa.

Ricardo Carvalho esteve reunido ontem, também, com os executivos da Albrás e da Alunorte, para lhes comunicar a decisão, e depois viajou com destino a Paragominas, onde, com o mesmo objetivo, participou de um encontro com os executivos da empresa que atuam no projeto de extração de bauxita.

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Norsk Hydro ASA (Hydro), é uma energia e uma empresa de alumínio. Ela está envolvida na produção de energia hidroeléctrica e da produção de alumínio primário e produtos de alumínio. A empresa opera sites de alumínio principal de produção na Europa, Canadá e Austrália, juntamente com uma ampla rede de instalações de refusão de alumínio. Ela está sediada em Oslo, Noruega. As operações da empresa estão espalhadas por 40 países na Europa, os E.U., Canadá, outras Américas, África, Ásia, Austrália e Nova Zelândia. Atualmente, a empresa ocupa a segunda posição em termos de geração de energia elétrica na Noruega, e é o quinto maior produtor de mundos de metal de alumínio.



CAMINHO DAS PEDRAS:
PRIVATIZAÇÃO DA CVRD > CRESCIMENTO DA VALE > BONDADES AMBIENTAIS (fundo Amazônia) > CONTROLE MULTINACIONAL
legal!!!...(porque $ pra quem Belo Monte??????).................


um negócio ANUNCIADO: 13/01/2000

A Vale do Rio Doce Alumínio S.A. – (ALUVALE) e a Hydro Aluminium A.S (Hydro) implementaram hoje a participação da Hydro na Alunorte – Alumina do Norte do Brasil S.A. (Alunorte), uma refinaria de alumina localizada no Estado do Pará, Brasil, através da aquisição, pela Hydro, de 25,25% das ações da Alunorte com direito a voto.
Esta transação representa um passo importante na reestruturação financeira e societária da Alunorte, que tem sido um objetivo expresso da Companhia Vale do Rio Doce ("CVRD"), controladora da Aluvale, desde a privatização, ocorrida em 1997. A referida transação possibilitará à Hydro retirar aproximadamente 380.000 toneladas de alumina por ano, melhorando significativamente a sua posição no mercado de alumina.
Aluvale e Hydro também assinaram hoje uma Carta de Intenções para expandir a capacidade da Alunorte em aproximadamente 50%, de 1.500.000 para 2.325.000 toneladas por ano. Os outros acionistas da Alunorte poderão participar desta expansão mas, de qualquer forma, Aluvale e Hydro garantem, desde já, a participação de até 50% cada. As empresas esperam que os trabalhos de implantação sejam iniciados ainda este ano.
Ademais, a fim de atender as necessidades de bauxita da Alunorte, Aluvale e Hydro fornecerão quantidade adicional de bauxita da Mineração Rio do Norte S.A. ("MRN"), que detém uma mina de bauxita no Estado do Pará, Brasil, para a Alunorte.
As transações acima descritas foram objeto de um Memorando de Entendimento (MoU) assinado entre Aluvale e Hydro no dia 8 de julho de 1999. Tais transações puderam ser concluídas agora uma vez que todas as condições precedentes contidas no MoU foram totalmente preenchidas.
Além disso, em novembro do ano passado, Aluvale e Hydro assinaram acordo de longo prazo para a venda de 1.000.000 toneladas de alumínio primário proveniente da Albras – Alumínio Brasileiro S.A. ("Albras"), um fábrica de alumínio localizada próxima à Alunorte, e onde a Aluvale detém participação. As entregas decorrentes deste contrato começarão no primeiro trimestre deste ano.
Aluvale e Hydro também estão discutindo um acordo de cooperação técnica na produção na produção de alumina e alumínio. Este acordo deverá incluir a Albras e as fábricas de alumínio da Hydro na Noruega, bem como as refinarias da Alunorte e de Alpart, na Jamaica, onde a Hydro detém participação.
A Aluvale é subsidiária integral da Companhia Vale do Rio Doce, a maior produtora e exportadora do mundo de minério de ferro. As operações integradas de alumínio da CVRD estão entre as maiores da América Latina em termos de volume. A Aluvale também é acionista majoritária das produtoras de alumínio primário Albras – Alumínio Brasileiro S.A. (51%) e Valesul Alumínio S.A.(54,5%), com uma capacidade total de 450.000 toneladas de alumínio primário.
A Hydro é subsidiária integral da Norsk Hydro ASA, a maior companhia industrial da Noruega, que tem como principais atividades petróleo e energia, fertilizantes e metais leves. A Hydro Aluminium Metal Products, divisão de alumínio primário da Norsk Hydro, é a maior fornecedora de produtos de alumínio em fundição na Europa e nos Estados Unidos, com uma capacidade de produção de alumínio primário de aproximadamente 740.000 toneladas nas plantas que detém total ou parcialmente na Noruega e na Eslováquia. Além disso, a Hydro possui acordos comerciais de longo prazo com várias empresas na Europa e nos Estados Unidos