Origem da palavra JEJE
A palavra JEJE vem do yorubá adjeje que significa estrangeiro, forasteiro. Portanto, não existe e nunca existiu nenhuma nação Jeje, em termos políticos. O que é chamado de nação Jeje é o candomblé formado pelos povos fons vindo da região de Dahomé e pelos povos mahins. Jeje era o nome dado de forma perjurativa pelos yorubás para as pessoas que habitavam o leste, porque os mahins eram uma tribo do lado leste e Saluvá ou Savalu eram povos do lado sul. O termo Saluvá ou Savalu, na verdade, vem de "Savê" que era o lugar onde se cultuava Nanã. Nanã, uma das origens das quais seria Bariba, uma antiga dinastia originária de um filho de Oduduá, que é o fundador de Savê (tendo neste caso a ver com os povos fons). O Abomei ficava no oeste, enquanto Axantis era a tribo do norte. Todas essas tribos eram de povos Jeje
· Origem da palavra DAHOMÉ
A palavra DAHOMÉ, tem dois significados: Um está relacionado com um certo Rei Ramilé que se transformava em serpente e morreu na terra de Dan. Daí ficou "Dan Imé" ou "Dahomé", ou seja, aquele que morreu na Terra da Serpente. Segundo as pesquisas, o trono desse rei era sustentado por serpentes de cobre cujas cabeças formavam os pés que iam até a terra. Esse seria um dos significados encontrados: Dan = “serpente sagrada” e Homé = “a terra de Dan”, ou seja, Dahomé = “a terra da serpente sagrada”. Acredita-se ainda que o culto à Dan é oriundo do antigo Egito. Ali começou o verdadeiro culto à serpente, onde os Faraós usavam seus anéis e coroas com figuras de cobra. Encontramos também Cleópatra com a figura da cobra confeccionada em platina, prata, ouro e muitos outros adornos femininos. Então, posso dizer que este culto veio descendo do Egito até Dahomé.
· Dialetos falados
Os povos Jejes se enumeravam em muitas tribos e idiomas, como: Axantis, Gans, Agonis, Popós, Crus, etc. Portanto, teríamos dezenas de idiomas para uma tribo só, ou seja, todas eram Jeje, o que foge evidentemente às leis da lingüística - muitas tribos falando diversos idiomas, dialetos e cultuando os mesmos Voduns. As diferenças vinham, por exemplo, dos Minas - Gans ou Agonis, Popós que falavam a língua das Tobosses, que a meu ver, existe uma grande confusão com essa língua.
· Os primeiros no Brasil
Os primeiros negros Jeje chegados ao Brasil entraram por São Luís do Maranhão e de São Luís desceram para Salvador, Bahia e de lá para Cachoeira de São Félix. Também ali, há uma grande concentração de povos Jeje. Além de São Luís (Maranhão), Salvador e Cachoeira de São Félix (Bahia), o Amazonas e bem mais tarde o Rio de Janeiro, foram lugares aonde encontram-se evidências desta cultura.
· Classificação dos Voduns
Muitos Voduns Jeje são originários de Ajudá. Porém, o culto desses voduns só cresceram no antigo Dahomé. Muitos desses Voduns não se fundiram com os orixás nagos e desapareceram totalmente. O culto da serpente Dãng-bi é um exemplo, pois ele nasceu em Ajudá, foi para o Dahomé, atravessou o Atlântico e foi até as Antilhas.
Quanto a classificação dos Voduns Jeje, por exemplo, no Jeje Mahin tem-se a classificação do povo da terra, ou os voduns Caviunos, que seriam os voduns Azanssu, Nanã e Becém. Temos, também, o vodun chamado Ayzain que vem da nata da terra. Este é um vodun que nasce em cima da terra. É o vodun protetor da Azan, onde Azan quer dizer "esteira", em Jeje. Achamos em outro dialeto Jeje, o dialeto Gans-Crus, também o termo Zenin ou Azeni ou Zani e ainda o Zoklé. Ainda sobre os voduns da terra encontramos Loko. Ele apesar de estar ligado também aos astros e a família de Heviosso, também está na família Caviuno, porque Loko é árvore sagrada; é a gameleira branca, que é uma árvore muito importante na nação Jeje. Seus filhos são chamados de Lokoses. Ague, Azaká é também um vodun Caviuno. A família Heviosso é encabeçada por Badë, Acorumbé, também filho de Sogbô, chamado de Runhó. Mawu-Lissá seria o orixá Oxalá dos yorubás. Sogbô também tem particularidade com o Orixá em Yorubá, Xangô, e ainda com o filho mais velho do Deus do trovão que seria Averekete, que é filho de Ague e irmão de Anaite. Anaite seria uma outra família que viria da família de Aziri, pois são as Aziris ou Tobosses que viriam a ser as Yabás dos Yorubás, achamos assim Aziritobosse. Estou falando do Jeje de um modo geral, não especificamente do Mahin, mas das famílias que englobam o Mahin e também outras famílias Jeje.
Como relatei, Jeje era um apelido dado pelos yorubás. Na verdade, esta família, ou seja, nós que pertencemos a esta nação deveríamos ser classificados de povo Ewe, que seria o mais certo. Ewe-Fon seria a nossa verdadeira denominação. Nós seríamos povos Ewe ou povos Fons. Então, se fôssemos pensar em alguma possibilidade de mudança, nós iríamos nos chamar, ao invés de nação Jeje, de nação Ewe-Fon. Somente assim estaríamos fazendo jus ao que é encontrado em solo africano. Jeje é então um apelido, mas assim ficamos para todas as nossas gerações classificados como povo Jeje, em respeito aos nossos antepassados.
Continuando com algumas nomenclaturas da palavra Ewe-Fon, por exemplo, a casa de candomblé da nação Jeje chama-se Kwe = "casa". A casa matricial em Cachoeira de São Félix chama-se Kwe Ceja Undé. Toda casa Jeje tem que ser situada afastada das ruas, dentro de florestas, onde exista espaço com árvores sagradas e rios. Depende das matas, das cachoeiras e depende de animais, porque o Jeje também tem a ver com os animais. Existem até cultos com os animais tais como, o leopardo, crocodilo, pantera, gavião e elefante que são identificados com os voduns. Então, este espaço sagrado, este grande sítio, esta grande fazenda onde fica o Kwe chama-se Runpame, que quer dizer "fazenda" na língua Ewe-Fon. Sendo assim, a casa chama-se Kwe e o local onde fica situado o candomblé, Runpame. No Maranhão predomina o culto às divindades como Azoanador e Tobosses e vários Voduns onde a "sacerdotisa" é chamada Noche e o cargo masculino, Toivoduno.
· Os fundadores
Voltando a falar sobre "Kwe Ceja Undé", esta casa como é chamada em Cachoeira de São Félix de "Roça de Baixo" foi fundada por escravos como Manoel Ventura, Tixerem, Zé do Brechó e Ludovina Pessoa.
Ludovina Pessoa era esposa de Manoel Ventura, que no caso africano é o dono da terra. Eles eram donos do sítio e foram os fundadores da Kwe Ceja Undé. Essa Kwe ainda seria chamada de Pozerren, que vem de Kipó, "pantera".
Darei um pequeno relatório dos criadores do Pozerren Tixarene que seria o primeiro Pejigan da roça; e Ludovina, pessoa que seria a primeira Gaiacú.
A roça de cima que também é em Cachoeira é oriunda do Jeje Dahomé, ou seja, uma outra forma de Jeje. Estou falando do Mahin, que era comandada por Sinhá Romana que vinha a ser "Irmã de santo" de Ludovina Pessoa (esta última mais tarde assumiria o cargo de Gaiacú na Kwe de Boa Ventura). Mas, pela ordem temos Manoel Ventura, que seria o fundador, depois viria Sinhá Pararase, Sinhá Balle e atualmente Gamo Loko-se. O Kwe Ceja Undé encontra-se em controvérsia, ou seja, Gamo Loko-se é escolhida por Sinhá Pararase para ser a verdadeira herdeira do trono e Gaiacú Agué-se, que seria Elisa Gonçalves de Souza, vem a ser a dona da terra atualmente. Ela pertence a família Gonçalves, os donos da terra. Assim, temos os fundadores da Kwe Ceja Undé.
Aqui, no Rio de Janeiro, saindo de Cachoeira de São Félix, Tatá Fomutinho deu obrigação com Maria Angorense, conhecida como Kisinbi Kisinbi.
Uma das curiosidades encontradas durante minha pesquisa sobre Jeje é o que chamamos de Deká, que na verdade vem do termo idecar, do termo fon iidecar, que quer dizer "transmissão de segredo". Esse ritual é feito quando uma Gaiacú passa os segredos da nação Jeje para futura Gaiacú pois, na nação Jeje não se tem notícias, que possa ter havido "Pai de santo". O cargo de sacerdotisa ou "Mãe de santo" era exclusivamente das mulheres. Só as mulheres poderiam ser Gaiacús.
· Ogans
Os cargos de Ogan na nação Jeje são assim classificados: Pejigan que é o primeiro Ogan da casa Jeje. A palavra Pejigan quer dizer “Senhor que zela pelo altar sagrado”, porque Peji = "altar sagrado" e Gan = "senhor". O segundo é o Runtó que é o tocador do atabaque Run, porque na verdade os atabaques Run, Runpi e Lé são Jeje. No Ketu, os atabaques são chamados de Ilú. Há também outros Ogans como Gaipé, Runsó, Gaitó, Arrow, Arrontodé, etc.
Podemos ver que a nação Jeje é muito particular em suas propriedades. É uma nação que vive de forma independente em seus cultos e tradições de raízes profundas em solo africano e trazida de forma fiel pelos negros ao Brasil.
· Mina Jeje
Em 1796, foi fundado no Maranhão o culto Mina Jeje pelos negros fons vindos de Abomey, a então capital de Dahomé, como relatei anteriormente, atual República Popular de Benin.
A família real Fon trouxe consigo o culto de suas divindades ancestrais, chamados Voduns e,principalmente, o culto à Dan ou o culto da Serpente Sagrada.
Uma grande Noche ou Sacerdotisa, posteriormente, foi Mãe Andresa, última princesa de linhagem direta Fon que nasceu em 1850 e morreu em 1954, com 104 anos de vida.
Aqui, alguns nomes dos Deuses Voduns:
*Ayzan - Vodun da nata da terra
*Sogbô - Vodun do trovão da família de Heviosso
*Aguê - Vodun da folhagem
*Loko - Vodun do tempo
· Curiosidades
*A primeira Casa Jeje no Rio de Janeiro foi, em 1848, de D.Rozena, cuja filha de santo foi D.Adelaide Santos
*Ekede – termo Jeje
*Done – cargo feminino na casa Jeje, similar à Yalorixá
*Doté – cargo ilustre do filho de Sogbô
Os vodun-ses da família de Dan são chamados de Megitó, enquanto que da família de Kaviuno, do sexo masculino, são chamados de Doté; e do sexo feminino, de Doné.
Os cumprimentos ou pedidos de bençãos entre os iniciados da família de Dan seria “Megitó Benoí?” Resposta: “Benoí”; e aos iniciados da família Kaviuno, ou seja, Doté e Doné seria “Doté Ao?” Resposta: "Aótin".
O termo usado "Okolofé", cuja resposta é "Olorun Kolofé" vem da fusão das Nações de Jeje e de Ketu.
Algumas palavras do dialeto ewe:
*esin = água
*atinçá = árvore
*agrusa = porco
*kpo = pote
*zó ou izó = fogo
*avun = cachorro
*nivu = bezerro
*bakuxé = parto de barro
*kuentó = kuentó
*yan = fio de contas
*vodun-se = filho do vodun ou iniciados da Nação Jeje
*yawo = filho do vodun ou iniciados da Nação Ketu
*muzenza = filho do vodun ou iniciados da Nação Angola
*tó = banho
*zandro = cerimônia Jeje
*sidagã = auxiliar da Dagã na Cerimônia a Legba
*zerrin = ritual fúnebre Jeje
*sarapocã = cerimônia feita 07(sete) dias antes da festa pública de apresentação do(a) iniciado(a) no Jeje
*sabaji = quarto sagrado onde fica os assentos dos Voduns
*runjebe = colar de contas usado após 07(sete) anos de iniciação
*runbono = primeiro filho iniciado na Casa Jeje
*rundeme = quarto onde fica os Voduns
*ronco = quarto sagrado de iniciação
*bejereçu = cerimônia de matança
Esta é uma homenagem a todos os povos Jejes.
Arró-bo-boí!
A INFLUÊNCIA DAS PALAVRAS JEJE NA CULTURA AFRO-BRASILEIRA
A cultura Jeje vinda do Antigo Dahomé, que antes abrangia o Togo e fazia fronteira com o país de Gana é, sem dúvida, uma das maiores contribuições culturais deixada pelos negros fons no Brasil.
Estes povos Adjejes, como eram chamados pelos yorubás, estabeleceram fundamentos nos seguintes lugares: Cachoeira de São Félix, na Bahia; Recife, em Pernambuco e São Luís, no Maranhão. Houve durante um período uma influência da cultura yorubá, daí essa mistura passar a ser chamada de: Cultura Jeje-Nagô. Essa mistura, como expliquei, adveio principalmente dos yorubás com várias tribos Jejes. Dentre elas destacaram-se: tribo Gan, Fanti, Axanti, Mina e Mahin. Estes últimos, ou mahins, tiveram maior destaque sobre as demais culturas Jeje, no Brasil.
Estes negros falavam o dialeto ewe que, por ser marcante, influenciou por demais a cultura yorubá e também a cultura bantu. Como exemplo, cito os nomes que compõem um barco de yawo: Dofono, Dofonitin, Fomo, Fomutin, Gamu, Gamutin e Vimu, Vimutin.
Outras palavras Jeje foram incorporadas não só na cultura afro-brasileira como também no nosso dia-a-dia, como por exemplo: Acassá, “faca” que no original ewe é escrita com “K” ao invés de “C”. Outra palavra Jeje que ficou no nosso cotidiano foi a palavra “tijolo” que em ewe é Tijoló.
A TRADIÇÃO JEJ: O VODUN JEJE SOGBÔ E A PROVA DE ZO
A tradição dos povos fons que aqui no Brasil foram chamados de Adjeje ou Jeje pelos yorubás, requer um longo confinamento quando na época de iniciação. Essa tradição Jeje exigia de 06 (seis) meses ou até 01 (um) ano de reclusão, de modo que o novo vodun-se aprendesse as tradições dos voduns: como cultuá-los, manter os espaços sagrados, cuidar das árvores, saber dançar, cantar, preparar as comidas e um artesanato básico necessário a implementos materiais dos diferentes assentos, ferramentas e símbolos necessários ao culto.
Para os povos Jeje, os voduns são serpentes que tem origem no fogo, na água, na terra, no ar e ainda tem origem na vida e na morte. Portanto, a divindade patrona desse culto é Dan ou a "Serpente Sagrada".
Como disse, para o povo Jeje os Voduns são serpentes sagradas e sendo as matas, os rios, as florestas o habitat natural das cobras e dos próprios voduns. O ritual Jeje depende de muito verde, grandes árvores pois muitos voduns tem seus assentos nos pés destas árvores.
Outra particulariedade deste culto é de que quando as vodun-ses estão em transe ou incorporadas com seu vodun: os olhos permanecem abertos, ou seja, os voduns Jeje abrem os olhos, diferente dos orixás dos yorubás, que mantem os olhos sempre fechados.
É comum no culto Jeje provar o poder dos Voduns quando estes estão incorporados em seus iniciados. Uma destas provas é a prova chamada Prova do Zô ou Prova do Fogo do vodun Sogbô, que governa as larvas vulcânicas e é irmão de Badé e Acorombé, que comandam os raios e trovões.
A seguir, descrevo uma Prova do Zô feita com uma vodun-se feita para Sogbô, um vodun que assemelha-se ao Xangô do Yorubás:
Num determinado momento entra no salão uma panela de barro, fumegante, exalando cheiro forte de dendê borbulhante, contendo dentro alguns pedaços de ave sacrificada para o vodun. Sogbô adentra o salão com fúria de um raio, os olhos bem abertos (que como expliquei é costume dos voduns) e tomando a iniciativa vai até a panela, onde mergulha as mãos por algum tempo. Em seguida, exibe para todos os pedaços da ave. É um momento de profunda emoção gerando grande comoção por parte dos outros iniciados que respondem aquele ato entrando em estado de transe com seus voduns.
NANÃ
Nanã Buruku ou Buku é considerada a mais antiga das divindades. Muito cultuada na África em regiões como: Daça Zumê, Abomey, Dumê, Cheti, Bodé, Lubá, Banté, Djabalá, Pesi e muitas outras regiões.
Para os fons e ewes, a palavra Nanã ou Nàná é empregada para se chamar de mãe as mulheres idosas e respeitáveis, ou seja, a palavra Nanã significa: "Respeitável Senhora".
Nanã está associada à terra, à água e à lama. Os pântanos e as águas lodosas são o seu domínio.
Como relatei no começo, é a mais antiga das divindades, pois representa a memória ancestral. Mãe de Loko ou Irokô, Omolu e Oxumare ou Becém na dinastia Fon, Nanã está ligada ao mistério da vida e da morte. É a senhora da sabedoria, mais velha que o ferro. Daí, não usar lâminas em seu culto.
BECÉM
O culto à serpente remonta desde o início dos séculos. Os romanos e os gregos já prestavam culto à cobra, sendo os povos que mais difundiram em séculos passados este culto.
No Egito, a serpente era venerada e encarregada de proteger locais e moradias. Cleópatra era uma sacerdotisa do culto à serpente. Todos os seus pertences e adornos eram em formatos de cobras e similares. Este culto correu através do Rio Nilo as diversas regiões africanas.
No Antigo Dahomé, este culto se intensificou e lá Dan, como é chamada a Serpente Sagrada, transformou-se no maior símbolo de culto daquele povo, também sendo chamado pelo nome de vodun-becém. Já os yorubás chamaram esta mesma entidade de Oxumare ou a Cobra Arco-íris; e os negros Bantos, de Angôro.
Na verdade, aí falamos de uma só divindade com vários nomes dependendo da região em que é cultuada.
Mas, Oxumare, como é mais popularmente conhecido no Brasil, é o Orixá que determina o movimento contínuo, simbolizado pela serpente que morde a própria cauda e enrola-se em volta da terra para impedí-la de se desgovernar. Se Oxumare perder-se a força, a Terra vagaria solta pelo espaço em uma rota a seguir, sendo o fim do nosso Planeta.
É o orixá da riqueza, um dos benefícios mais apreciados não só pelos yorubás como por todos os povos da terra.
Arró-bo-boí!
OFERENDA À BECÉM PARA PROSPERIDADE
Em tempos difíceis, um dos voduns que não pode deixar de ser cultuado é Becém, pois este vodun é o Deus do movimento. Na nação de Ketu, este vodun é assimilado ao Orixá Oxumarê.
Os ingredientes necessários para a comida ou oferenda à Becém, para prosperidade são:
*01 travessa média de barro
*300g de batata doce
*½ k de canjica
*14 moedas correntes
*14 folhas de louro
*14 búzios abertos
*01 colher de açúcar cristal
Como fazer:
*Cozinhar bem a canjica e colocá-la na travessa
*Cozinhar as batatas doces, retirar as cascas e amassá-las bem. Modelar duas cobras de batata doce e colocá-las em cima desta canjica
*Enfiar as folhas de louro nos cantos, em volta da canjica. (Observação: para cada folha, uma moeda e um búzio aberto até completar as 14 folhas, 14 moedas e 14 búzios)
*Espalhar o açúcar cristal por cima de toda esta oferenda e oferecê-la à Becém, em baixo de uma árvore bonita e frondosa com 14 velas em volta, acesas.
Certamente, Sr Acolo Becém irá trazer muita prosperidade para vocês!
AJOIÉ E EKEDI
A palavra “ajoié” é correspondente feminino de ogan pois, a palavra ekedi, ou ekejí, vem do dialeto ewe, falado pelos negros fons ou Jeje.
Portanto, o correspondente yorubá de ekedi é ajoié, onde a palavra ajoié significa “mãe que o orixá escolheu e confirmou”.
Assim como os demais oloyés, uma ajoié tem o direito a uma cadeira no barracão. Deve ser sempre chamada de “mãe”, por todos os componentes da casa de orixá, devendo-se trocar com ela pedidos de bençãos. Os comportamentos determinados para os ogans devem ser seguidos pelas ajoiés.
Em dias de festa, uma ajoié deverá vestir-se com seus trajes rituais, seus fios de contas, um ojá na cabeça e trazendo no ombro sua inseparável toalha, sua principal ferramenta de trabalho no barracão e também símbolo do óyé, ou cargo que ocupa.
A toalha de uma ajoié destina-se, entre outras coisas, a enxugar o rosto dos omo-orixás manifestados. Uma ajoié ainda é responsável pela arrumação e organização das roupas que vestirão os omo-orixás nos dias de festas, como também, pelos ojás que enfeitarão várias partes do barracão nestes dias.
Mas, a tarefa de uma ajoié não se restringe apenas a cuidar dos orixás, roupas e outras coisas. Uma ajoié também é porta-voz do orixá em terra. É ela que em muitas das vezes transmite ao Babalorixá ou Yalorixá o recado deixado pelo próprio orixá da casa.
No Candomblé do Engenho Velho ou Casa Branca, as ajoiés são chamadas de ekedis. No Gantois, de "Iyárobá". Já na Nação de Angola, é chamada de "makota de angúzo". Mas, como relatei anteriormente, "ekedi" é nome de origem Jeje mas, que se popularizou e é conhecido em todas as casas de Candomblé do Brasil, seja qual for a Nação.
OS ODÙS NA CULTURA JEJE JEJE
Um Babalawo, ou Pai dos segredos (awô) é muito respeitado pela cultura yorubá.
O Babalawo, como o nome diz, é o conhecedor de todos os mistérios e segredos no culto à Orunmilá, sendo portanto sacerdote de ifá. Somente o Babalawo pode manipular o Rosário de ifá que em yorubá recebe o nome de opele-ifá e em ewe, língua da cultura fon ou Jeje tem o nome de agú-magá. Ainda na cultura Jeje, ifá é chamado de Vodun-fá ou Deus do destino e o Babalawo é denominado de Bokunó. Mas, nas duas culturas, tanto o Babalawo dos yorubás quanto o Bokunó dos fons precisam de uma divindade que interprete as caídas do jogo à ifá.
Quem seria essa divindade? Para os yorubás, essa divindade que auxilia o Babalawo a interpretar as caídas do jogo-a-ifá tem o nome de Exu e para os ewes ou fons da cultura Jeje essa mesma divindade é chamada de Legba, que em ewe significa: "Divino esperto".
Como podemos observar, nas duas culturas o culto à ifá é uma constante na vida destes povos, pois tanto na Nigéria como no antigo Dahomé, o destino individual ou coletivo é motivo de muita atenção(Destino que em yorubá se chama odù e em ewe-fon, aírun-ê), pois os povos Jejes também cultuavam os odùs ou aírun-ê.
Abaixo, encontram-se divulgados alguns nomes dos odùs, em ewe-fon:
*ogudá ou obéogunda em yorubá
*lossô ou yorossun em yorubá
*ruolin ou warin em yorubá
*sá ou ossá em yorubá
Sou Bàbá Kytalamy, Afro - Religioso da Nação Vodun Jeje ( Tambor de Mina) Filho do Grandioso João de Guapindaia ( Afro - Religioso, Folclorista) Neto de Manoel Colaço, Filho de Oxóssy com Iansã ( Toy Vondereji com Fina Jóia). Tenho 26 anos de Santo, defensor da Liberdade de Cultos, luta contra intolerância de uma sociedade que não conhece suas raízes afro. Também sou Mestre em Cultura Popular ( Pássaro Junino - Reconhecido pelo Minc)
sábado, 30 de outubro de 2010
AS VARIAÇÕES DAS TRÊS NAÇÕES JEJE, KETU E ANGOLA
Dos muitos grupos de escravos vindo para o Brasil, 03(três) categorias ou nações se destacaram:
bullet Negros Fons ou Nação Jeje
bullet Negros Yorubás ou Nação Ketu
bullet Negros Bantos ou Nação Angola
Cada uma dessas 03 (três) nações tem dialeto e ritualística própria. Mas, houve uma grande coligação entre os deuses adorados nessas 03 (três) nações, por exemplo:
bullet Na Nação Jeje os deuses são chamados de Voduns
bullet Na Nação Ketu, de Orixás
bullet Na Nação de Angola, de Inkices
Abaixo, encontram-se relacionados os deuses, as suas ligações e correspondência em cada uma dessas 03 (três) nações:
KETU
JEJE
ANGOLA
Exu
Elegbá
Bombogiro
Ogun
Gu
Nkosi-Mucumbe
Oxossy
Otolú
Mutaka Lambo
Omolu
Azanssun
Cavungo
Xangô
Sogbô
Nizazi ou Luango
Ossayn
Ague
Katende
Oya / Yansã
Guelede-Agan ou Vodun-Jó
Matamba/Kaingo
Oxum
Aziri-Tolá
Dandalunda
Yemanja
Aziri-Tobossi
Samba Kalunga/Kukuetu
Oxumarê
Becém
Angoro - Ongolo
Oxalá
Lissá
Lemba
bullet Negros Fons ou Nação Jeje
bullet Negros Yorubás ou Nação Ketu
bullet Negros Bantos ou Nação Angola
Cada uma dessas 03 (três) nações tem dialeto e ritualística própria. Mas, houve uma grande coligação entre os deuses adorados nessas 03 (três) nações, por exemplo:
bullet Na Nação Jeje os deuses são chamados de Voduns
bullet Na Nação Ketu, de Orixás
bullet Na Nação de Angola, de Inkices
Abaixo, encontram-se relacionados os deuses, as suas ligações e correspondência em cada uma dessas 03 (três) nações:
KETU
JEJE
ANGOLA
Exu
Elegbá
Bombogiro
Ogun
Gu
Nkosi-Mucumbe
Oxossy
Otolú
Mutaka Lambo
Omolu
Azanssun
Cavungo
Xangô
Sogbô
Nizazi ou Luango
Ossayn
Ague
Katende
Oya / Yansã
Guelede-Agan ou Vodun-Jó
Matamba/Kaingo
Oxum
Aziri-Tolá
Dandalunda
Yemanja
Aziri-Tobossi
Samba Kalunga/Kukuetu
Oxumarê
Becém
Angoro - Ongolo
Oxalá
Lissá
Lemba
Èsú
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú láaróyè, Èsú láaróyè
Èsú láaróyè, È s ú láaróyè
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú Láàlú Ogiri Òkò Ebìtà Okùnrin
Èsú Láàlú Ogiri Òkò E bìtà O kùnrin
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú òta òrìsà
Èsú é Orixá da pedra (iangui)
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Osétùrá l’oruko bàbá mó ó
Oxeturá é o nome pelo qual é chamado por seu pai
Alágogo ìjà l’oruko ìyá npè o
Alágogo Ìjà, é o nome pelo qual sua mãe o chama
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú Òdàrà, omokùnrin Ìdólófin
Èsú bondoso, filho homem da cidade de Ìdólófìn
O lé sónsó sórí orí esè elésè
Aquele que tem a cabeça pontiaguda fica no pé das pessoas
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Kò jé, kò jé kí eni nje gbe e mì
Não come e não permite que ninguém coma ou engula o alimento
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
A kìì lówó láì mu ti Èsú kúrò
Quem tem riqueza reserva para Èsú a sua parte
A kìì láyò láì mu ti Èsú kúrò
Quem tem felicidade reserva para Èsú a sua parte
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Asòntún se òsì láì ní ítijú
Fica dos dois lados sem constrangimento
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú àpáta somo olómo lénu
Èsú, montanha de pedras que faz o filho falar coisas que não deseja
O fi okúta dípò iyó
Usa pedra em vez de sal
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Lóògemo òrun a nla kálù
Indulgente filho do céu cuja grandeza está em toda a cidade
Pàápa-wàrá, a túká máse sà
Apressadamente fragmenta o que não se junta nunca mais
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú máse mi, omo elòmíran ni o se
Èsú não me faça mal, manipule o filho do outro
Èsú máse, Èsú máse, Èsú máse
Èsú não faça mal, È s ú não faça mal, È s ú não faça mal
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
ÀSÉ!!!
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú láaróyè, Èsú láaróyè
Èsú láaróyè, È s ú láaróyè
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú Láàlú Ogiri Òkò Ebìtà Okùnrin
Èsú Láàlú Ogiri Òkò E bìtà O kùnrin
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú òta òrìsà
Èsú é Orixá da pedra (iangui)
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Osétùrá l’oruko bàbá mó ó
Oxeturá é o nome pelo qual é chamado por seu pai
Alágogo ìjà l’oruko ìyá npè o
Alágogo Ìjà, é o nome pelo qual sua mãe o chama
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú Òdàrà, omokùnrin Ìdólófin
Èsú bondoso, filho homem da cidade de Ìdólófìn
O lé sónsó sórí orí esè elésè
Aquele que tem a cabeça pontiaguda fica no pé das pessoas
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Kò jé, kò jé kí eni nje gbe e mì
Não come e não permite que ninguém coma ou engula o alimento
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
A kìì lówó láì mu ti Èsú kúrò
Quem tem riqueza reserva para Èsú a sua parte
A kìì láyò láì mu ti Èsú kúrò
Quem tem felicidade reserva para Èsú a sua parte
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Asòntún se òsì láì ní ítijú
Fica dos dois lados sem constrangimento
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú àpáta somo olómo lénu
Èsú, montanha de pedras que faz o filho falar coisas que não deseja
O fi okúta dípò iyó
Usa pedra em vez de sal
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Lóògemo òrun a nla kálù
Indulgente filho do céu cuja grandeza está em toda a cidade
Pàápa-wàrá, a túká máse sà
Apressadamente fragmenta o que não se junta nunca mais
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
Èsú máse mi, omo elòmíran ni o se
Èsú não me faça mal, manipule o filho do outro
Èsú máse, Èsú máse, Èsú máse
Èsú não faça mal, È s ú não faça mal, È s ú não faça mal
Iyìn o, iyìn o Èsú n má gbò o
Èsú escute o meu louvor à ti
ÀSÉ!!!
Uma jazida diferente: como se formaram e como nós descobrimos as imensas reservas do pré-sal
Nos últimos 30 anos, a Petrobrás acreditou numa nova concepção de jazida, diferente das convencionais. Durante esses 30 anos, ela não pôde explorar essa jazida porque a camada de sal, de mais ou menos dois quilômetros de espessura, perturbava o levantamento sísmico, limitado a duas dimensões. Quando veio a evolução tecnológica, com a sísmica de três e quatro dimensões, a Petrobrás, finalmente, pôde atingir o objetivo com mais precisão e consolidar aquilo que imaginava que fosse uma enorme província petrolífera.
A camada de sal não é uma rocha rígida, ela é gelatinosa. Quando se tinha de trocar a broca, às vezes seguidamente durante o dia, cada vez que se retirava a coluna, a camada de sal fechava o poço. A Petrobrás teve que revestir o poço com uma tubulação de aço, o que leva um tempo maior. Então, o primeiro poço levou um ano para ser perfurado e custou U$ 260 milhões. Hoje, a perfuração está custando mais ou menos U$ 60 milhões e não se pode baixar muito, porque há um tempo mínimo de perfuração e uma plataforma nessa profundidade, com essa especialização, está custando U$ 600 mil por dia. Uma forma de baixar o custo seria construir novas plataformas.
Como é o mecanismo de formação do petróleo? Os rios trazem material orgânico, depositam no fundo do mar, junto com areia, pedras, diversos materiais e, com a pressão da coluna d’água, esses materiais formam uma rocha mista porosa, com o material orgânico no seu interior. Esse material orgânico, durante milhões de anos, é fermentado por micro-organismos. E esses micro-organismos atuam na rocha geradora onde estão depositados esses materiais e transformam esse material orgânico em petróleo. Quando o petróleo amadurece, a pressão dentro dessa rocha geradora atinge um valor elevado, de 5 mil libras ou até de 10 mil libras, a temperatura se eleva e a rocha se rompe, deixando escapar o petróleo gerado dentro dela. Aí esse petróleo caminha para a superfície por diversos caminhos e se perde, mas, se em alguma parte esse petróleo encontra uma rocha porosa que o armazene, aí está formado um reservatório convencional.
Qual a diferença para a jazida do pré-sal? Da mesma maneira, o material orgânico foi depositado no fundo do mar e também durante milhões de anos foi fermentado. Mas há uma diferença fundamental. Quando os continentes sul-americano e africano começaram a se separar, o mar penetrou na fenda entre eles e ficou confinado, não tendo movimento lateral de correntes e ondas. O mar confinado só tinha a elevação, a elevação da maré. Aí houve uma evaporação muito grande da água do mar e uma concentração de sal, que desceu e se depositou em cima desse material orgânico ali depositado. Essa camada de sal, que atingiu uma espessura de dois quilômetros, teve duas vantagens fundamentais: se depositou em cima dessa rocha geradora, protegeu-a mecanicamente e selou-a, de tal forma que, quando o petróleo se formou, amadurecendo o material orgânico fermentado pelos Phitoplanctos (micro-organismos), a pressão subiu e não houve o rompimento da rocha geradora, portanto não houve perdas. Então, o petróleo formado está todo lá, na própria rocha geradora.
Essa é a diferença do reservatório do pré-sal e do convencional, gerando duas vantagens do pré-sal sobre uma jazida convencional. A primeira é que todo material orgânico se transformou em petróleo e ficou retido no reservatório. Segunda: em um reservatório convencional, as bactérias comem o petróleo leve e deixam o petróleo pesado, de pior qualidade. No pré-sal, as bactérias não tiveram acesso, porque o sal não deixou. Ou seja, o sal protegeu não só mecanicamente, como biologicamente, uma vez que não deixou as bactérias daninhas comerem o petróleo leve. Então, o petróleo do pré-sal é muito melhor do que o nosso petróleo convencional. É um petróleo muito melhor do que, por exemplo, Marlim ou Albacora. Eles têm um grau API em torno de 15 e 16, significa óleo pesado, e o pré-sal tem 28 a 34. Quanto mais alto o grau, mais leve e melhor qualidade tem o petróleo.
Com isso, os técnicos da Petrobrás, a partir do primeiro furo, tiveram comprovada aquela teoria estudada durante 30 anos e tiveram a alegria de ter, em 11 poços perfurados, encontrado petróleo em 11, confirmando as expectativas. As estimativas, conservadoras, dos geólogos da Petrobrás, sobre a reserva esperada chegam a, pelo menos, 90 bilhões de barris de petróleo. Há, entretanto, a perspectiva de se chegar a 300 bilhões, mas não vamos raciocinar com essa hipótese, vamos ficar apenas nos 90, que já vamos ter “problemas” suficientes.
Os primeiros problemas são os blocos que a Petrobrás comprou associada, infelizmente, a empresas estrangeiras. A Exxon comprou um bloco, no segundo leilão, junto com a Petrobrás. A Exxon tem 40%, a Petrobrás tem 20% e a americana Amerada Hess tem 40%. Ela esperou a Petrobrás fazer 11 furos para fazer o poço dela, para não ter risco nenhum.
Enfim, a Petrobrás furou todos os seus poços e já encontrou petróleo. Quando perfurou, achou, e testou o bloco de Tupi. Então, o presidente Lula mandou retirar 41 blocos do pré-sal que estavam incluídos no 9º leilão da ANP, porque se transformaram em bilhetes premiados. Porque a atual lei do petróleo foi feita para incentivar a vinda de empresas estrangeiras para investirem em áreas ainda não descobertas, correndo riscos. No pré-sal não tem mais risco. Já está descoberto. Normalmente, numa pesquisa desse porte, o índice de sucesso de 10% é muito bom. Fura-se 10 poços e acha-se petróleo em 1. Agora você fura 11 e acha 11, não tem mais risco. Então a Lei atual, a 9478/97, não se aplica ao pré-sal.
A primeira estimativa da província é de que ela vai de Santa Catarina até o Espírito Santo, mais ou menos com 800 Km de extensão, por 200 Km de largura, em média.
Uma pergunta que sempre surge: se alguma empresa estrangeira furar fora do mar territorial (200 milhas) e encontrar petróleo, o que acontece? É dona? Só que não tem condições técnicas e nem comerciais de explorar o petróleo sem apoio logístico do Brasil. Imagine-se montar uma infraestrutura de produção, tratamento e transporte de óleo a mais de 300 km da costa. É impossível, técnica e comercialmente. Esperamos até que tenha petróleo, mas ninguém vai investir. Aliás, a Lei 9.478/97 foi feita para incentivar pesquisas em áreas novas, mas nenhuma empresa estrangeira colocou nenhum centavo em qualquer área nova, só nas que a Petrobrás já tinha pesquisado e devolvido.
A camada de sal não é uma rocha rígida, ela é gelatinosa. Quando se tinha de trocar a broca, às vezes seguidamente durante o dia, cada vez que se retirava a coluna, a camada de sal fechava o poço. A Petrobrás teve que revestir o poço com uma tubulação de aço, o que leva um tempo maior. Então, o primeiro poço levou um ano para ser perfurado e custou U$ 260 milhões. Hoje, a perfuração está custando mais ou menos U$ 60 milhões e não se pode baixar muito, porque há um tempo mínimo de perfuração e uma plataforma nessa profundidade, com essa especialização, está custando U$ 600 mil por dia. Uma forma de baixar o custo seria construir novas plataformas.
Como é o mecanismo de formação do petróleo? Os rios trazem material orgânico, depositam no fundo do mar, junto com areia, pedras, diversos materiais e, com a pressão da coluna d’água, esses materiais formam uma rocha mista porosa, com o material orgânico no seu interior. Esse material orgânico, durante milhões de anos, é fermentado por micro-organismos. E esses micro-organismos atuam na rocha geradora onde estão depositados esses materiais e transformam esse material orgânico em petróleo. Quando o petróleo amadurece, a pressão dentro dessa rocha geradora atinge um valor elevado, de 5 mil libras ou até de 10 mil libras, a temperatura se eleva e a rocha se rompe, deixando escapar o petróleo gerado dentro dela. Aí esse petróleo caminha para a superfície por diversos caminhos e se perde, mas, se em alguma parte esse petróleo encontra uma rocha porosa que o armazene, aí está formado um reservatório convencional.
Qual a diferença para a jazida do pré-sal? Da mesma maneira, o material orgânico foi depositado no fundo do mar e também durante milhões de anos foi fermentado. Mas há uma diferença fundamental. Quando os continentes sul-americano e africano começaram a se separar, o mar penetrou na fenda entre eles e ficou confinado, não tendo movimento lateral de correntes e ondas. O mar confinado só tinha a elevação, a elevação da maré. Aí houve uma evaporação muito grande da água do mar e uma concentração de sal, que desceu e se depositou em cima desse material orgânico ali depositado. Essa camada de sal, que atingiu uma espessura de dois quilômetros, teve duas vantagens fundamentais: se depositou em cima dessa rocha geradora, protegeu-a mecanicamente e selou-a, de tal forma que, quando o petróleo se formou, amadurecendo o material orgânico fermentado pelos Phitoplanctos (micro-organismos), a pressão subiu e não houve o rompimento da rocha geradora, portanto não houve perdas. Então, o petróleo formado está todo lá, na própria rocha geradora.
Essa é a diferença do reservatório do pré-sal e do convencional, gerando duas vantagens do pré-sal sobre uma jazida convencional. A primeira é que todo material orgânico se transformou em petróleo e ficou retido no reservatório. Segunda: em um reservatório convencional, as bactérias comem o petróleo leve e deixam o petróleo pesado, de pior qualidade. No pré-sal, as bactérias não tiveram acesso, porque o sal não deixou. Ou seja, o sal protegeu não só mecanicamente, como biologicamente, uma vez que não deixou as bactérias daninhas comerem o petróleo leve. Então, o petróleo do pré-sal é muito melhor do que o nosso petróleo convencional. É um petróleo muito melhor do que, por exemplo, Marlim ou Albacora. Eles têm um grau API em torno de 15 e 16, significa óleo pesado, e o pré-sal tem 28 a 34. Quanto mais alto o grau, mais leve e melhor qualidade tem o petróleo.
Com isso, os técnicos da Petrobrás, a partir do primeiro furo, tiveram comprovada aquela teoria estudada durante 30 anos e tiveram a alegria de ter, em 11 poços perfurados, encontrado petróleo em 11, confirmando as expectativas. As estimativas, conservadoras, dos geólogos da Petrobrás, sobre a reserva esperada chegam a, pelo menos, 90 bilhões de barris de petróleo. Há, entretanto, a perspectiva de se chegar a 300 bilhões, mas não vamos raciocinar com essa hipótese, vamos ficar apenas nos 90, que já vamos ter “problemas” suficientes.
Os primeiros problemas são os blocos que a Petrobrás comprou associada, infelizmente, a empresas estrangeiras. A Exxon comprou um bloco, no segundo leilão, junto com a Petrobrás. A Exxon tem 40%, a Petrobrás tem 20% e a americana Amerada Hess tem 40%. Ela esperou a Petrobrás fazer 11 furos para fazer o poço dela, para não ter risco nenhum.
Enfim, a Petrobrás furou todos os seus poços e já encontrou petróleo. Quando perfurou, achou, e testou o bloco de Tupi. Então, o presidente Lula mandou retirar 41 blocos do pré-sal que estavam incluídos no 9º leilão da ANP, porque se transformaram em bilhetes premiados. Porque a atual lei do petróleo foi feita para incentivar a vinda de empresas estrangeiras para investirem em áreas ainda não descobertas, correndo riscos. No pré-sal não tem mais risco. Já está descoberto. Normalmente, numa pesquisa desse porte, o índice de sucesso de 10% é muito bom. Fura-se 10 poços e acha-se petróleo em 1. Agora você fura 11 e acha 11, não tem mais risco. Então a Lei atual, a 9478/97, não se aplica ao pré-sal.
A primeira estimativa da província é de que ela vai de Santa Catarina até o Espírito Santo, mais ou menos com 800 Km de extensão, por 200 Km de largura, em média.
Uma pergunta que sempre surge: se alguma empresa estrangeira furar fora do mar territorial (200 milhas) e encontrar petróleo, o que acontece? É dona? Só que não tem condições técnicas e nem comerciais de explorar o petróleo sem apoio logístico do Brasil. Imagine-se montar uma infraestrutura de produção, tratamento e transporte de óleo a mais de 300 km da costa. É impossível, técnica e comercialmente. Esperamos até que tenha petróleo, mas ninguém vai investir. Aliás, a Lei 9.478/97 foi feita para incentivar pesquisas em áreas novas, mas nenhuma empresa estrangeira colocou nenhum centavo em qualquer área nova, só nas que a Petrobrás já tinha pesquisado e devolvido.
Os fracassados privatizadores do pré-sal, da Petrobrás e do Brasil
CARLOS LOPES
Há alguns dias, Dilma Rousseff fez a observação de que, quanto ao petróleo do pré-sal, manter o regime de concessões implantado por Fernando Henrique, Serra e outros carreiristas da traição, significa, pura e simplesmente, privatizá-lo. Serra pode negar – e mentir – o quanto quiser, mas a observação de Dilma é exata. Inclusive nas áreas fora do pré-sal, a privatização do petróleo, depois da lei que estabeleceu o regime de concessões, só não aconteceu porque nelas - já veremos por que - a Petrobrás teve condição de arrematar a maioria dos lotes em leilão.
Não há nada de surpreendente nessa constatação, pois o objetivo da lei do governo Fernando Henrique sempre foi esse, o que foi expresso por seu próprio genro, David Zylbersztajn, nomeado para a diretoria-geral da Agência Nacional do Petróleo, que declarou, na sua posse, em 1998, aos representantes das multinacionais: “O petróleo é vosso!”. Portanto, eles mesmos disseram qual era o objetivo da lei de concessões.
Por que, então, as multinacionais não usaram o seu maior poder financeiro para ganhar os leilões nas áreas fora do pré-sal? Porque teriam de investir com risco de não encontrar petróleo, numa modalidade de exploração – aquela feita em águas profundas – em que, ao contrário da Petrobrás, e como se viu recentemente no desastre do Golfo do México, não são lá muito competentes (por exemplo, o principal poço do Mar do Norte, o de Captain, encontra-se sob uma lâmina d’água de apenas 107 metros – no pré-sal, via de regra, a lâmina d’água é de mais de 2.000 metros). Além disso, 80% do petróleo extraído nessas áreas é o chamado “petróleo pesado”. O Centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes) desenvolve, já há algum tempo, um programa para melhorar o aproveitamento do petróleo pesado. Porém, só recentemente a Shell iniciou programa semelhante. A dificuldade em relação ao petróleo pesado não está apenas no refino, o que já é um problema grande. Mas, como diz uma publicação especializada, “a extração do óleo pesado é extremamente mais complexa e mais cara que a do óleo leve” - enquanto seu preço é mais barato do que o óleo leve. (cf. “O desafio do óleo pesado””, Power, nº 15, pág. 20). Atualmente, o preço do barril desse petróleo está cerca de US$ 15 abaixo do petróleo leve padrão, o Brent.
Portanto, as multinacionais não se aproveitaram da sofreguidão entreguista de Fernando Henrique, Serra, Zylbersztajn e outros patifes porque estavam explorando áreas mais lucrativas – o que permitiu que a Petrobrás arrematasse a maioria dos lotes.
A mesma condição, no entanto, não se repete no pré-sal. É evidente que, devido a abundância de petróleo leve e à ausência de risco exploratório (na prática, inexiste a possibilidade de não encontrar petróleo no pré-sal), o interesse das multinacionais, com um poder financeiro muito maior do que a Petrobrás – pois têm por trás delas os grandes bancos dos EUA, Inglaterra e outros países - é imensamente maior no pré-sal do que nas outras áreas.
Portanto, leilões para conceder lotes no pré-sal – concessões em que todo o petróleo extraído pertence à companhia que o retirar – significam dar esse petróleo ao cartel externo, àquele grupo de ladrões antes conhecidos como “sete irmãs”, e que hoje não chega nem a sete empresas multinacionais. Portanto, a manutenção da lei tucana nessa nova reserva petrolífera seria, exatamente, uma privatização e uma desnacionalização do nosso petróleo.
É significativo que assessores e cúmplices de Serra como Zylbersztajn, Velloso - e agora Luciano Almeida, secretário no governo de São Paulo – defendam o regime de concessões no pré-sal, com o argumento de que o governo obteria recursos imediatos com o “bônus de assinatura”. É exatamente esse “bônus” (dinheiro pago no leilão de concessões) que favorece às multinacionais – a Petrobrás tem menos condições financeiras do que elas de pagar um maior bônus de assinatura para ganhar um leilão. Na verdade, o “bônus de assinatura” faz com que as multinacionais ganhem os leilões que quiserem e deixem para a Petrobrás o que elas quiserem – ou nada. Nesse regime de concessões, ganha quem tem mais dinheiro.
O novo modelo – o regime de “partilha de produção” - ao introduzir, caso haja leilão (que não é obrigatório, podendo o governo designar áreas diretamente para a Petrobrás), a quantidade de petróleo destinada à União como critério (daí a palavra “partilha”), impede as multinacionais de usarem seu maior poder financeiro para se apropriar do pré-sal. No regime de partilha, a Petrobrás tem muito melhores condições de oferecer uma parte maior do petróleo à União. E, ao determinar que a Petrobrás seja a operadora única, com participação em todas as áreas, permite um controle maior do país e do povo sobre a exploração das reservas.
RUPTURA
As reservas na camada pré-sal são uma conquista do governo Lula, pois era impossível, no governo anterior, que a empresa, apesar de estudar a camada pré-sal há muito, fizesse os investimentos necessários para efetuar essa descoberta.
Como lembrou Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), ainda como ministro da Fazenda, “Fernando Henrique Cardoso deu início a uma manipulação da estrutura de preço do petróleo na qual ele, nos seis meses anteriores à URV — e, depois, o plano real —, fez uma transferência de faturamentos nos seis aumentos que aconteceram de dezembro de 93 a abril de 94. Em cada aumento, ele dava um percentual maior para as distribuidoras. Concedeu aumentos sucessivos e acima da inflação para o distribuidor e aumentos abaixo da inflação para a Petrobrás. Quando chegou em abril de 94, esses ganhos e perdas foram congelados. O que a Petrobrás perdeu foi perenizado com a URV, e o que as distribuidoras ganharam também. Isso representou, na época, uma transferência anual de três bilhões de dólares da Petrobrás para as distribuidoras - e nós ficamos com a maior margem de distribuição do mundo. Nos EUA, quem faz como a Petrobrás, que pesquisa, produz, transporta e refina, fica com 65% do litro de gasolina vendido, mas a Petrobrás, no Brasil, passou a ficar com 14%. Aquele que distribui — o que pega na refinaria e entrega no posto — fica, nos EUA, com 2%. Aqui, ficaram com cerca de 18%, oito vezes mais, beneficiando o cartel internacional do petróleo”.
Em seguida, já como presidente – e Serra no Ministério do Planejamento – houve um corte de 52% no investimento da Petrobrás. Entenda-se: a Petrobrás tinha o dinheiro para investir, mas foi proibida de fazer investimentos além de certo nível, quase medíocre. Com isso, impediu o país de alcançar a autossuficiência em petróleo, só conquistada no governo Lula, em 2006.
Toda a questão era a privatização da Petrobrás, que estava em curso. Como descreve Fernando Siqueira: “outra providência tomada contra a empresa foi, em 1998, colocar três empresas estrangeiras no edifício da Petrobrás. Elas ficaram um ano estudando a Petrobrás, pedindo todos os dados que quisessem, confidenciais, estratégicos, etc. A justificativa era a de que, com a nova lei do petróleo, reduzir-se-ia a participação acionária do governo, porque a lei 2004, para garantir que a Petrobrás seria sempre estatal, dizia que o governo tinha que ter 51% do capital total. E a nova lei previa que basta ao governo ter 50% mais uma ação do capital votante. Como o capital votante pode ser até um terço do capital total, significa que basta que o governo tenha 16,67% para vender 83% das ações para o capital financeiro internacional. Então, em 97, eles venderam 31,4% das ações ordinárias [i.é, com direito a voto] por um preço em torno de 8 bilhões de reais. Esses 31,4% de ações ordinárias equivaliam a cerca de 18% do capital total, ou seja, 54 bilhões de dólares na época. No entanto, esse patrimônio foi vendido por oito bilhões de reais”.
Tal situação somente começou a ser reparada no governo Lula, quando a União aumentou sua participação na Petrobrás de 32,53% para 48% - quanto ao capital votante, a União, reduzida a 55,7%, aumentou sua participação para 64%. Ao mesmo tempo, o capital em mãos de estrangeiros diminuiu de 37,8% para 26%.
Mas a privatização continuou: “Em 1999 foi contratada uma empresa americana, a Arthur D. Little, para fazer o planejamento estratégico da Petrobrás. Essa empresa decidiu que a Petrobrás seria dividida em 40 unidades de negócio. O objetivo deles era que cada uma dessas unidades fosse transformada numa subsidiária e privatizada, porque a ideia era fazer a privatização da Petrobrás sem que a população percebesse. O governo FHC começou a privatização pela REFAP [Refinaria Alberto Pasqualini]. Uma troca de ativos criaria uma terceira empresa e, teoricamente, a Petrobrás aportaria R$ 500 milhões e a multinacional espanhola Repsol, através de sua subsidiária argentina, outros R$ 500 milhões. Numa segunda fase, a Repsol aportaria um pouco mais, ficando dona do controle acionário”.
A crise argentina salvou a REFAP da privatização. Mas até hoje ela é uma empresa separada, ao contrário das demais refinarias, com 30% do capital pertencente a Repsol – os 70% restantes são da Downstream Participações Ltda, que é controlada pela Petrobrás.
Há alguns dias, Dilma Rousseff fez a observação de que, quanto ao petróleo do pré-sal, manter o regime de concessões implantado por Fernando Henrique, Serra e outros carreiristas da traição, significa, pura e simplesmente, privatizá-lo. Serra pode negar – e mentir – o quanto quiser, mas a observação de Dilma é exata. Inclusive nas áreas fora do pré-sal, a privatização do petróleo, depois da lei que estabeleceu o regime de concessões, só não aconteceu porque nelas - já veremos por que - a Petrobrás teve condição de arrematar a maioria dos lotes em leilão.
Não há nada de surpreendente nessa constatação, pois o objetivo da lei do governo Fernando Henrique sempre foi esse, o que foi expresso por seu próprio genro, David Zylbersztajn, nomeado para a diretoria-geral da Agência Nacional do Petróleo, que declarou, na sua posse, em 1998, aos representantes das multinacionais: “O petróleo é vosso!”. Portanto, eles mesmos disseram qual era o objetivo da lei de concessões.
Por que, então, as multinacionais não usaram o seu maior poder financeiro para ganhar os leilões nas áreas fora do pré-sal? Porque teriam de investir com risco de não encontrar petróleo, numa modalidade de exploração – aquela feita em águas profundas – em que, ao contrário da Petrobrás, e como se viu recentemente no desastre do Golfo do México, não são lá muito competentes (por exemplo, o principal poço do Mar do Norte, o de Captain, encontra-se sob uma lâmina d’água de apenas 107 metros – no pré-sal, via de regra, a lâmina d’água é de mais de 2.000 metros). Além disso, 80% do petróleo extraído nessas áreas é o chamado “petróleo pesado”. O Centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes) desenvolve, já há algum tempo, um programa para melhorar o aproveitamento do petróleo pesado. Porém, só recentemente a Shell iniciou programa semelhante. A dificuldade em relação ao petróleo pesado não está apenas no refino, o que já é um problema grande. Mas, como diz uma publicação especializada, “a extração do óleo pesado é extremamente mais complexa e mais cara que a do óleo leve” - enquanto seu preço é mais barato do que o óleo leve. (cf. “O desafio do óleo pesado””, Power, nº 15, pág. 20). Atualmente, o preço do barril desse petróleo está cerca de US$ 15 abaixo do petróleo leve padrão, o Brent.
Portanto, as multinacionais não se aproveitaram da sofreguidão entreguista de Fernando Henrique, Serra, Zylbersztajn e outros patifes porque estavam explorando áreas mais lucrativas – o que permitiu que a Petrobrás arrematasse a maioria dos lotes.
A mesma condição, no entanto, não se repete no pré-sal. É evidente que, devido a abundância de petróleo leve e à ausência de risco exploratório (na prática, inexiste a possibilidade de não encontrar petróleo no pré-sal), o interesse das multinacionais, com um poder financeiro muito maior do que a Petrobrás – pois têm por trás delas os grandes bancos dos EUA, Inglaterra e outros países - é imensamente maior no pré-sal do que nas outras áreas.
Portanto, leilões para conceder lotes no pré-sal – concessões em que todo o petróleo extraído pertence à companhia que o retirar – significam dar esse petróleo ao cartel externo, àquele grupo de ladrões antes conhecidos como “sete irmãs”, e que hoje não chega nem a sete empresas multinacionais. Portanto, a manutenção da lei tucana nessa nova reserva petrolífera seria, exatamente, uma privatização e uma desnacionalização do nosso petróleo.
É significativo que assessores e cúmplices de Serra como Zylbersztajn, Velloso - e agora Luciano Almeida, secretário no governo de São Paulo – defendam o regime de concessões no pré-sal, com o argumento de que o governo obteria recursos imediatos com o “bônus de assinatura”. É exatamente esse “bônus” (dinheiro pago no leilão de concessões) que favorece às multinacionais – a Petrobrás tem menos condições financeiras do que elas de pagar um maior bônus de assinatura para ganhar um leilão. Na verdade, o “bônus de assinatura” faz com que as multinacionais ganhem os leilões que quiserem e deixem para a Petrobrás o que elas quiserem – ou nada. Nesse regime de concessões, ganha quem tem mais dinheiro.
O novo modelo – o regime de “partilha de produção” - ao introduzir, caso haja leilão (que não é obrigatório, podendo o governo designar áreas diretamente para a Petrobrás), a quantidade de petróleo destinada à União como critério (daí a palavra “partilha”), impede as multinacionais de usarem seu maior poder financeiro para se apropriar do pré-sal. No regime de partilha, a Petrobrás tem muito melhores condições de oferecer uma parte maior do petróleo à União. E, ao determinar que a Petrobrás seja a operadora única, com participação em todas as áreas, permite um controle maior do país e do povo sobre a exploração das reservas.
RUPTURA
As reservas na camada pré-sal são uma conquista do governo Lula, pois era impossível, no governo anterior, que a empresa, apesar de estudar a camada pré-sal há muito, fizesse os investimentos necessários para efetuar essa descoberta.
Como lembrou Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), ainda como ministro da Fazenda, “Fernando Henrique Cardoso deu início a uma manipulação da estrutura de preço do petróleo na qual ele, nos seis meses anteriores à URV — e, depois, o plano real —, fez uma transferência de faturamentos nos seis aumentos que aconteceram de dezembro de 93 a abril de 94. Em cada aumento, ele dava um percentual maior para as distribuidoras. Concedeu aumentos sucessivos e acima da inflação para o distribuidor e aumentos abaixo da inflação para a Petrobrás. Quando chegou em abril de 94, esses ganhos e perdas foram congelados. O que a Petrobrás perdeu foi perenizado com a URV, e o que as distribuidoras ganharam também. Isso representou, na época, uma transferência anual de três bilhões de dólares da Petrobrás para as distribuidoras - e nós ficamos com a maior margem de distribuição do mundo. Nos EUA, quem faz como a Petrobrás, que pesquisa, produz, transporta e refina, fica com 65% do litro de gasolina vendido, mas a Petrobrás, no Brasil, passou a ficar com 14%. Aquele que distribui — o que pega na refinaria e entrega no posto — fica, nos EUA, com 2%. Aqui, ficaram com cerca de 18%, oito vezes mais, beneficiando o cartel internacional do petróleo”.
Em seguida, já como presidente – e Serra no Ministério do Planejamento – houve um corte de 52% no investimento da Petrobrás. Entenda-se: a Petrobrás tinha o dinheiro para investir, mas foi proibida de fazer investimentos além de certo nível, quase medíocre. Com isso, impediu o país de alcançar a autossuficiência em petróleo, só conquistada no governo Lula, em 2006.
Toda a questão era a privatização da Petrobrás, que estava em curso. Como descreve Fernando Siqueira: “outra providência tomada contra a empresa foi, em 1998, colocar três empresas estrangeiras no edifício da Petrobrás. Elas ficaram um ano estudando a Petrobrás, pedindo todos os dados que quisessem, confidenciais, estratégicos, etc. A justificativa era a de que, com a nova lei do petróleo, reduzir-se-ia a participação acionária do governo, porque a lei 2004, para garantir que a Petrobrás seria sempre estatal, dizia que o governo tinha que ter 51% do capital total. E a nova lei previa que basta ao governo ter 50% mais uma ação do capital votante. Como o capital votante pode ser até um terço do capital total, significa que basta que o governo tenha 16,67% para vender 83% das ações para o capital financeiro internacional. Então, em 97, eles venderam 31,4% das ações ordinárias [i.é, com direito a voto] por um preço em torno de 8 bilhões de reais. Esses 31,4% de ações ordinárias equivaliam a cerca de 18% do capital total, ou seja, 54 bilhões de dólares na época. No entanto, esse patrimônio foi vendido por oito bilhões de reais”.
Tal situação somente começou a ser reparada no governo Lula, quando a União aumentou sua participação na Petrobrás de 32,53% para 48% - quanto ao capital votante, a União, reduzida a 55,7%, aumentou sua participação para 64%. Ao mesmo tempo, o capital em mãos de estrangeiros diminuiu de 37,8% para 26%.
Mas a privatização continuou: “Em 1999 foi contratada uma empresa americana, a Arthur D. Little, para fazer o planejamento estratégico da Petrobrás. Essa empresa decidiu que a Petrobrás seria dividida em 40 unidades de negócio. O objetivo deles era que cada uma dessas unidades fosse transformada numa subsidiária e privatizada, porque a ideia era fazer a privatização da Petrobrás sem que a população percebesse. O governo FHC começou a privatização pela REFAP [Refinaria Alberto Pasqualini]. Uma troca de ativos criaria uma terceira empresa e, teoricamente, a Petrobrás aportaria R$ 500 milhões e a multinacional espanhola Repsol, através de sua subsidiária argentina, outros R$ 500 milhões. Numa segunda fase, a Repsol aportaria um pouco mais, ficando dona do controle acionário”.
A crise argentina salvou a REFAP da privatização. Mas até hoje ela é uma empresa separada, ao contrário das demais refinarias, com 30% do capital pertencente a Repsol – os 70% restantes são da Downstream Participações Ltda, que é controlada pela Petrobrás.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Santanna: “com PNBL e Telebrás, o Brasil dará um salto para o futuro”
Apresentamos hoje a parte final da entrevista com o presidente da Telebrás, Rogério Santanna, realizada pelo cineasta Caio Plessman e pelo diretor de redação da Hora do Povo, Carlos Lopes. Nesta parte, as perspectivas que o Plano Nacional de Banda Larga abre para o país são esboçadas pelo entrevistado de forma extremamente interessante. Como afirma Santanna, “contem com a Telebrás para ser a plataforma articuladora e para apostar na inovação. Nosso negócio aqui é ser um ambiente de inovação e difusão do conhecimento para o Brasil”.
Há, certamente, os que preferem ser escravos do conhecimento alheio – ou, antes que isso, do poder financeiro alheio. São os que sabotaram, privatizaram e desnacionalizaram algumas das empresas mais avançadas do mundo no ramo de telecomunicações, fazendo com que também a iniciativa privada nacional nessa área sofresse um processo de devastação. Mas estes, agora, estão colhendo os frutos amargos – inclusive eleitorais - que nosso povo sempre reservou, cedo ou tarde, a esse tipo de gente, anti-brasileira até as entranhas. Conseguiram, é verdade, causar um retrocesso monstruoso. Mas agora, com mais experiência e menos ilusões, temos todas as condições de superar essa ignomínia praticada contra o Brasil. Realmente, o futuro é nosso.
Continuação da edição anterior
HP – Além dos provedores, a Telebrás terá algum papel na “última milha”?
Rogério Santanna – Quando nós dissemos que é possível ter parceiros em todo o Brasil para fazer a “última milha”, o presidente argumentou: não posso ligar a banda larga numa cidade e não aparecer ninguém para fazer a “última milha”. Então, deu-se a prerrogativa de, na hipótese de não aparecer ninguém com preço adequado, qualidade boa e cobertura adequada, a Telebrás poder fazê-la.
HP – Quais são os planos da Telebrás para este ano?
Rogério Santanna – Temos autorização para gastar aproximadamente o que dispomos no caixa, com o compromisso de repor logo em seguida – pois os recursos que estão aqui cobrem as potenciais dívidas que a empresa ainda tem de pagar, que são os esqueletos da privatização. Foram colocadas aqui todas as dividas das empresas que foram vendidas, e a Telebrás ficou pagando dívida - até por isso ela não foi fechada. São passivos das teles que foram vendidas. Muitos nem são da Telebrás diretamente.
Nós, a partir daí, fizemos um orçamento. Como não tínhamos recursos para fazer tudo, vamos fazer o backbone e o backhaul [ligação da espinha dorsal da rede à sua periferia] em 100 cidades, além das capitais. Levamos em consideração várias questões, como o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] e a proximidade do nosso ponto de baixada da fibra.
HP – As operadoras afirmam que a escolha das cidades foi errônea, porque já existe banda larga nelas. Isso é verdade?
Rogério Santanna – Realmente, a critica das operadoras centrou-se em dizer que 97 daquelas cidades já têm algum serviço privado. Na verdade, isso é uma conversa mole, porque 49,7% das cidades localizadas até 50 km de distância do backbone têm menos de 2 assinantes em mil pessoas.
HP – Dois assinantes em mil pessoas?
Rogério Santanna – Sim. Não estou falando das cem, mas de todas. Entre as cem, 25 têm até 2 habitantes com acesso por mil pessoas, isto é, 0,19% de acesso.
As operadoras vendem para a classe A e B, que podem gastar R$ 500. Então, elas dizem, “já estou lá, liguei o ADSL”. Ligou, mas está vendendo a preço proibitivo, de forma que o povo daquela cidade não consegue comprar.
Se você chegar numa operadora e disser “eu quero um acesso à Internet por R$ 35”, vão dizer assim: “tá, mas você vai ter que pegar o telefone por mais R$ 52”. A conta já vai para R$ 80. Mesmo que vendesse a R$ 35, você é obrigado a comprar o telefone, porque ela não vende para quem não tem telefone.
Uma crítica que foi feita é a inclusão de Campinas, que tem 16,8% de penetração da banda larga. Para Campinas, com 1 milhão e 400 mil habitantes, é um acesso muito restrito, já que a média do Estado de São Paulo é 35%. Campinas está na metade da média de penetração de São Paulo, que é a maior do Brasil, uma penetração pífia no Estado. E, além do mais, não vamos vender só no centro da cidade, para a parte mais rica. Queremos que o provedor forneça o serviço nos grandes aglomerados urbanos de população de baixa renda. Nas cidades grandes, sabemos que a periferia não é atendida. É só ir, por exemplo, na Zona Leste de São Paulo.
HP – E quanto as críticas à velocidade prevista no Plano Nacional de Banda Larga? Apesar das teles fornecerem 10% da velocidade que está no contrato, elas...
Rogério Santanna – Não, nem 10%. Um para 35 ou 1 para 16 na melhor hipótese. Você obtém 10% de uma operadora na melhor hipótese, quando deveria ser na pior. Nós calculamos os 10% na pior hipótese - e eles calculam os 10% na melhor hipótese. De madrugada, ninguém na rede, sem nenhum evento no mundo retrancando, você consegue os seus 10%. Como o usuário não tem como controlar a qualidade...
Quando se diz que 512 kbps [kilobits por segundo] é muito ruim, eu duvido, porque 512 kbps, mesmo com 1 para 10, é bem melhor do que um mega que eles vendem por aí, com 1 para 35.
HP – Mesmo assim, 512 kbps, com um mínimo de um para dez, não é uma velocidade baixa?
Rogério Santanna – É suficiente para as principais aplicações. Na verdade, significa o seguinte: no pior horário da rede você vai ter 51 kbps. Você já deve ter feito um download e visto que às vezes a velocidade está em 2, 10, 9 kbps. Em casa, 51 kbps dá para fazer as principais aplicações, correio eletrônico, baixar música - e com qualidade.
HP – Com essa velocidade também é possível baixar filmes?
Rogério Santanna – Também. Nos filmes, as operadoras fazem uma outra coisa. Elas têm um software que opera o que eles chamam de “traffic shaping”. Eles descobrem que você está baixando um filme, pelo tipo de pacote que está passando na rede, e derrubam a sua conexão. Ai seu filme para, você tem que voltar lá de novo, continuar baixando no outro dia. Começam a degradar a sua conexão para não prejudicar o tráfego da rede delas. Pegam os usuários que estão baixando muito e diminuem a velocidade. Esta é uma rede não neutra, quando ela devia ser neutra.
HP – O que é uma rede neutra?
Rogério Santanna – Numa rede neutra, todos os pacotes são iguais perante a rede. É a democracia da rede. A rede não escolhe, dizendo que esse pacote não vai, a não ser por problema de natureza técnica. Mas ela não faz o que a operadora faz - ficar escutando o tráfego para saber qual tem que ser derrubado para melhorar a performance da sua rede. Com isso, você não consegue ter qualidade. Uma velocidade de 512 kbps sem “traffic shaping” é melhor do que o que elas estão oferecendo como 1 mega, bem melhor. Na verdade, a discussão está invertida. Aquele 1 mega é virtual. Ele nunca ocorre. Não há nenhum dia da rede em que você obtenha 1 mega. Não há esse caso.
O que nós estamos fazendo é oferecer uma rede neutra - e 512 kbps por R$ 35 não é o máximo da rede, é o mínimo. Se você quiser comprar 1 mega por R$ 50, o provedor vai poder vender. Hoje, o pacote médio de entrada disponível em qualquer operadora é 256 kbps por, em média, R$ 96. A metade da velocidade pelo triplo do preço.
Mas por que as operadoras não tem interesse que isso aconteça?
O que vai acontecer com as classes C, D e E já está acontecendo na comunidade da Rocinha, onde o governo Sérgio Cabral disponibilizou banda larga gratuita. O que fazem as pessoas que precisam falar com seus parentes no Nordeste? Usam o Skype, como os ricos usam para falar com os seus filhos que estão na Europa. Quanto se paga a uma operadora pelo serviço? Zero. Por isso elas não se interessam por esse negócio.
O que essa pessoa vai fazer? Tirar o telefone fixo, que é caro demais, e trocar por um telefone VoIP, que inclusive tem número. Então, o que querem as operadoras? Querem que a regulação proteja o seu mercado da concorrência. Quem diz isso é aquele semanário inglês de extrema esquerda, o “The Economist”, num artigo, traduzido pela Carta Capital, intitulado “Por estradas vicinais”: as operadoras são adversárias da universalização da banda larga, porque isso canibaliza a sua rentabilidade. Não vai haver universalização, a não ser que haja uma interferência externa. Esse é o papel reservado à Telebrás.
HP – Quantos Estados a Telebrás atingirá com a rede de fibras ópticas do Plano Nacional de Banda Larga?
Rogério Santanna – Todos, mas alguns, sobretudo os da região Norte, tais como Roraima, Amapá e o próprio Amazonas, dependem de algumas obras de hidrelétricas que estão sendo feitas na região, portanto, só serão atingidos plenamente no final do processo. Haverá algumas cidades em que teremos de fazer conexão por satélite, pois não há como chegar com fibras ópticas pelo menos nos próximos quatro ou cinco anos. Mas esse número deve diminuir bastante em relação a hoje. Com tudo o que nós temos, podemos cobrir 4.283 municípios em 4 anos. Nenhuma operadora cobre isso.
A partir da primeira fase, a expansão é definida pelo volume de dinheiro. Terminaríamos o ano que vem com 1.163 cidades, na pior hipótese.
HP – No momento atual, a produção nacional de cinema encontra-se praticamente excluída da TV por assinatura. Com o PNBL, será possível ter canais próprios na TV para a produção cultural nacional, ao invés de ficarmos reivindicando que ela entre nos pacotes das TVs sob controle das teles?
Rogério Santanna – O que nós estamos montando aqui é a parte burra do negócio, isto é, o tubo pelo qual passam as coisas - e eu não estou olhando nada do que passa. Mas o que projetamos é mais do que isso. Nós provamos o seguinte: só o “tubo burro” se paga. Mas o melhor de tudo não é o “tubo burro”, é o que vem depois.
O que é chave para a sociedade do futuro? Duas coisas importantes: armazenamento barato e banda larga - e uma plataforma nacional. Como o Google fez sua plataforma sem ter rede? Mas o Google está tratando de ter rede, porque agora, com tráfego demais, as operadoras estão querendo tirar parte do negócio dele, e ele depende delas, tem que negociar com elas.
Nós estamos começando pela rede independente e uma plataforma que vai incluir armazenamento, alguns terabytes, um armazenamento em disco de grande capacidade, em cada um dos meus 320 pops [pontos de presença: o local onde chega a rede, antes da “última milha”].
Essa é uma plataforma aberta. Com o Ginga [programa para a TV digital brasileira que permite aplicações independente do equipamento do usuário] vamos poder, em conjunto com os cineastas brasileiros, produzir uma plataforma para filmes, para a TV sobre IP. O assinante vai poder, da sua casa, numa caixinha que já existe no mercado, plugar e baixar, para assistir na televisão uma produção que está na web, sem problema nenhum. Mais do que isso, podemos colocar o conteúdo mais próximo do usuário final. De onde ele está baixando o seu filme? De Cacimbinhas. Vou colocar o conteúdo no pop mais perto de Cacimbinhas, ele não precisa andar pela rede inteira.
Isso vale para qualquer aplicação. Por exemplo, você faz o imposto de renda e no dia 31 as redes entopem, porque está todo mundo baixando o mesmo pacote. O que podemos fazer? Mandar esse pacote para os 300 pontos, e quando você entrar em algum ponto da rede e pedir o pacote, você não tem que vir até o Serpro para buscá-lo, você já consegue fazê-lo descer.
A mesma coisa em relação aos filmes e vídeos, e nós vamos poder criar um mercado para isso, com os produtores de conteúdo como parceiros estratégicos. A web democratizou a distribuição. Da mesma forma que hoje você escolhe ver um DVD, vai plugar a web na caixinha - e pronto, poderá baixar seu filme na TV. Hoje, você tem uma ditadura, na TV só pode assistir naquele horário. Se usarmos a tecnologia que nós desenvolvemos, pensaremos um projeto de IPTV no Brasil, incluindo os produtores, e fazer coisas que a TV atual não quer fazer.
HP – Como ficariam, nesse quadro, as TVs abertas?
Rogério Santanna - As TVs abertas deveriam enxergar na Telebrás a sua salvação, porque as teles, comprimidas porque a voz vai deixar de ser um negocio rentável, têm de achar um novo negócio. Qual é o novo negócio? Conteúdo. Vídeo. A choradeira é maluca, porque a convergência digital é mais ou menos como reforma agrária: todo mundo é a favor, mas que seja na terra dos outros, na minha, não.
No mundo das telecomunicações, quem não tiver conteúdo não sobreviverá. As teles estão tentando entrar no conteúdo das TVs. E as TVs estão vendendo acesso à Internet. Todos vão vender tudo - o que fará a diferença é o valor do conteúdo.
O que nós estamos construindo aqui é a convergência feita em rede. Não é uma empresa hierárquica que vai deter tudo, como é o caso da Telefônica e da Oi, que estão comprando outras operadoras. Nós vamos ter uma rede que articula todos esses pequenos operadores, provedores e produtores de conteúdo. Esse ambiente neutro vai ser o catalisador de um processo. Não viveremos de vender voz, viveremos de vender banda.
Nós temos conhecimento. Vamos juntar gente para produzir coisas novas. E contem com a Telebrás para ser a plataforma articuladora e para apostar na inovação. Nosso negócio aqui é ser um ambiente de inovação e difusão do conhecimento para o Brasil.
Há, certamente, os que preferem ser escravos do conhecimento alheio – ou, antes que isso, do poder financeiro alheio. São os que sabotaram, privatizaram e desnacionalizaram algumas das empresas mais avançadas do mundo no ramo de telecomunicações, fazendo com que também a iniciativa privada nacional nessa área sofresse um processo de devastação. Mas estes, agora, estão colhendo os frutos amargos – inclusive eleitorais - que nosso povo sempre reservou, cedo ou tarde, a esse tipo de gente, anti-brasileira até as entranhas. Conseguiram, é verdade, causar um retrocesso monstruoso. Mas agora, com mais experiência e menos ilusões, temos todas as condições de superar essa ignomínia praticada contra o Brasil. Realmente, o futuro é nosso.
Continuação da edição anterior
HP – Além dos provedores, a Telebrás terá algum papel na “última milha”?
Rogério Santanna – Quando nós dissemos que é possível ter parceiros em todo o Brasil para fazer a “última milha”, o presidente argumentou: não posso ligar a banda larga numa cidade e não aparecer ninguém para fazer a “última milha”. Então, deu-se a prerrogativa de, na hipótese de não aparecer ninguém com preço adequado, qualidade boa e cobertura adequada, a Telebrás poder fazê-la.
HP – Quais são os planos da Telebrás para este ano?
Rogério Santanna – Temos autorização para gastar aproximadamente o que dispomos no caixa, com o compromisso de repor logo em seguida – pois os recursos que estão aqui cobrem as potenciais dívidas que a empresa ainda tem de pagar, que são os esqueletos da privatização. Foram colocadas aqui todas as dividas das empresas que foram vendidas, e a Telebrás ficou pagando dívida - até por isso ela não foi fechada. São passivos das teles que foram vendidas. Muitos nem são da Telebrás diretamente.
Nós, a partir daí, fizemos um orçamento. Como não tínhamos recursos para fazer tudo, vamos fazer o backbone e o backhaul [ligação da espinha dorsal da rede à sua periferia] em 100 cidades, além das capitais. Levamos em consideração várias questões, como o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] e a proximidade do nosso ponto de baixada da fibra.
HP – As operadoras afirmam que a escolha das cidades foi errônea, porque já existe banda larga nelas. Isso é verdade?
Rogério Santanna – Realmente, a critica das operadoras centrou-se em dizer que 97 daquelas cidades já têm algum serviço privado. Na verdade, isso é uma conversa mole, porque 49,7% das cidades localizadas até 50 km de distância do backbone têm menos de 2 assinantes em mil pessoas.
HP – Dois assinantes em mil pessoas?
Rogério Santanna – Sim. Não estou falando das cem, mas de todas. Entre as cem, 25 têm até 2 habitantes com acesso por mil pessoas, isto é, 0,19% de acesso.
As operadoras vendem para a classe A e B, que podem gastar R$ 500. Então, elas dizem, “já estou lá, liguei o ADSL”. Ligou, mas está vendendo a preço proibitivo, de forma que o povo daquela cidade não consegue comprar.
Se você chegar numa operadora e disser “eu quero um acesso à Internet por R$ 35”, vão dizer assim: “tá, mas você vai ter que pegar o telefone por mais R$ 52”. A conta já vai para R$ 80. Mesmo que vendesse a R$ 35, você é obrigado a comprar o telefone, porque ela não vende para quem não tem telefone.
Uma crítica que foi feita é a inclusão de Campinas, que tem 16,8% de penetração da banda larga. Para Campinas, com 1 milhão e 400 mil habitantes, é um acesso muito restrito, já que a média do Estado de São Paulo é 35%. Campinas está na metade da média de penetração de São Paulo, que é a maior do Brasil, uma penetração pífia no Estado. E, além do mais, não vamos vender só no centro da cidade, para a parte mais rica. Queremos que o provedor forneça o serviço nos grandes aglomerados urbanos de população de baixa renda. Nas cidades grandes, sabemos que a periferia não é atendida. É só ir, por exemplo, na Zona Leste de São Paulo.
HP – E quanto as críticas à velocidade prevista no Plano Nacional de Banda Larga? Apesar das teles fornecerem 10% da velocidade que está no contrato, elas...
Rogério Santanna – Não, nem 10%. Um para 35 ou 1 para 16 na melhor hipótese. Você obtém 10% de uma operadora na melhor hipótese, quando deveria ser na pior. Nós calculamos os 10% na pior hipótese - e eles calculam os 10% na melhor hipótese. De madrugada, ninguém na rede, sem nenhum evento no mundo retrancando, você consegue os seus 10%. Como o usuário não tem como controlar a qualidade...
Quando se diz que 512 kbps [kilobits por segundo] é muito ruim, eu duvido, porque 512 kbps, mesmo com 1 para 10, é bem melhor do que um mega que eles vendem por aí, com 1 para 35.
HP – Mesmo assim, 512 kbps, com um mínimo de um para dez, não é uma velocidade baixa?
Rogério Santanna – É suficiente para as principais aplicações. Na verdade, significa o seguinte: no pior horário da rede você vai ter 51 kbps. Você já deve ter feito um download e visto que às vezes a velocidade está em 2, 10, 9 kbps. Em casa, 51 kbps dá para fazer as principais aplicações, correio eletrônico, baixar música - e com qualidade.
HP – Com essa velocidade também é possível baixar filmes?
Rogério Santanna – Também. Nos filmes, as operadoras fazem uma outra coisa. Elas têm um software que opera o que eles chamam de “traffic shaping”. Eles descobrem que você está baixando um filme, pelo tipo de pacote que está passando na rede, e derrubam a sua conexão. Ai seu filme para, você tem que voltar lá de novo, continuar baixando no outro dia. Começam a degradar a sua conexão para não prejudicar o tráfego da rede delas. Pegam os usuários que estão baixando muito e diminuem a velocidade. Esta é uma rede não neutra, quando ela devia ser neutra.
HP – O que é uma rede neutra?
Rogério Santanna – Numa rede neutra, todos os pacotes são iguais perante a rede. É a democracia da rede. A rede não escolhe, dizendo que esse pacote não vai, a não ser por problema de natureza técnica. Mas ela não faz o que a operadora faz - ficar escutando o tráfego para saber qual tem que ser derrubado para melhorar a performance da sua rede. Com isso, você não consegue ter qualidade. Uma velocidade de 512 kbps sem “traffic shaping” é melhor do que o que elas estão oferecendo como 1 mega, bem melhor. Na verdade, a discussão está invertida. Aquele 1 mega é virtual. Ele nunca ocorre. Não há nenhum dia da rede em que você obtenha 1 mega. Não há esse caso.
O que nós estamos fazendo é oferecer uma rede neutra - e 512 kbps por R$ 35 não é o máximo da rede, é o mínimo. Se você quiser comprar 1 mega por R$ 50, o provedor vai poder vender. Hoje, o pacote médio de entrada disponível em qualquer operadora é 256 kbps por, em média, R$ 96. A metade da velocidade pelo triplo do preço.
Mas por que as operadoras não tem interesse que isso aconteça?
O que vai acontecer com as classes C, D e E já está acontecendo na comunidade da Rocinha, onde o governo Sérgio Cabral disponibilizou banda larga gratuita. O que fazem as pessoas que precisam falar com seus parentes no Nordeste? Usam o Skype, como os ricos usam para falar com os seus filhos que estão na Europa. Quanto se paga a uma operadora pelo serviço? Zero. Por isso elas não se interessam por esse negócio.
O que essa pessoa vai fazer? Tirar o telefone fixo, que é caro demais, e trocar por um telefone VoIP, que inclusive tem número. Então, o que querem as operadoras? Querem que a regulação proteja o seu mercado da concorrência. Quem diz isso é aquele semanário inglês de extrema esquerda, o “The Economist”, num artigo, traduzido pela Carta Capital, intitulado “Por estradas vicinais”: as operadoras são adversárias da universalização da banda larga, porque isso canibaliza a sua rentabilidade. Não vai haver universalização, a não ser que haja uma interferência externa. Esse é o papel reservado à Telebrás.
HP – Quantos Estados a Telebrás atingirá com a rede de fibras ópticas do Plano Nacional de Banda Larga?
Rogério Santanna – Todos, mas alguns, sobretudo os da região Norte, tais como Roraima, Amapá e o próprio Amazonas, dependem de algumas obras de hidrelétricas que estão sendo feitas na região, portanto, só serão atingidos plenamente no final do processo. Haverá algumas cidades em que teremos de fazer conexão por satélite, pois não há como chegar com fibras ópticas pelo menos nos próximos quatro ou cinco anos. Mas esse número deve diminuir bastante em relação a hoje. Com tudo o que nós temos, podemos cobrir 4.283 municípios em 4 anos. Nenhuma operadora cobre isso.
A partir da primeira fase, a expansão é definida pelo volume de dinheiro. Terminaríamos o ano que vem com 1.163 cidades, na pior hipótese.
HP – No momento atual, a produção nacional de cinema encontra-se praticamente excluída da TV por assinatura. Com o PNBL, será possível ter canais próprios na TV para a produção cultural nacional, ao invés de ficarmos reivindicando que ela entre nos pacotes das TVs sob controle das teles?
Rogério Santanna – O que nós estamos montando aqui é a parte burra do negócio, isto é, o tubo pelo qual passam as coisas - e eu não estou olhando nada do que passa. Mas o que projetamos é mais do que isso. Nós provamos o seguinte: só o “tubo burro” se paga. Mas o melhor de tudo não é o “tubo burro”, é o que vem depois.
O que é chave para a sociedade do futuro? Duas coisas importantes: armazenamento barato e banda larga - e uma plataforma nacional. Como o Google fez sua plataforma sem ter rede? Mas o Google está tratando de ter rede, porque agora, com tráfego demais, as operadoras estão querendo tirar parte do negócio dele, e ele depende delas, tem que negociar com elas.
Nós estamos começando pela rede independente e uma plataforma que vai incluir armazenamento, alguns terabytes, um armazenamento em disco de grande capacidade, em cada um dos meus 320 pops [pontos de presença: o local onde chega a rede, antes da “última milha”].
Essa é uma plataforma aberta. Com o Ginga [programa para a TV digital brasileira que permite aplicações independente do equipamento do usuário] vamos poder, em conjunto com os cineastas brasileiros, produzir uma plataforma para filmes, para a TV sobre IP. O assinante vai poder, da sua casa, numa caixinha que já existe no mercado, plugar e baixar, para assistir na televisão uma produção que está na web, sem problema nenhum. Mais do que isso, podemos colocar o conteúdo mais próximo do usuário final. De onde ele está baixando o seu filme? De Cacimbinhas. Vou colocar o conteúdo no pop mais perto de Cacimbinhas, ele não precisa andar pela rede inteira.
Isso vale para qualquer aplicação. Por exemplo, você faz o imposto de renda e no dia 31 as redes entopem, porque está todo mundo baixando o mesmo pacote. O que podemos fazer? Mandar esse pacote para os 300 pontos, e quando você entrar em algum ponto da rede e pedir o pacote, você não tem que vir até o Serpro para buscá-lo, você já consegue fazê-lo descer.
A mesma coisa em relação aos filmes e vídeos, e nós vamos poder criar um mercado para isso, com os produtores de conteúdo como parceiros estratégicos. A web democratizou a distribuição. Da mesma forma que hoje você escolhe ver um DVD, vai plugar a web na caixinha - e pronto, poderá baixar seu filme na TV. Hoje, você tem uma ditadura, na TV só pode assistir naquele horário. Se usarmos a tecnologia que nós desenvolvemos, pensaremos um projeto de IPTV no Brasil, incluindo os produtores, e fazer coisas que a TV atual não quer fazer.
HP – Como ficariam, nesse quadro, as TVs abertas?
Rogério Santanna - As TVs abertas deveriam enxergar na Telebrás a sua salvação, porque as teles, comprimidas porque a voz vai deixar de ser um negocio rentável, têm de achar um novo negócio. Qual é o novo negócio? Conteúdo. Vídeo. A choradeira é maluca, porque a convergência digital é mais ou menos como reforma agrária: todo mundo é a favor, mas que seja na terra dos outros, na minha, não.
No mundo das telecomunicações, quem não tiver conteúdo não sobreviverá. As teles estão tentando entrar no conteúdo das TVs. E as TVs estão vendendo acesso à Internet. Todos vão vender tudo - o que fará a diferença é o valor do conteúdo.
O que nós estamos construindo aqui é a convergência feita em rede. Não é uma empresa hierárquica que vai deter tudo, como é o caso da Telefônica e da Oi, que estão comprando outras operadoras. Nós vamos ter uma rede que articula todos esses pequenos operadores, provedores e produtores de conteúdo. Esse ambiente neutro vai ser o catalisador de um processo. Não viveremos de vender voz, viveremos de vender banda.
Nós temos conhecimento. Vamos juntar gente para produzir coisas novas. E contem com a Telebrás para ser a plataforma articuladora e para apostar na inovação. Nosso negócio aqui é ser um ambiente de inovação e difusão do conhecimento para o Brasil.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A privatização alucinada de Serra: liquidadas 109 empresas públicas
Serra, imediatamente após a posse de Fernando Henrique, tornou-se não apenas ministro do Planejamento como presidente do recém-criado Conselho Nacional de Desestatização (CND), que tinha a função de fazer a lista e preparar as estatais para serem privatizadas.
Cinco meses após a sua posse como chefe da privatização, Serra declarou: “Estamos fazendo todo o possível para privatizar em alta velocidade” (Veja, 03/05/1995). A matéria da “Veja” comemorava que Serra havia incluído na privatização as empresas de geração de energia elétrica – Furnas, Chesf, Eeletronorte, Eletrosul, etc. - que não foram, na maior parte, privatizadas, porque o apagão chegou antes, o que tornou inviável a entrega da maioria delas.
Porém, antes que isso acontecesse, foram privatizadas quatro geradoras: a CSDA (Centrais Elétricas Cachoeira Dourada), a GERASUL (Centrais Geradoras do Sul do Brasil), a Paranapanema e a Tietê.
Note-se que a gestão de Serra não se limitava às empresas federais – a política de privatização orquestrada por ele forçou a venda das estatais estaduais. No setor elétrico, além das geradoras mencionadas, foram privatizadas 20 distribuidoras: ESCELSA, Light, CERJ, COELBA, CEEE, Centro-Oeste, CPFL, ENERSUL, CEMAT, ENERGIPE, COSERN, COELCE, Eletropaulo, CELPA, Elektro, Bandeirante, CELB, CELPE, CEMAR, SAELPA.
A Eletrobrás e todas as suas subsidiárias restantes só foram retiradas da lista de privatização pelo governo Lula e sua ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, em 2004.
Serra, depois de tomar posse no governo de São Paulo, ainda tentaria privatizar o que restou da antiga CESP, em 2008, mas fracassou, diante da resistência do povo de São Paulo – no entanto, manteve a CESP como “privatizável” até fevereiro deste ano.
Em sua gestão como presidente do conselho de privatização do governo Fernando Henrique, depois das empresas de eletricidade, Serra acrescentou na lista (cf. BNDES, “Privatização – Histórico”) a Vale do Rio Doce, maior mineradora do mundo, na época já proprietária de 40 outras empresas e de incalculáveis reservas minerais. Diante de uma descoberta da empresa, Serra declarou, em fevereiro de 2006: “A descoberta dessa mina não altera em nada o processo de privatização” (Veja, 07/02/1996). A Vale foi vendida por US$ 3,2 bilhões, o correspondente, como nota o professor Diron Botelho, a quem devemos parte dessa pesquisa, a um semestre de seu lucro atual (o “valor de mercado” da Vale é US$ 196 bilhões!).
Sucintamente, eis o relato, feito pelos próprios funcionários que executavam a privatização, sobre o período em que Serra foi o seu chefe: “A partir de 1995 (…) maior prioridade é conferida à privatização. [Foi] praticamente concluída a privatização das estatais que atuam no segmento industrial. Inicia-se uma nova fase do PND [Programa Nacional de Desestatização], em que os serviços públicos são transferidos ao setor privado. A agenda inclui os setores de eletricidade (…) área de transporte e telecomunicações. Esta nova fase também é caracterizada pelo início do processo de desestatização de empresas estaduais, a cargo dos respectivos estados, ao qual o Governo Federal dá suporte” (cf. BNDES, “Privatização – Histórico”).
Assim, a privatização organizada por Serra estendeu-se até o fim do governo Fernando Henrique, em 2002.
Em 1995 e 1996, houve 19 empresas privatizadas. Em 1997 foi privatizada a Vale do Rio Doce, a Malha Nordeste da RFFSA, o terminal de containers do porto de Santos, o Banco Meridional do Brasil.
Em 1998, houve a escandalosa privatização das telecomunicações. Na área portuária: o Terminal de Contêineres do Porto de Sepetiba (Tecon 1) da Cia. Docas do Rio de Janeiro, o Cais de Paul e o Cais de Capuaba (Cia. Docas do Espírito Santo-CODESA), Terminal roll-on roll-off (CDRJ) e o Porto de Angra dos Reis (CDRJ). Além da Gerasul e da Malha Paulista da RFFSA.
Em 1999, a Datamec foi entregue à americana Unisys. O porto de Salvador (CODEBA) foi levado pela Wilport. Em São Paulo foram privatizadas: a Elektro, para os bucaneiros da Enron, a Paranapanema para a Duke Energy Corporation, a Tietê para a também americana AES.
Em 2000, o governo vende a maioria do capital total da Petrobrás na Bolsa de Nova Iorque, preparando a privatização da empresa – isto é, a passagem da maioria das ações ordinárias (com direito a voto) para o exterior, o que somente não se realiza devido à resistência interna. Mas o Banespa não tem a mesma sorte, e é passado para o Santander.
Em 2001, a Celpe passou para a espanhola Iberdrola, a Cemar para a Pensylvannia Power & Light e a Manaus Saneamento para a Lyonnaise des Eaux.
Esses são apenas alguns exemplos da ação de Serra na privatização. Realmente, ele fez todo o possível para privatizar em alta velocidade.
Nesta página, o leitor poderá ver o conjunto das estatais privatizadas devido à ação de Serra. Advertimos, apenas, que deve ainda estar faltando alguma que nos escapou. São tantas e de setores tão diversos que fazem inevitável alguma imperfeição.
C.L.
Estatais privatizadas no governo FHC/Serra
SETOR DE MINERAÇÃO
Companhia Vale do Rio Doce
A Companhia Vale do Rio Doce foi vendida por US$ 3,2 bilhões, valor correspondente ao lucro da empresa em apenas um semestre. Hoje o valor da empresa é de US$ 196 bilhões. Criada no governo de Getúlio Vargas, a mineradora foi alvo, em 1997, de uma das privatizações mais escandalosas do governo FHC/Serra
SETOR ELÉTRICO
Escelsa - vendida ao Citigroup
Light - vendida ao grupo francês e americano EDF/AES
Gerasul - vendida à empresa belga Tractesel
Enersul - vendida ao grupo Iven
Energipe - vendida ao grupo Cataguazes
Eletropaulo Metropolitana - vendida à americana AES
EBE-Empresa Bandeirante de Energia
Cesp-Paranapanema
Cesp - Tietê - vendida à empresa americana DUKE
CERJ
Coelba - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
CEEE-Norte-NE - vendida ao Bradesco
CEEE-Centro Oeste - vendida AES
CPFL - vendida ao Bradesco
Cemat - vendida a Inepar
Cosern - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
Coelce - vendida a Enersys
Celpa - vendida a Inepar
Elektro - vendida à empresa americana Enron
Celpe - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
Cemar - vendida à americano Ulem Mannegement Company
Saelpa
CSDA (Centrais Elétricas Cachoeira Dourada)
SETOR FERROVIÁRIO
Ferroeste
RFFSA - Malha Centro-Leste
RFFSA - Malha Oeste
RFFSA - Malha Sudeste
RFFSA - Malha Sul
RFFSA - Malha Tereza Cristina
RFFSA - Malha Nordeste
RFFSA - Malha Paulista
Flumitrens - vendido a CAF
SETOR QUÍMICO E PETROQUÍMICO
Salgema - vendida à Copene
CBP
Copene
CPC
CQR
Nitrocarbono
Pronor
EDN
Koppol
Polibrasil
Polipropileno
Deten
SETOR PORTUÁRIO
Tecon 1 - Terminal de Contêineres do Porto
de Sepetiba da Cia. Docas do RJ
Cais de Paul e Cais de Capuaba (Docas
do Espírito Santos-Codesa)
CDRJ - Terminal roll-on roll-of
CDRJ - Porto de Angra dos Reis
SETOR DE GÁS
Comgás - vendida à britânica British Gas/Shell
Gás Noroeste - SP
CEG - vendida a Enron
Riogás - vendida a Enron
Gás Sul
SETOR DE TELECOMUNICAÇÃO
CETERP - Telefónica
CRT - Telefónica - Daniel Dantas/TI
CTBC - Telefónica
CTMR - Daniel Dantas/TI
EMBRATEL - MCI World Com
TELAIMA - Grupo Jereissati
TELAMAZON - Grupo Jereissati
TELASA - Grupo Jereissati
TELEACRE - Daniel Dantas/TI
TELEAMAPÁ - Grupo Jereissati
TELEBAHIA - Grupo Jereissati
TELEBRASÍLIA - Daniel Dantas/TI
TELECEARÁ - Grupo Jereissati
TELESC - Daniel Dantas/TI
TELEGOIÁS - Daniel Dantas/TI
TELEMAT - Daniel Dantas/TI
TELEMIG - Grupo Jereissati
TELEMS - Daniel Dantas/TI
TELEPAR - Daniel Dantas/TI
TELEPARÁ - Grupo Jereissati
TELEPISA - Grupo Jereissati
TELERGIPE - Grupo Jereissati
TELERJ - Grupo Jereissati
TELERN - Grupo Jereissati
TELERON - Daniel Dantas/TI
TELESP - Telefónica
TELEST - Grupo Jereissati
TELMA - Grupo Jereissati
TELPA - Grupo Jereissati
TELPE - Grupo Jereissati
CPqD
Telesp Celular - vendida a Portugal telecom
Tele Sudeste Celular - Telefónica de España
Telemig Celular - Daniel Dantas
Tele Celular Sul - Globo-Bradesco/TI
Tele Nordeste Celular - Globo-Bradesco/TI
Tele Leste Celular - Iberdrola
Tele Centro Oeste Celular - Splice
Tele Norte Celular - Daniel Dantas
SETOR FINANCEIRO
Banestado - vendido ao Itaú
Banco Meridional do Brasil
Beg
BEA
Credireal
Banerj - vendido ao Itaú
Bemge - vendido ao Itaú
Bandepe - vendido ao ABN
Baneb - vendido ao Bradesco
Paraiban
OUTROS SETORES
Datamec – vendida à americana Unisys
Cia. União de Seguros Gerais
Metrô
Conerj – CIA. de Navegação do Estado do RJ
Terminal Garagem Menezes Cortes
Manaus Saneamento - vend. a Suez Lyommaise
Matéria da revista “Veja” de 03/05/1995, quando o ministro do
governo FHC era o chefe do programa de privatização. Serra:
“Estamos fazendo todo o possível para privatizar em alta velocidade”
Cinco meses após a sua posse como chefe da privatização, Serra declarou: “Estamos fazendo todo o possível para privatizar em alta velocidade” (Veja, 03/05/1995). A matéria da “Veja” comemorava que Serra havia incluído na privatização as empresas de geração de energia elétrica – Furnas, Chesf, Eeletronorte, Eletrosul, etc. - que não foram, na maior parte, privatizadas, porque o apagão chegou antes, o que tornou inviável a entrega da maioria delas.
Porém, antes que isso acontecesse, foram privatizadas quatro geradoras: a CSDA (Centrais Elétricas Cachoeira Dourada), a GERASUL (Centrais Geradoras do Sul do Brasil), a Paranapanema e a Tietê.
Note-se que a gestão de Serra não se limitava às empresas federais – a política de privatização orquestrada por ele forçou a venda das estatais estaduais. No setor elétrico, além das geradoras mencionadas, foram privatizadas 20 distribuidoras: ESCELSA, Light, CERJ, COELBA, CEEE, Centro-Oeste, CPFL, ENERSUL, CEMAT, ENERGIPE, COSERN, COELCE, Eletropaulo, CELPA, Elektro, Bandeirante, CELB, CELPE, CEMAR, SAELPA.
A Eletrobrás e todas as suas subsidiárias restantes só foram retiradas da lista de privatização pelo governo Lula e sua ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, em 2004.
Serra, depois de tomar posse no governo de São Paulo, ainda tentaria privatizar o que restou da antiga CESP, em 2008, mas fracassou, diante da resistência do povo de São Paulo – no entanto, manteve a CESP como “privatizável” até fevereiro deste ano.
Em sua gestão como presidente do conselho de privatização do governo Fernando Henrique, depois das empresas de eletricidade, Serra acrescentou na lista (cf. BNDES, “Privatização – Histórico”) a Vale do Rio Doce, maior mineradora do mundo, na época já proprietária de 40 outras empresas e de incalculáveis reservas minerais. Diante de uma descoberta da empresa, Serra declarou, em fevereiro de 2006: “A descoberta dessa mina não altera em nada o processo de privatização” (Veja, 07/02/1996). A Vale foi vendida por US$ 3,2 bilhões, o correspondente, como nota o professor Diron Botelho, a quem devemos parte dessa pesquisa, a um semestre de seu lucro atual (o “valor de mercado” da Vale é US$ 196 bilhões!).
Sucintamente, eis o relato, feito pelos próprios funcionários que executavam a privatização, sobre o período em que Serra foi o seu chefe: “A partir de 1995 (…) maior prioridade é conferida à privatização. [Foi] praticamente concluída a privatização das estatais que atuam no segmento industrial. Inicia-se uma nova fase do PND [Programa Nacional de Desestatização], em que os serviços públicos são transferidos ao setor privado. A agenda inclui os setores de eletricidade (…) área de transporte e telecomunicações. Esta nova fase também é caracterizada pelo início do processo de desestatização de empresas estaduais, a cargo dos respectivos estados, ao qual o Governo Federal dá suporte” (cf. BNDES, “Privatização – Histórico”).
Assim, a privatização organizada por Serra estendeu-se até o fim do governo Fernando Henrique, em 2002.
Em 1995 e 1996, houve 19 empresas privatizadas. Em 1997 foi privatizada a Vale do Rio Doce, a Malha Nordeste da RFFSA, o terminal de containers do porto de Santos, o Banco Meridional do Brasil.
Em 1998, houve a escandalosa privatização das telecomunicações. Na área portuária: o Terminal de Contêineres do Porto de Sepetiba (Tecon 1) da Cia. Docas do Rio de Janeiro, o Cais de Paul e o Cais de Capuaba (Cia. Docas do Espírito Santo-CODESA), Terminal roll-on roll-off (CDRJ) e o Porto de Angra dos Reis (CDRJ). Além da Gerasul e da Malha Paulista da RFFSA.
Em 1999, a Datamec foi entregue à americana Unisys. O porto de Salvador (CODEBA) foi levado pela Wilport. Em São Paulo foram privatizadas: a Elektro, para os bucaneiros da Enron, a Paranapanema para a Duke Energy Corporation, a Tietê para a também americana AES.
Em 2000, o governo vende a maioria do capital total da Petrobrás na Bolsa de Nova Iorque, preparando a privatização da empresa – isto é, a passagem da maioria das ações ordinárias (com direito a voto) para o exterior, o que somente não se realiza devido à resistência interna. Mas o Banespa não tem a mesma sorte, e é passado para o Santander.
Em 2001, a Celpe passou para a espanhola Iberdrola, a Cemar para a Pensylvannia Power & Light e a Manaus Saneamento para a Lyonnaise des Eaux.
Esses são apenas alguns exemplos da ação de Serra na privatização. Realmente, ele fez todo o possível para privatizar em alta velocidade.
Nesta página, o leitor poderá ver o conjunto das estatais privatizadas devido à ação de Serra. Advertimos, apenas, que deve ainda estar faltando alguma que nos escapou. São tantas e de setores tão diversos que fazem inevitável alguma imperfeição.
C.L.
Estatais privatizadas no governo FHC/Serra
SETOR DE MINERAÇÃO
Companhia Vale do Rio Doce
A Companhia Vale do Rio Doce foi vendida por US$ 3,2 bilhões, valor correspondente ao lucro da empresa em apenas um semestre. Hoje o valor da empresa é de US$ 196 bilhões. Criada no governo de Getúlio Vargas, a mineradora foi alvo, em 1997, de uma das privatizações mais escandalosas do governo FHC/Serra
SETOR ELÉTRICO
Escelsa - vendida ao Citigroup
Light - vendida ao grupo francês e americano EDF/AES
Gerasul - vendida à empresa belga Tractesel
Enersul - vendida ao grupo Iven
Energipe - vendida ao grupo Cataguazes
Eletropaulo Metropolitana - vendida à americana AES
EBE-Empresa Bandeirante de Energia
Cesp-Paranapanema
Cesp - Tietê - vendida à empresa americana DUKE
CERJ
Coelba - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
CEEE-Norte-NE - vendida ao Bradesco
CEEE-Centro Oeste - vendida AES
CPFL - vendida ao Bradesco
Cemat - vendida a Inepar
Cosern - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
Coelce - vendida a Enersys
Celpa - vendida a Inepar
Elektro - vendida à empresa americana Enron
Celpe - vendida ao grupo espanhol Iberdrola
Cemar - vendida à americano Ulem Mannegement Company
Saelpa
CSDA (Centrais Elétricas Cachoeira Dourada)
SETOR FERROVIÁRIO
Ferroeste
RFFSA - Malha Centro-Leste
RFFSA - Malha Oeste
RFFSA - Malha Sudeste
RFFSA - Malha Sul
RFFSA - Malha Tereza Cristina
RFFSA - Malha Nordeste
RFFSA - Malha Paulista
Flumitrens - vendido a CAF
SETOR QUÍMICO E PETROQUÍMICO
Salgema - vendida à Copene
CBP
Copene
CPC
CQR
Nitrocarbono
Pronor
EDN
Koppol
Polibrasil
Polipropileno
Deten
SETOR PORTUÁRIO
Tecon 1 - Terminal de Contêineres do Porto
de Sepetiba da Cia. Docas do RJ
Cais de Paul e Cais de Capuaba (Docas
do Espírito Santos-Codesa)
CDRJ - Terminal roll-on roll-of
CDRJ - Porto de Angra dos Reis
SETOR DE GÁS
Comgás - vendida à britânica British Gas/Shell
Gás Noroeste - SP
CEG - vendida a Enron
Riogás - vendida a Enron
Gás Sul
SETOR DE TELECOMUNICAÇÃO
CETERP - Telefónica
CRT - Telefónica - Daniel Dantas/TI
CTBC - Telefónica
CTMR - Daniel Dantas/TI
EMBRATEL - MCI World Com
TELAIMA - Grupo Jereissati
TELAMAZON - Grupo Jereissati
TELASA - Grupo Jereissati
TELEACRE - Daniel Dantas/TI
TELEAMAPÁ - Grupo Jereissati
TELEBAHIA - Grupo Jereissati
TELEBRASÍLIA - Daniel Dantas/TI
TELECEARÁ - Grupo Jereissati
TELESC - Daniel Dantas/TI
TELEGOIÁS - Daniel Dantas/TI
TELEMAT - Daniel Dantas/TI
TELEMIG - Grupo Jereissati
TELEMS - Daniel Dantas/TI
TELEPAR - Daniel Dantas/TI
TELEPARÁ - Grupo Jereissati
TELEPISA - Grupo Jereissati
TELERGIPE - Grupo Jereissati
TELERJ - Grupo Jereissati
TELERN - Grupo Jereissati
TELERON - Daniel Dantas/TI
TELESP - Telefónica
TELEST - Grupo Jereissati
TELMA - Grupo Jereissati
TELPA - Grupo Jereissati
TELPE - Grupo Jereissati
CPqD
Telesp Celular - vendida a Portugal telecom
Tele Sudeste Celular - Telefónica de España
Telemig Celular - Daniel Dantas
Tele Celular Sul - Globo-Bradesco/TI
Tele Nordeste Celular - Globo-Bradesco/TI
Tele Leste Celular - Iberdrola
Tele Centro Oeste Celular - Splice
Tele Norte Celular - Daniel Dantas
SETOR FINANCEIRO
Banestado - vendido ao Itaú
Banco Meridional do Brasil
Beg
BEA
Credireal
Banerj - vendido ao Itaú
Bemge - vendido ao Itaú
Bandepe - vendido ao ABN
Baneb - vendido ao Bradesco
Paraiban
OUTROS SETORES
Datamec – vendida à americana Unisys
Cia. União de Seguros Gerais
Metrô
Conerj – CIA. de Navegação do Estado do RJ
Terminal Garagem Menezes Cortes
Manaus Saneamento - vend. a Suez Lyommaise
Matéria da revista “Veja” de 03/05/1995, quando o ministro do
governo FHC era o chefe do programa de privatização. Serra:
“Estamos fazendo todo o possível para privatizar em alta velocidade”
Assinar:
Postagens (Atom)