segunda-feira, 11 de abril de 2016

Me preocupa muito o dia seguinte', diz Marco Aurélio Mello sobre eventual impeachment

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, em seu gabinete na sede da corte em Brasília, atende o telefone celular e responde sobre seu ânimo: “Eu vou muito bem, mas o Brasil, nem tanto”. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, Mello mostra séria preocupação com os rumos do País, principalmente se vingar o afastamento da presidente Dilma Rousseff. E adverte para que não se venda à sociedade a imagem de que teremos “o conserto do Brasil no dia seguinte ao afastamento da presidente.”
Aos 69 anos, o ministro, que afirma que nem pensa em se aposentar, define que o STF vive seu momento mais agudo desde 1988. O magistrado reforça que a corte precisa focar o mundo técnico e jurídico (ao apreciar as razões do impeachment), mas reage ao desembarque do PMDB. “Não entra na minha cabeça que o partido que formou a chapa e tenha o vice-presidente simplesmente rompa com o governo. Não segue a ordem natural das coisas.” E vislumbra: “O movimento que está no contexto é o de substituição, sem dúvida nenhuma, da presidente da República”.
Jornal do Comércio - A presidente diz que impeachment sem fato ou crime de responsabilidade é golpe. O que o senhor acha disso?
Marco Aurélio Mello - Não analisamos no Judiciário o fato ou conotação política do processo, mas o aspecto jurídico, constitucional e legal, que envolve a existência de um fato jurídico que consubstancie crime de responsabilidade. Isso evidentemente pode chegar ao Judiciário, que é a última trincheira da cidadania. Temos de aguardar os desdobramentos e que todos tenham juízo e que haja um apego maior à ética.
JC - É o momento mais difícil do STF?
Mello – Desde a Constituição de 1988, sem dúvida nenhuma.
JC - Como o senhor qualifica estes tempos em que vivemos?
Mello - O Brasil está numa encruzilhada. Precisaríamos definir o rumo a tomar, a partir de fatos que precisam ser apurados, e sabendo de início que não estaremos com dias melhores após o afastamento da presidente da República. O que cumpre à Câmara dos Deputados é verificar se as causas de impedir representam crimes de responsabilidade e se estão provados os fatos. Agora precisamos aguardar, esperar. Me preocupa muito o dia seguinte, ou seja, o fato de a situação atual ser adversa daquela de 1992.
JC - No que é adversa?
Mello – No impedimento do presidente Fernando Collor de Mello não tínhamos os segmentos como hoje. A presidente, considerando o PT, tem. Lá havia um consenso, que se formou e escaneou o impeachment. Hoje em dia, não. O panorama que está no horizonte sinaliza conflitos futuros, e evidentemente o PT estará na oposição.
JC - O que pode acontecer?
Mello – Os segmentos antagônicos se defrontarem na rua, e aí teremos de ver se as nossas forças repressivas, representadas pelas polícias militares, são suficientes para controlar a situação. Se não forem, o último recurso estará na intervenção das forças armadas. Isso nós não queremos, não pretendemos...
JC – O senhor vê esse risco?
Mello – Não tenho a menor dúvida de que não temos ou que falta a compreensão dos interesses nacionais. Não há governança por falta de diálogo. Ou seja, a voz da presidente da República não ressoa no Congresso de forma positiva. Isso é muito ruim, porque os poderes são harmônicos e independentes, mas devem atuar em conjunto.
JC – Isso revela as fraquezas da democracia brasileira?
Mello – O modelo republicano, vencedor no plebiscito de 1993, funciona em outros países, mas precisa haver uma compenetração para se ter presente o coletivo de quem ocupa cargos públicos. Não dá para simplesmente potencializar o interesse individual ou o interesse simplesmente partidário e romper com o Poder Executivo, como o Legislativo acabou rompendo.
JC - O senhor se refere ao PMDB?
Mello - Falo dos partidos em geral, mas não entra na minha cabeça que o partido que formou a chapa e tenha o vice-presidente simplesmente rompa com o governo. Isso é para mim é impensável. Não segue a ordem natural das coisas.
JC - O que o partido pretende com isso?
Mello - O movimento que está no contexto é o de substituição, sem dúvida nenhuma, da presidente da República. Agora que não se venda à sociedade que há uma esperança possível de frutificar, ou seja, que teremos aí o conserto do Brasil no dia seguinte ao afastamento da presidente. O que nós precisamos é de negociação, que as forças que estão se digladiando sentem à mesa e vejam o que é melhor para a nacionalidade e combatam a crise que maltrata o cidadão comum, que é a crise econômica e financeira.

"Não entra na minha cabeça que o partido que formou a chapa e tenha o vice-presidente simplesmente rompa com o governo"

JC - Esse cidadão pode reagir?
Mello - Não, ele está muito apaixonado, passa a querer vísceras, sangue. Como o que foi divulgado em gravações e intercepções telefônicas antes da hora, infringindo a lei também, e o vazamento da delação do senador Delcídio Amaral. É hora de termos os pés no chão e atuarmos com racionalidade.
JC - Qual é a responsabilidade do juiz Sérgio Moro nessas divulgações?
Mello - Sou um entusiasta da atuação da PF, MPF, da magistratura, mas desde que façam de acordo com o figurino legal. Vou repetir a célebre frase de Rui Barbosa: ‘Fora da Constituição, fora da lei, não há salvação’.
JC - O juiz desrespeitou a Constituição?
Mello - Toda evidência da lei é muito clara. A lei determina o sigilo do que foi alvo da intercepção telefônica, principalmente se os fatos passaram a estar sob a jurisdição do STF. Mas aí ele potencializa, numa visão subjetiva e capacidade intuitiva, o interesse nacional e fecha a lei. Se o cidadão comum vazasse o alvo da intercepção, cometeria crime, segundo a lei de regência, mas o legislador não previu a possibilidade de um erro de quem julga.
JC – O juiz não pode ser punido como o cidadão comum?
Mello - Ele personifica o estado, teremos de aguardar o posicionamento das instituições. Fica muito difícil, pois a interpretação é um ato de vontade vinculado ao interpretar o ordenamento jurídico. Precisaremos aguardar os desdobramentos. Não estou julgando o colega, estou apenas dizendo o que proclamo no meu dia a dia no Supremo.
JC - As ‘escusas’ pedidas pelo juiz ao STF serão aceitas?
Mello - Não conheço as informações que ele enviou. Em tese, ele teria revelado um arrependimento. Não sei (se o ato) é perdoável. Os órgãos atuam mediante provocação, não sei se há um pedido em curso visando alguma glosa, tanto no campo administrativo como penal. Não sou o julgador do juiz Moro, não posso me pronunciar.
JC - Qual foi o momento mais agudo dessa crise recente?
Mello - A fogueira já estava com a chama muito alta e aí jogaram mais lenha com o vazamento da delação do senador Delcídio e depois a divulgação da nefasta conversa (Lula e Dilma). Aí se incendiou o País.
JC - Quem poderia fazer o papel de negociador?
Mello - Todos os deputados federais, senadores e a chefia do Executivo, mas é preciso ter vontade política para isso, o que parece que não há. A função do STF não é de conciliador ou mediador, (a corte) age por provocação, a partir da Constituição Federal. Além disso, já temos muito o que fazer.
JC – Parece que as pessoas não estão ligando muito para a Constituição.
Mello - Isso é histórico, desde Roma. O leigo quer vísceras e sangue e, neste contexto em que se sente ludibriado, a paixão prevalece. E isso não é bom na busca de um Brasil melhor. Esse momento revela que o senso democrático, às vezes, não prevalece. A nossa democracia ainda está em consolidação. A partir do momento em que a coisa degringole, que haja a babel, com depredações e vítimas no confronto entre segmentos antagônicos, e as forças repressivas sejam insuficientes, teremos que ter uma medida extrema, mas só neste caso.
JC - Os juízes têm de ser mais reservados em seu ofício?
Mello - Os juízes também são cidadãos, e a crítica técnica e científica tem de haver. A apatia não pode ser o mal da nossa quadra.
JC – Por que o juiz Sérgio Moro foi alçado a ídolo nas ruas?
Mello - Tenho para mim que ele é uma pessoa reservada. Somos carentes de valores e aí, quando surge alguém que, cumprindo o dever, se realça, é tido como herói, como foi também com o ministro Joaquim Barbosa.

Relator do impeachment reafirma que houve crime de responsabilidade e é aplaudido de pé por deputados

O relator Jovair Arantes (PTB-GO) foi aplaudido de pé pelos deputados pró-impeachment durante a reunião desta segunda-feira (11) da comissão. Arantes reafirmou que, na sua opinião, houve crime de responsabilidade e conclamou seus colegas a votarem pelo seguimento do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff na Câmara.
— São fortes os indícios que as transações financeiras relatadas constituíram um tipo de financiamento bancário configurando a prática do crime de responsabilidade. Conclamo os colegas para acompanharem meu voto e pela consequente pela instalação pelo Senado.

Para o relator, o seguimento do processo também é importante para estancar a crise e devolver a credibilidade para a presidente, caso ela não seja afastada.

— A admissão da denúncia dará chance para que a presidente prove a sua inocência ao Senado, se não autorizarmos a população pode achar que não tivemos coragem. Uma crise dessas só se resolve com aprofundamento das investigações.
Dilma é acusada de crime de responsabilidade pelas chamadas ‘pedaladas fiscais’ e por decretos de crédito não autorizados pelo legislativo.

quinta-feira, 17 de março de 2016

O MINISTRO CELSO DE MELLO FEZ UM DISCURSO DURÍSSIMO CONTRA LULA HOJE NO STF.





"Os meios de comunicação revelaram, ontem, que conhecida figura política de nosso País, em diálogo telefônico com terceira pessoa, ofendeu, gravemente, a dignidade institucional do Poder Judiciário, imputando a este Tribunal a grosseira e injusta qualificação de ser “uma Suprema Corte totalmente acovardada“!

Esse insulto ao Poder Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte desta Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes, que tanto honram a Magistratura brasileira e que não hesitarão, observados os grandes princípios consagrados pelo regime democrático e respeitada a garantia constitucional do devido processo legal, em fazer recair sobre aqueles considerados culpados, em regular processo judicial, todo o peso e toda a autoridade das leis criminais de nosso País!

A República, Senhor Presidente, além de não admitir privilégios, repudia a outorga de favores especiais e rejeita a concessão de tratamentos diferenciados aos detentores do poder ou a quem quer que seja.

Por isso, Senhor Presidente, cumpre não desconhecer que o dogma da isonomia, que constitui uma das mais expressivas virtudes republicanas, a todos iguala, governantes e governados, sem qualquer distinção, indicando que ninguém, absolutamente ninguém, está acima da autoridade das leis e da Constituição de nosso País, a significar que condutas criminosas perpetradas à sombra do Poder jamais serão toleradas, e os agentes que as houverem praticado, posicionados, ou não, nas culminâncias da hierarquia governamental, serão punidos por seu Juiz natural na exata medida e na justa extensão de sua responsabilidade criminal!"

quarta-feira, 16 de março de 2016

Manifestantes protestam contra nomeação de Lula em frente ao Planalto

Motivados por parlamentares oposicionistas e convocações nas redes sociais, centenas de manifestantes contrários ao governo da presidenta Dilma Rousseff fazem uma manifestação neste momento em frente ao Palácio do Planalto. Eles protestam contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil, feita hoje (16) por Dilma.
O ato já dura uma hora e meia, e os manifestantes convidam os motoristas que buzinam em seus carros a aderirem. A rua em frente à sede do Executivo está fechada nos dois sentidos. A tropa de choque da Polícia Militar e seguranças do Planalto estão posicionados.
A manifestação de deputados da oposição estava marcada para as 17h. Antes disso, porém, algumas pessoas já se posicionaram em frente ao prédio com apitos. Quando atravessaram a rua do Congresso Nacional em direção ao Planalto, os deputados portavam uma faixa com uma frase atribuída ao ex-presidente Lula e cantaram o Hino Nacional.
"No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia. Quando um rico rouba, vira ministro", diz a frase. Eles chegaram a entrar por alguns metros próximos aos jardins do Planalto, mas depois voltaram para a avenida principal. Como de praxe, uma proteção metálica cerca todo o trecho do palácio e divide os manifestantes dos policiais.
Além de bonecos infláveis com a imagem do ex-presidente, os manifestantes portam bandeiras do Brasil e faixas de protesto. Eles também gritam palavras de ordem como "Lula, ladrão, seu lugar é na prisão". Cartazes também são exibidos pelos manifestantes com dizeres "O Brasil não é do PT" e "O limite chegou. Não aguento mais. Fora Dilma. Fora Lula".
Os deputados Paulinho da Força (SDD), Darcídio Perondi (PMDB-RS), Rubens Bueno (PPS-PR), Pauderney Avelino (DEM) e Mendonça Filho (DEM) foram vistos no protesto. Na opinião do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), a ida de Lula para o ministério fortalece o processo doimpeachment.
"A Dilma não tem condições de governar nada, nem pilotar um fogão. Ela delegou agora para o Lula a responsabilidade até de nomear ministro da Fazenda", avaliou Bolsonaro.
Quando parte dos manifestantes chegou ao Planalto, a presidenta ainda concedia entrevista a jornalistas na parte interna do prédio, na qual negou que haverá alterações em sua equipe econômica.
De acordo com a Polícia Militar, cerca de 1.500 manifestantes participavam do ato às 19h. Há pouco, um grupo de favoráveis ao governo também chegou na Praça dos Três Poderes.

A Crise no Governo Federal

A mais de um ano, o PT e o PMDB , vivem em uma crise interna, hoje 16 de Março de 2016, a Presidenta da Republica Dilma Roussef, nomeia o ex Presidente Luiz Inácio Lula, para assumir, a pasta de Ministro Chefe da Casa Civil, ai me vem a pergunta: Foi Blindagem por conta do processo do Mensalão? Foi para apaziguar a crise econômica, financeira e politica? Foi para discutir com o PMDB, o fim do Impeachment?

Dilma fala sobre nomeação de Lula como ministro

A presidente Dilma Rousseff conversou com jornalistas nesta tarde desta quarta-feira (16), no Palácio do Planalto, após nomear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ministro-chefe da Casa Civil. Lula vai substituir Jaques Wagner, que foi deslocado para a chefia de gabinete da Presidência.
Dilma destacou o compromisso de Lula com a estabilidade fiscal e afirmou que a experiência política de Lula foi fundamental para nomeá-lo ministro. "Compromisso de Lula com estabilidade fiscal é real, basta olhar a trajetória dele", disse a presidente.
A presidente disse que o fato de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumir o cargo de ministro-chefe da Casa Civil fortalece o governo e ele terá os poderes necessários para ajudar o país.
“A vinda do Lula fortalece o meu governo. Ele vem, ele vai ajudar. Então, o presidente Lula, no meu governo, terá os poderes necessários para nos ajudar, para ajudar o Brasil. Tudo que ele puder fazer para ajudar o Brasil será feito. Nós vamos olhar a questão da retomada do crescimento, da estabilidade fiscal e do controle da inflação”, disse em entrevista no Palácio do Planalto.
Segundo Dilma, o ex-presidente chega ao governo com grande capital político. “Ele é um hábil articulador. Ele me deixa muito confortável. Nós temos seis anos de trabalho cotidiano, durante a segunda fase do governo dele. Estou muito feliz com a vinda dele”, acrescentou.
A presidente disse que a ida de Lula para o ministério é algo bastante importante e relevante devido à sua experiência política. Ela ressaltou o conhecimento do ex-presidente sobre as necessidades do país, o seu “compromisso com políticas estratégicas, que é necessário ter para que a gente tenha um desenvolvimento mais continental”.
“Vai ser um grande ganho para o meu governo. O presidente Lula tem uma trajetória que reputo muito expressiva também pelo seu compromisso com a estabilidade fiscal e o controle da inflação. Compromisso que não é meramente retórico. Ele se expressa em sua atuação muito significativa ao longo dos oito anos de governo dele”, afirmou.
A presidente classificou ainda como "especulações" as possibilidades de alteração na equipe econômica e de utilização das reservas internacionais internamente. Segundo ela, o acúmulo das reservas foi conquistado a "duras penas" e "com grande esforço" em seu governo e no do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acrescentou que o assunto "jamais" entraria em pauta "a não ser" para resolver problemas de flutuações externas.
"Nós, ao longo desses 13, quase 14 anos, acumulamos reservas. Quando lula assumiu o governo, nossas reservas não davam para pagar os vencimentos e as dívidas. Continuamos firmes com nossas reservas", afirmou a presidenta.
Ao negar também a possibilidade de mudança na política econômica com a ida de Lula para o governo, Dilma reafirmou que o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, estão "mais dentro do que nunca do seu governo".
Dilma Rousseff garantiu que não há qualquer possibilidade de os ministros Nelson Barbosa e [Alexandre] Tombini deixarem o governo. A presidente também defendeu o "compromisso" de Lula com a estabilidade fiscal e o controle da inflação.

A polêmica sobre o petróleo brasileiro


História da Petrobrás - 
O conflito entre Monteiro Lobato e o general Horta Barbosa – na época, segunda metade da década de 30 do século passado, presidente do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) – marca a segunda batalha da luta pelo petróleo no Brasil.
É uma infelicidade histórica que esses dois grandes homens estivessem em campos opostos, logo assim que a descoberta de petróleo em Lobato – o nome deste arrabalde de Salvador, Bahia, nada tem a ver com Monteiro Lobato, sendo apenas uma coincidência – tornou concreta, imediata, a seguinte questão: quem deveria explorá-lo?
Monteiro Lobato se baseava na experiência norte-americana do século XIX. De certa forma, queria enfrentar os monopólios petrolíferos – a Esso, a Shell, etc. - com uma série de pequenas empresas nacionais, no momento em que, nos EUA e em todo mundo, a própria existência dessas grandes empresas demonstrava que a exploração por pequenas empresas já era coisa do passado - e não conseguiria assegurar o uso dessa riqueza natural pela Nação, tal como não conseguira em outros países, a começar pelos próprios Estados Unidos.
Além disso, como aponta o texto de Borba Tourinho, a amarga experiência anterior, em que o ministro responsável pelos negócios petrolíferos sabotara o esforço nacional para descobrir petróleo, marcara Lobato muito fundamente.
Porém, a amargura é má conselheira: Lobato estava errado – e Horta Barbosa, ao propugnar pela exploração estatal, estava certo.
A Petrobrás foi, alguns anos depois, a prova de que o general apontara corretamente a solução do problema. Só havia duas alternativas: ou entregar o nosso petróleo ao monopólio privado das multinacionais ou executar o monopólio estatal – isto é, a propriedade pública, operada por uma empresa do Estado, pertencente, portanto, ao povo e à Nação.
A segunda opção prevaleceu já antes da fundação da Petrobrás, quando o executor direto do controle público sobre o petróleo era, diretamente, o Conselho Nacional do Petróleo.
Portanto, leitor, o que Dilma agora quer fazer com o pré-sal é reverter uma batalha que os brasileiros ganharam há quase oitenta anos. Regredir oito décadas – e até mais - na História do Brasil é o máximo que o atual governo tem a oferecer ao país.
C.L.
 
BORBA TOURINHO
O jorro de Lobato não fez cessar a polêmica que se travava há anos sobre a existência ou não de petróleo no subsolo brasileiro. O óleo ali estava, para quem quisesse ver, brotando de uma região que, à luz da ciência geológica da época - segundo os técnicos - e por obra e graça da sabotagem - segundo Monteiro Lobato - não oferecia a menor possibilidade.
Ante a realidade trazida à tona pela pertinácia de Oscar Cordeiro, não havia por onde fugir. Agora, era meter mãos à obra e explorar mesmo o petróleo. Mas quem deveria explorá-lo: a iniciativa privada ou o Estado? Nasceu daí a outra fase da polêmica, tão apaixonada como a primeira e que ainda hoje ressuma quando se apreciam os resultados da política monopolista adotada pelo país, com a Lei n.°2.004, que criou a Petrobrás.
Manda a verdade que se diga que Monteiro Lobato foi também o paladino da campanha contra a monopolização, pelo Estado, das atividades petrolíferas, investindo com o mesmo ardor com que se lançou nas críticas ao Departamento Nacional da Produção Mineral, contra o novo órgão que se criava - o Conselho Nacional do Petróleo - não poupando, nas suas invectivas, homens que, pelos exemplos dados no passado, jamais poderiam ser acusados de estar a serviço dos trustes estrangeiros. Mas é que, pela experiência vivida com alguns técnicos do DNPM, na luta contra eles sustentada para levar avante os trabalhos da Companhia de Petróleo Nacional, da qual era diretor, Monteiro Lobato sofrera amargas decepções. Tanto assim que, em maio de 1940, em pleno Estado Novo, envia ao presidente Getúlio Vargas carta que se tornou famosa porque o levou à prisão, condenado que foi pelo Tribunal de Segurança.
Nesse documento, Lobato afirmava que “a opinião pública anda convencida de que é ideia secreta do governo monopolizar o petróleo”.
-Mas se é assim, por que não o faz ?” - perguntava, acrescentando:
O Estado Novo tem nas mãos todos os elementos necessários para isso. Agir, como está agindo, será tudo, menos honesto. Porque o que o Conselho está fazendo não passa disto:aniquilamento das companhias por inanição, para não ter de indenizar os acionistas.
O honesto, o decente, seria oficializar o petróleo e encampar as empresas, indenizando os acionistas. Esses acionistas, aos milhares, são gente do povo, que por mero idealismo empatou suas magras economias em ações de empresas que os capitalistas grossos refugam.”
E depois de mencionar essas empresas, entre as quais a Petróleo Nacional, de Alagoas, com um capital de 20 milhões de cruzeiros,“só em parte subscrito por alguns milhares de acionistas”, dizia Lobato:
“Para não restituir o dinheiro dessa pobre gente, o Conselho foge de adotar a encampação; prefere ir matando as empresas no garrote, uma por uma. Que adjetivo merece tal política?”
Lobato, no entanto, não é favorável à monopolização estatal. Contra ela se insurge, dizendo na aludida carta ao presidente Vargas:
“Outro aspecto do monopólio é a impossibilidade de o governo criar por esse meio a grande indústria de petróleo que o Brasil precisa. O senhor não ignora a incapacidade do estado no mundo inteiro para dirigir empresas industriais, incapacidade por demais evidente no Brasil. O Lloyd Brasileiro e a Central do Brasil são exemplos típicos e eternos. Perpétuas fontes de desastres, de desordem e déficits. A indústria do petróleo, oficializada pelo governo, viria fazer desse duo um trio, com tremendos gravames para o Tesouro e péssimo serviço para o público. Quem, em consciência, negará isso?”
Em sua carta, Monteiro Lobato, depois de insistir “na ineficiência e incompetência dos órgãos oficiais em matéria de petróleo”, propõe a substituição da “indecorosíssima Lei de Minas, toda ela tendente a embaraçar a exploração do subsolo, por uma Lei que venha fomentá-la” e substituir, também, a “Lei do Petróleo, que é pior que a de Minas, pois inventou novos embaraços esquecidos nesta”, e, na prática, fazer:
“1) Uma lei como a da Alemanha, subvencionando as companhias particulares por metro de poço perfurado. Imediatamente o público deduziria que o governo não é contrário ao petróleo e voltaria a ajudar as empresas existentes e as novas que surgissem;
“2) Uma lei sobre estudos geofísicos. O governo contrataria turmas de geofísicos para fazer estudos nos terrenos das empresas particulares, só mantendo a subvenção por metro para as que perfurassem nos pontos aconselhados pela geofísica. Procedendo assim, articularia, da maneira mais prática e eficiente, a ação pública, previsora, com a privada, realizadora.”
Para Monteiro Lobato, bastava isso, pois o “efeito desses dois passos seria fulminante. Restaurar-se-ia o movimento petrolífero que o Conselho matou”.
Mas a paixão de Monteiro Lobato não tem limites. Dizendo que o Conselho Nacional do Petróleo foi uma “desgraça” que desabou sobre nós, acusa-o de estar fazendo o jogo da “Standard Oil” com o decreto-lei 2.179 de 8 de julho de 1939, que fixa os impostos sobre os derivados de petróleo que venham a produzir-se no país. E apela pateticamente para o presidente Vargas, no sentido de que inverta a política do CNP, o que deve fazer depressa, pois “arrepender-se-á horrivelmente um dia - no dia em que deixar o Governo e verificar que foi iludido pelos lobos que se disfarçam sob a pele do carneiro ‘patriótico’”, acrescentando que “a nota do patriotismo vibra em todas as resoluções do Conselho - mas ninguém se ilude com ela” e que “tal patriotismo só interessa aos trustes internacionais.”
A carta de Lobato provocou reação imediata do presidente do CNP, general Horta Barbosa, que o denunciou ao Tribunal de Segurança, daí resultando para seu autor uma condenação que emocionou o país.
Mas quem era o general Horta Barbosa? Algum agente encapuçado dos trustes estrangeiros que tivesse posto o órgão sob sua direção a serviço dos interesses da “Standard Oil”?
É o passado desse ilustre brasileiro que nos responde, de forma negativa. Basta manusear o II volume dosDocumentos Parlamentares sobre o Petróleo, (Subsídios), editado pela Diretoria de Documentação e Publicidade da Câmara dos Deputados, para verificar-se que Horta Barbosa foi, sem a menor dúvida, um dos líderes da campanha pela exploração petrolífera e pioneiro do monopólio estatal.
Sua primeira manifestação oficial se exterioriza quando, a 30 de janeiro de 1936, na qualidade de Diretor de Engenharia do Exército, dirige um memorial ao ministro da Guerra, apresentando sugestões sobre combustíveis e lamenta as “tímidas explorações” feitas no Brasil para a obtenção do petróleo, ao mesmo tempo em que estranha:
A repartição especializada no assunto (Departamento Nacional da Produção Mineral) e alguns engenheiros apressam-se em proclamar a não existência do petróleo em nosso território. O Governo, a seu turno, e apesar das declarações de tais técnicos, tem autorizado o funcionamento de companhias que buscam o petróleo! Surge, então, a dúvida.
“Desconhecemos as razões dessas conclusões negativas, porém, o que o mais elementar raciocínio evidencia é que, sendo o facies geológico do Chaco Boreal inteiramente semelhante ao da região pantanosa do Estado de Mato Grosso (bacia paraguaia) e provada a existência do petróleo naquela zona, por que negar, a priori, que possuímos o dito combustível, se as nossas raias jamais poderiam influir na textura daquele trato subamericano?”
Propõe, então, o general Horta Barbosa ao ministro da Guerra que um técnico, munido de aparelhamento necessário, fique à disposição da Diretoria de Engenharia a fim de realizar pesquisas na zona balizada por Nioac-Faz. Jardim, Faz. Margarida, Faz. Independência e Porto Murtinho, onde, em reconhecimento efetuado pelo 4° Batalhão de Sapadores, foi revelada a existência, em certos pontos, de água com pronunciado gosto e cheiro de querosene.
“É preciso, entretanto - salienta - que fique bem patente que essa nossa proposta não se fundamenta em desconfiança sobre a eficiência de qualquer outra repartição ou autoridade. O Exército Nacional, em identidade de vistas com o Ministério da Agricultura, apenas visa, talvez, acelerar a solução desse problema, que, repetimos, é vital para a eficiência da defesa nacional; sem transporte não haverá ação militar oportuna, sobrem, embora, chefes ilustres, tropas adestradas.”
E depois de argumentar com os exemplos do exército francês nas colônias, “explorando a terra, organizando o comércio, fundando indústrias, etc” e “a exploração do ferro pelo Exército argentino, que mantém as minas e os alto-fornos de Andalgalá”, exorta o então Diretor de Engenharia:
Sem petróleo, repetimos mais uma vez, o nosso potencial militar é baixo; sem petróleo, assistimos, tristemente, à penetração constante, ininterrupta das Standard Oil, Dutch and Shell, Anglo Mexican, etc., pelos menores recantos de nossa pátria. Urge, pois, substituir todos esses nomes por nomes brasileiros. Cheios de fé nutrimos fundadas esperanças de que tal substituição ocorrerá tanto mais cedo quanto maior for a eficácia da cooperação do Exército nas pesquisas para localização das fontes daquele combustível.”
Ora, quem a 30 de janeiro de 1936, (três anos antes do jorro de Lobato, na Bahia) se manifesta de maneira tão categórica não pode ser acoimado de agente dos trustes.
Mas o general Horta Barbosa não parou aí. Foi além quando preconiza e passa a defender com ardor a tese do monopólio, pelo Estado, da pesquisa e industrialização do petróleo, lançando, deste modo, as bases do movimento de opinião pública que redundou na criação da PetrobrÁs.
Assim é que, ao regressar, em abril de 1939, de sua viagem ao Prata, o general Horta Barbosa apresenta ao presidente Vargas um relatório mostrando os resultados obtidos, no Uruguai, pela A.N.C.A.P. (Administración Nacional de Combustíbles Alcohol y Portland) e na Argentina, pela Y. P. F. (Yacimientos Petrolíferos Fiscales), ambas empresas estatais incumbidas da pesquisa e da indústria do petróleo, destacando, também, a luta por elas travada contra os trustes. Em seu relatório, o presidente do CNP faz, entre outras, as seguintes sugestões:
“b) concentrar no Conselho Nacional Petróleo, desde já, todas as atividades que se relacionam com os hidrocarburetos, dando execução integral ao Decreto-lei que o organizou e especialmente ao previsto no Art. 13;
(…)
“d) vantagens evidentes da indústria estatal da refinação, sob forma de monopólio, prevista já no Art. 13 do Decreto-lei n.° 538, assunto esse que já foi objeto de um Memorial do Conselho Federal do Comércio Exterior, devidamente informado a V. Ex. pelo Conselho Nacional de Petróleo;
“e) intensificar metódica e continuamente os serviços geológicos e geofísicos tendentes a determinar novos horizontes petrolíferos;
“f) dotar o CNP de verbas generosas para que possa atacar com intensidade o problema da determinação de campos petrolíferos e organizar a produção.”
Um ano depois - isto é, a 2-8-1940 - eis, novamente, o general Horta Barbosa em ofício ao general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, informando-o de que a Standard Oil Company of Brazil, em “memorandum confidencial” encaminhado ao governo, por intermédio de várias autoridades, oferecia uma solução para “realizar pesquisa de petróleo, perfuração de poços, extração do petróleo”, mediante a formação de uma companhia mista, constituída por capitais estrangeiros e nacionais, “aqueles montando a mais da metade do capital social, que tomaria a seu cargo a pesquisa, a perfuração de poços e a produção comercial do petróleo, custearia todas as despesas e concorreria com a sua experiência técnica, recebendo, em troca, do Governo brasileiro, uma percentagem do óleo cru que obtivesse.”
Horta Barbosa analisa exaustivamente a proposta da Standard, fulminando-a com as seguintes palavras:
“Inexequível do ponto de vista legal, não parece ademais, salvo melhor juízo, que o plano oferecido possa proporcionar qualquer interesse real, máxime depois que a Nação, de sua iniciativa e com recursos próprios, já pesquisou com sucesso algumas das áreas petrolíferas do País, comprovando a existência de campos oleíferos comercialmente exploráveis, e se prepara ativamente para passar à fase de produção e industrialização do petróleo cuja ocorrência verificou.
“Não seria demais assinalar que, enquanto a tendência de todas as nações soberanas é para o controle cada vez maior dos combustíveis líquidos pelo Estado, princípio em que se baseia toda a nossa legislação, pretende-se com o referido memorandum transferir a direção desse setor a uma empresa em que predominariam os capitais estrangeiros, e que em última análise seria o próprio truste representado pela Standard Oil e Royal Dutch Shell.
“A solução preconizada nada mais é do que a vigorante na Venezuela, onde as companhias, pelo predomínio dos combustíveis líquidos, exercem absoluto controle de toda a vida econômica da nação, fixando-lhe até a paridade da sua moeda com as demais.”
Um ano mais tarde, ou seja, 18-7-1941, o general Horta Barbosa, em ofício ao presidente Vargas, analisa a sugestão da “Standard Oil Company of Brasil”, condenando-a, mais uma vez, citando, a propósito, parecer do Estado Maior do Exército, que assim se pronunciou:
“O Brasil, para organização da legislação referente ao petróleo, pôde utilizar a experiência de outras nações sul-americanas, principalmente da Argentina e Uruguai. Por isso, as disposições legais vigentes entre nós têm um caráter preventivo de fundo essencialmente nacionalista. A orientação que adotamos tende a concentrar no Conselho Nacional do Petróleo todas as atividades que se relacionam com os hidrocarburetos e a criar a indústria estatal da refinação, sob a forma de monopólio, assim como a intensificar metódica e continuamente os serviços geológicos e geofísicos, para determinação de novos horizontes petrolíferos.
“A uniformidade de orientação na política do petróleo, nos países da América do Sul, é que tende a dar à lavra e exploração desse artigo um caráter francamentenacionalista, e, consequência do fato de ser universalmente reconhecida a significação do petróleo para a economia e segurança da nação.
“Ora, a solução indicada no memorandum leva a colocar na mão de uma organização financeira estrangeira (porque a companhia prevista teria de nacional apenas o rótulo) um dos elementos fundamentais de nossa economia e de nossa segurança.”
Prossegue, então, o general Horta Barbosa:
- “E, por via de consequência, chegou o mesmo elevado órgão às conclusões seguintes:
“a) - a solução indicada é ilegal, porque fere de frente a legislação em vigor (Código de Minas — Art. 6.°);
“b) - Para a sua adoção seria necessário, não somente modificar as disposições legais vigentes, como torcer o rumo da nossa política do petróleo, abandonando a orientação nacionalista que em boa hora adotamos e que está em harmonia com a das demais nações da América do Sul;
“c) - Entregaríamos a uma organização estrangeira um dos elementos fundamentais da nossa economia e da nossa segurança.”
A luva estava lançada. A tese do monopólio estatal, sustentada pelo general Horta Barbosa, conquistava um grande aliado: o Estado Maior do Exército. Agitava-se, agora, a opinião pública, não para discutir sobre a existência ou não do petróleo no subsolo brasileiro, mas, sim, sobre a sua exploração. Horta Barbosa não estava sozinho. Mas contra ele, ou melhor, contra a sua tese - a do monopólio - se levantavam outras vozes.