segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta do Ator e Presidente da Funarte, Antonio Grassi ao Movimento de Trabalhadores na Cultura

A luta por mais verbas para a cultura é de extrema importância. Deve ser uma luta de todos os artistas, produtores, técnicos, gestores, enfim, de toda a sociedade brasileira. Ao longo da minha vida, seja como artista, seja como homem público, sempre empunhei esta bandeira. Da mesma forma, mantive postura inflexível na defesa da liberdade, da democracia e dos movimentos populares.



É com tal espírito que a manifestação convocada por segmentos artísticos de São Paulo foi encarada por mim e pela Ministra Ana de Hollanda: os portões da Funarte foram mantidos abertos, a força policial não foi convocada e, desde o primeiro momento, nos declaramos dispostos ao diálogo.



Os principais pontos expressos no manifesto, como as PEC’s 150 e 236 e o Prêmio Teatro Brasileiro encontram-se em discussão no Congresso Nacional. É importante que o debate extrapole os limites dos artistas e fazedores de cultura e chegue aos mais amplos setores da sociedade. Protestos legítimos auxiliam neste processo.



Entretanto, quero ressaltar algumas atitudes que não parecem coadunar com o espírito da luta comum dos artistas brasileiros. Cerrar os portões da Funarte – com correntes e cadeados – ofende nossa história de luta pela liberdade. Impedir o acesso de servidores públicos – ou expulsá-los sob ameaça das dependências da Funarte – relembra momentos terríveis de nosso passado não muito distante. Impedir que artistas, escolhidos por processos públicos para ocupar as salas da Funarte, exerçam a sua profissão não é aceitável sob nenhum aspecto. Impedir o andamento de Editais que estão sendo julgados e que favorecerão a própria classe artística é atirar contra o próprio pé. São fatos que, ao invés de atrair simpatizantes para a causa da cultura, dividem e isolam os movimentos.



Reitero a ampla disposição para o diálogo com os movimentos populares, conforme orientação da Presidenta Dilma, da Ministra Ana de Hollanda, e de acordo com a minha própria história de vida. É o único caminho possível para que a Cultura Brasileira seja finalmente colocada no patamar que merece.



Antonio Grassi, ator e presidente da Fundação Nacional das Artes

Notícias / Nacional | 08:5401/08/2011 Congresso retoma trabalhos e líderes petistas defendem pauta positiva

O Congresso Nacional retoma os trabalhos legislativos nesta segunda-feira (1º) após o recesso parlamentar.

Na Câmara, o presidente da Casa, deputado Marco Maia (PT-RS), já adiantou que a ideia é tentar um acordo para votar os projetos de Código de Processo Civil, de Aeronáutica e Comercial.



No entanto, os trabalhos reiniciam com a pauta do plenário trancada por medidas provisórias (MPs) com prazo de tramitação vencido e que têm prioridade de votação.

O presidente da Câmara disse que também pretende colocar em votação neste segundo semestre a regulamentação da Emenda 29, que trata dos recursos para a saúde. Marco Maia ressaltou que vai assumir pessoalmente o compromisso de conversar com governadores e secretários de Saúde dos estados para viabilizar a regulamentação prevista na Emenda Constitucional 29.

Para o líder da bancada do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP), a expectativa é a de que seja definida uma pauta positiva para votação. "Entre os temas que destacamos estão a reforma política e a regulamentação da emenda 29, além de outras matérias importantes para serem apreciadas", disse.

Os temas de interesse do governo para serem apreciados no segundo semestre legislativo poderão ser definidos na próxima semana. O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), deverá ser reunir com a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para estabelecer as prioridades.

Vaccarezza prevê a votação de propostas importantes. Entre elas, o projeto sobre o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Programa Nacional de Acesso à Escola Técnica (Pronatec), e o que prevê um reajuste em 50% nos limites do Supersimples

O tempo dos líbios e o terrorismo dos EUA: um povo determinado a vencer

Obama despreza os valores democráticos. Os líbios, maciçamente unidos atrás de Kadafi, lançam sua mensagem a outras vítimas imperiais: não desistir

STEPHEN LENDMAN*

A 14 de julho, a matéria principal da DEBKAfile, agência de notícias ligada ao Mossad, era “Termina a guerra da Líbia. Obama faz de Moscou o mediador da paz”, e dizia:

“… a guerra na Líbia terminou virtualmente na quinta, 14 de julho, pela manhã, quando o presidente dos EUA, Barack Obama, ligou para o presidente russo, Dmitry Medvedev, para entregar a Moscou o papel de liderança nas negociações com Muammar Kadafi para terminar o conflito – com a condição única de que o governante líbio se demita em favor de um governo de transição”.

Mais, sobre a exigência de Obama, abaixo. Por enquanto, o bombardeio terrorista dos EUA à Líbia continua inabalável, apesar do comunicado do Gabinete do Secretário de Imprensa da Casa Branca, a 13 de julho, dizendo que Obama agradeceu “os esforços da Rússia para mediar uma solução política na Líbia, enfatizando que (Washington) está preparada para apoiar negociações que levem a uma transição democrática... tão logo (Kadafi) seja excluído”.

Na verdade, Obama despreza os valores democráticos tanto no exterior quanto em casa, noções intoleráveis que ele não aceita, nem a paz, travando, sem parar, múltiplas guerras imperiais. Na Líbia, além disso, a questão não é Kadafi. A questão é colonizar outro país, controlar seus recursos, saquear suas riquezas e explorar seu povo - o objetivo de sempre dos EUA.

A 15 de julho, Washington e cerca de 30 países europeus e do Oriente Médio reconheceram ilegalmente os líderes revoltosos como governo legítimo da Líbia – o assim chamado Conselho Nacional de Transição (CNT). Reunidos em Istambul (sem a China e a Rússia), o Grupo de Contato da Líbia emitiu uma declaração, dizendo:

“De agora em diante, e até que uma autoridade interina seja constituída, os participantes concordaram em tratar o CNT como a autoridade governamental legítima na Líbia”.

Foi acrescentado que Kadafi não tem mais legitimidade e deve deixar a Líbia com sua família.

Explicando o que é claramente ilegítimo, a secretária de Estado Clinton disse:

“Nós ainda temos de trabalhar vários aspectos legais (em outras palavras, evitá-los totalmente), mas esperamos que este passo no reconhecimento capacitará o CNT a ter acesso a fontes adicionais de financiamento”, incluindo US$ 30 bilhões dos acima de US$ 150 bilhões roubados da riqueza da Líbia, e, além disso, seus abundantes recursos em petróleo, gás e água, que têm um valor multiplicado por muito mais.

Ao mesmo tempo, a frustração cresce após quatro meses de impasse nas operações terrestres e aéreas. Como resultado, apesar de dizer que Kadafi deve sair, alguns parceiros da OTAN parecem dispostos a deixá-lo ficar, embora não com seu poder atual.

Kadafi, na verdade, promete nunca deixar a Líbia ou render-se aos insurgentes ou a OTAN. Em comunicado ouvido pelo rádio em 16 de julho, ele disse aos que o apoiam:

“Eles estão me pedindo para deixar o país. Isto é uma risada. Eu nunca vou deixar a terra dos meus ancestrais ou as pessoas que se sacrificaram por mim. Depois de termos dado nossos filhos como mártires, não podemos recuar ou nos render ou desistir ou nos mover um centímetro”.

Os líbios o apoiam esmagadoramente, mobilização registrada em imagens (e relatórios) que a grande mídia suprime, mas pode ser acessada através do seguinte link: http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=25630.
ttp://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=25630.

Ninguém os chamou. Ninguém exigiu apoio a Kadafi. Eles vieram por si próprios, o que geralmente acontece quando as nações são atacadas ilegalmente. As pessoas reúnem-se esmagadoramente atrás dos líderes contra os agressores estrangeiros. Os líbios conhecem Washington e a OTAN, não é Kadafi o seu inimigo.

Além disso, eles estão armados, prontos para defender seu país contra os invasores porque Kadafi forneceu dois milhões de armas a civis, mais do que suficiente para derrubá-lo, se quisessem. Mas eles não o fazem!

DEBKA também disse que:

“A partir de 9 de julho, fontes militares relataram que a OTAN interrompeu seus ataques aéreos contra alvos pró-governo em Trípoli e em outros lugares. A suspensão, embora não anunciada, foi, apesar disso, uma admissão de que 15 mil missões de vôo (na verdade 15.308 até 15 de julho) e 6.000 (na verdade 5.767 até 15 de julho) bombardeios de alvos de Kadafi fracassaram em atingir seu objetivo”.

De fato, o site da OTAN (http://www.aco.nato.int/page424201235. Aspx) afirma o seguinte:

9 de julho: 112 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 48 missões de ataque;

10 de julho: 139 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 54 missões de ataque;

11 de julho: 132 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 49 missões de ataque;

12 de julho: 127 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 35 missões de ataque;

13 de julho: Nenhum dado publicado. O padrão acima provavelmente continuou.

14 de julho: 132 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 48 missões de ataque.

15 de Julho: 115 voos de reconhecimento efetuados, incluindo 46 missões de ataque.

Informando de Trípoli em 17 de julho, Mahdi Nazemroaya, analista de Oriente Médio/Ásia Central, escreveu por e-mail que “a primeira noite foi muito ruim aqui. Eles bombardearam como loucos e tudo estava tremendo”.

Ele elaborou um artigo no Global Research, que pode ser acessado através do seguinte link: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=25658.

Classificando-a como uma noite de “blitzkrieg”, ele mencionou “grandes explosões... ouvidas à distância. Múltiplas áreas urbanas foram bombardeadas simultaneamente esta manhã”.

De acordo com testemunhas, cerca de 60 a 75 bombas acertaram Tajura (14 km a leste de Tripoli), área da cidade de Seraj. Continuando um padrão regular, alvos civis foram atingidos, incluindo áreas residenciais. A 16 de julho, a televisão estatal Líbia informou que a maioria das vítimas foram civis, sem citar números específicos.

Até agora, de fato, para cada combatente morto, 10 civis foram mortos como resultado de bombardeios sobre localidades não-militares, incluindo comunidades residenciais.

Durante a noite, perto das áreas bombardeadas, “foi como um terremoto. Grandes edifícios tão distantes como na rua Al-Fatah... estavam tremendo”.

A 16 de julho, no entanto, os ataques foram diferentes dos anteriores. O cheiro de queimado e “uma estranha fumaça tomou conta do ar” - e não foi embora. “Ele (o cheiro) ainda permaneceu na pele depois dos bombardeios... Os sons (e colunas de fumaça) eram diferentes”.

Depois dos bombardeios anteriores, a fumaça subia verticalmente “como um fogo, mas nesta noite ela era branca e horizontal.... e ficou sobre Trípoli”.

Uma explosão causou “uma enorme nuvem em forma de cogumelo, apontando para o possível uso de bombas (nucleares) contra bunkers”. Num raio de 15 km em torno dos alvos, “as pessoas experimentaram ardência nos olhos, dores lombares, dores de cabeça” inexplicados sintomas, não sentidos anteriormente.

Na semana passada, de fato, o procurador-geral da Líbia, Mohammed al-Zikri Mahjoubi, acusou o secretário geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, de crimes de guerra, dizendo que ele será criminalmente acusado de:

“Agressão deliberada contra civis inocentes, assassinato de crianças, bem como tentar derrubar o governo líbio... responsável por atacar pessoas desarmadas, matando 1.108 pessoas e ferindo outras 4.537 no bombardeio de Trípoli, outras cidades e aldeias”.

Ele também o acusou de tentar assassinar Kadafi.

A 14 de julho, Rasmussen tentou dois caminhos ao mesmo tempo, “encorajando todos os aliados que têm aeronaves à sua disposição a tomar parte na operação”, enquanto apelava para uma solução política pró-ocidental, que os líbios não aceitarão, nem devem aceitar.

Um comentário final.

Garantir o controle imperial é a questão, um objetivo que coloca os EUA em conflito com milhões de líbios, decididos a resistir e a vencer.

De fato, a estratégia de Washington pode ter saído pela culatra. A maioria dos líbios uniu-se atrás de Kadafi, junto com aliados regionais e outros, incluindo a China e a Rússia (devido a seus próprios interesses estratégicos), contra a exploradora “libertação” pelo Ocidente.

Embora nenhum fim para o conflito seja iminente, talvez desta vez o poder do povo possa triunfar. Se assim for, a mensagem para outras vítimas imperiais é não desistir. Lutando tempo suficiente para vencer, por vezes, conseguem. Talvez seja este o tempo para os líbios.

* Nascido em Boston, com graduação e MBA nas universidades de Harvard e Wharton, analista de pesquisas de marketing, empresário hoje aposentado, Stephen Lendman, desde 2005, aos 71 anos de idade, tem sido um dos mais penetrantes críticos da política e da economia dos EUA. Reside atualmente em Chicago.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A dominância financeira

Fonte Jornal Hora do Povo 08/07/2011

Estávamos, após ler o Relatório de Política Fiscal do Banco Central - e conhecer o relato da senadora Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM) sobre a justa preocupação manifestada pela presidente Dilma (“quando começaremos uma escala inversa, de diminuição das taxas de juros?”) - preparando um artigo sobre a hedionda sangria que o Brasil está sendo vítima por conta diretamente dos juros, o que está levando, também, a outras sangrias. Macbeth, depois de assassinar o rei Duncan, disse algo como “quem diria que o velho tinha tanto sangue...” - como a vítima da peça de Shakespeare, nosso país parece sempre ter mais sangue para ser tomado pelos vampiros externos e internos que constituem o chamado mercado financeiro, multinacionais, etc. Mas nada na vida é infinito, com exceção, de acordo com Einstein, talvez do universo – e, com certeza, da estupidez de certos indivíduos.

Nos 12 meses encerrados em maio, passou-se, em juros, para bancos e demais especuladores, a colossal, quase inimaginável quantia de R$ 219 bilhões e 768 milhões. Não se trata, bem entendido, de nenhuma “rolagem”, na qual se paga títulos com outros títulos. Não. Estamos falando de dinheiro – e dinheiro público, por conta das taxas estabelecidas pelo Banco Central.

Desde janeiro até maio, foram passados R$ 100 bilhões e 760 milhões – em cinco meses, portanto, ultrapassamos os R$ 100 bilhões de dinheiro do governo para os bancos. Um aumento de R$ 24 bilhões e 399 milhões em relação ao ano passado, quando, no mesmo período, o gasto com juros havia já atingido R$ 76 bilhões e 361 milhões.

Esses números estão no Relatório do BC.

Perante tal escândalo, o sr. Mantega diz que o problema são os “excessivos” gastos de custeio – isto é, as verbas para manter hospitais, universidades, etc., em suma, o atendimento à população. Ressalte-se que, no mesmo período, segundo a execução orçamentária do Tesouro, foram gastos com Saúde R$ 24 bilhões e 845 milhões, menos de 1/4 do que se gastou com juros, e, com Educação, R$ 13 bilhões e 740 milhões, portanto, sete vezes menos (cf. Senado Federal, Portal Orçamento/SIGA BRASIL).

Note-se que todos os investimentos orçamentários liberados (ou seja, efetivamente pagos) pelo governo federal nesse mesmo tempo montaram a apenas R$ 1 bilhão e 807 milhões – mais de 55 vezes menos do que o gasto com juros. Daqui, vê-se quão verdadeira é a teoria manteguiana de que o corte no custeio era para aumentar os investimentos...

Pareceria que nada mais pode exceder esse descalabro. Infelizmente, há mais. Os governos estaduais, nesses cinco meses, foram confiscados em R$ 17 bilhões e 611 milhões, incorporados ao famigerado “superávit primário” - a reserva para pagar juros. Apesar disso, esses governos pagaram R$ 22 bilhões e 263 milhões em juros.

O mesmo aconteceu com as Prefeituras: forneceram R$ 1 bilhão e 436 milhões para o “superávit primário”, e pagaram R$ 4 bilhões e 432 milhões em juros.

Que os defensores desse crime – perto do qual o de Macbeth parece obra humanística – postulem que o grande risco para o Brasil são os aumentos nos salários, é matéria que foge à discussão política ou ideológica propriamente dita. Mais adequadamente, é caso para o Código Penal.

Estávamos, então, preparando um artigo sobre tal assunto. As tabelas desta página foram compostas para esse trabalho. Porém, hoje em dia, no Brasil, a economia transformou-se numa guerra em várias, inúmeras frentes. Portanto, quando lemos o artigo desta página, de Amir Khair, publicado pela Agência Carta Maior, quase promovemos uma queima de fogos. Khair, economista que foi secretário de Finanças na primeira administração do PT na capital paulista, aborda o mesmo tema – e com a sua habitual clareza, recusando-se a transformar assuntos econômicos num volapuque, como fazem, em geral, aqueles que querem enganar o próximo.

C.L.





AMIR KKAIR


Se existe um problema grave na economia brasileira, ela se chama taxa de juros. Existem duas taxas de juros distintas no Brasil. A Selic, que é a taxa básica de juros definida pelo governo, e a taxa de juros cobrada pelos bancos aos seus clientes (empresas e pessoas).

A diferença entre elas é denominada de spread bancário, considerado o Brasil, em vários estudos internacionais, como tendo o spread mais elevado do mundo há muitos anos. É a principal fonte do lucro dos bancos, sem a interferência do governo, que têm os instrumentos legais para regular esses exageros, o que evidencia a gravidade do problema e sua subserviência ao mercado financeiro.

A Selic é a mais alta do mundo, também há vários anos. Assim, essas duas taxas apresentam a maior aberração e trava macroeconômica, que tem impedido que o Brasil avance na economia de forma saudável, pois as taxas de juros elevam em excesso as despesas do governo, das empresas e dos consumidores e, o que é mais grave, com o apoio da maioria dos economistas, que têm espaço na mídia, defendendo que as taxas de juros têm que ser elevadas para controlar a inflação.

Não é de se estranhar isso, pois a mídia depende de verbas publicitárias, que vêm do mercado financeiro e os bancos são importantes financiadores de políticos nas campanhas eleitorais, obtendo força nas decisões políticas de seus interesses. Eles têm equipes de economistas em seus quadros e de consultorias para defenderem posições que lhes interessam. O resultado é que são raras as oportunidades de expressão de posições divergentes em relação ao que poderia chamar de pensamento único na economia.

O fato é que o Brasil convive com essas taxas de juros, quando países de economia semelhante à nossa têm taxas muito inferiores e com inflação igual ou menor que a nossa.

A principal explicação para essas anomalias é a submissão do governo ao mercado financeiro. A presidente Dilma começou bem, dando a diretriz de redução da Selic até 2014, para 2%, excluída a inflação. É uma meta tímida e demorada, que não vai ajudar a resolver logo essa questão. A meta de 2% é elevada em relação aos níveis dos países emergentes que estão negativas em 0,5% atualmente. Sobre o spread o governo não se pronunciou determinando limites, tendo poder para isso.

O Brasil tem taxa básica de juros real de 6,8%, mais de quatro vezes (!) o segundo colocado em pior posição, que é o Chile com 1,5%. A média dos 40 países da amostra deu negativa de 0,9%.

A Selic é definida pelos diretores do Banco Central, em reuniões a cada seis semanas, no Comitê de Política Monetária (Copom). O Banco Central (BC) consulta semanalmente as instituições do mercado financeiro, divulgando-as no boletim Focus, para saber que estimativas fazem essas instituições sobre a inflação para o ano em curso, os próximos doze meses e para o ano seguinte.

Essas instituições informam a decisão que esperam seja tomada pelo Copom em relação à Selic nas próximas reuniões até o final do ano seguinte.

O Focus é apresentado pela mídia como sendo as previsões do mercado para a inflação, Selic, crescimento econômico, taxa de câmbio e produção industrial. Tem a finalidade de orientar as expectativas dos agentes econômicos. Mas orientar expectativas é de suma importância e, para isso, pressupõe a escolha de uma amostra representativa do mercado. No caso o mercado financeiro representa apenas 7% (!) do mercado, e tem interesse na elevação da Selic.

O problema é que a mídia divulga essas expectativas como sendo do mercado, e com isso acaba orientando os agentes econômicos (empresas e pessoas) em suas decisões sobre inflação, crescimento, etc.

Várias vezes o BC foi questionado por usar uma amostra não representativa das previsões do mercado, mas não mudou, o que é estranho e danoso. Faz o contrário do que é feito internacionalmente pelos bancos centrais e governos que se preocupam com a credibilidade e orientação adequada das expectativas dos agentes econômicos.

Fato mais grave é que o Copom acaba definindo a Selic, que é indicada pelo mercado financeiro em praticamente 100% das vezes, ou seja, só serve para referendar uma Selic elevada. Quanto mais elevada, melhor, pois sai daí parcela importante dos lucros obtidos com prejuízos equivalentes do único devedor da Selic, o governo federal. Esse prejuízo em última instância sai do bolso do contribuinte através dos tributos que paga.

Esse prejuízo atingiu nos últimos doze meses até maio, R$ 220 bilhões ou 5,7% do PIB, quando no mundo esse custo é de 1,8% do PIB. A perda de 3,9% do PIB (5,7 menos 1,8) é injustificável, pois é possível controlar a inflação nos demais países com taxas básicas de juros bem inferiores às aqui aplicadas.

Esse prejuízo será ainda maior até o final deste e do próximo ano, caso o Copom continue seguindo as previsões da Selic do mercado financeiro em suas reuniões. A dívida do setor público irá continuar subindo pelos juros crescentes e pelas injustificadas transferências por parte do Tesouro de novos R$ 55 bilhões ao BNDES. Esse valor foi obtido com a emissão de novos títulos que pagam juros Selic.

Assim, não sobram recursos para o governo expandir suas atividades nas áreas estratégicas da saúde, educação, assistência social, previdência, segurança pública, habitação, investimentos em equipamentos para a expansão dessas atividades e para a infraestrutura do País.

A gravidade dessa situação é que ela vem de longa data, e já foi pior, pois após o Plano Real, as despesas com juros atingiram a média de 8,6% do PIB no governo FHC (1995 a 2002) e de 6,2% no governo Lula (2003 a 2010). A média dos 16 anos (1995 a 2010) foi de 7,8% (!) Em valores atualizados pelo IPCA os juros atingiram nesses 16 anos R$ 3,7 trilhões (!) Caso não tivesse trilhado esse caminho suicida, o País seria outro, com situação fiscal equilibrada, e recursos suficientes para reduzir o elevado déficit social e de infraestrutura existente.

A consequência dessa política monetária, com a benção do governo, é que ele fica obrigado a obter resultados primários (receitas menos despesas, exclusive juros) elevados para pagar apenas parte dos juros, resultando em déficits fiscais, que obrigam a emitir mais títulos de dívida. É uma bola de neve crescente para as finanças públicas, que continuará a rolar ladeira abaixo caso não caia rapidamente a Selic.



AGRAVANTES DA SELIC COM A CRISE DE 2008

Com a crise de 2008, os países desenvolvidos emitiram vários trilhões de dólares, euros e ienes para socorrer seus bancos que estavam em situação falimentar e a maior parte dessas emissões com taxas de juros próximas a zero foram em busca de aplicações em outros países que ofertavam taxas de juros mais elevadas, e o Brasil é o preferido dessa dinheirama que vem para cá, lucrando e repatriando esses lucros, que saem do Tesouro Nacional, ou seja, dos contribuintes brasileiros que pagam tributos ao governo federal.

Assim, o BC dá de presente aos capitais internacionais quantias elevadas de recursos, que irão faltar para serem usados no País.

Existem outros danos causados pelo BC, pois é ele que detém as reservas internacionais em dólares do País, que já ultrapassaram a US$ 333 bilhões em maio e continuam subindo com velocidade. Essas reservas custam aos cofres públicos juros equivalentes à Selic e são aplicadas, especialmente, em títulos do Tesouro americano que não rendem praticamente nada e são penalizadas pela queda do dólar face ao real durante todo o período de existência das reservas.

Em 2010 o BC causou um rombo de R$ 50 bilhões com essa política suicida e, neste ano como as reservas cresceram muito mais do que em 2010, e a Selic média será mais elevada do que em 2010, estima-se que o rombo causado pelo carregamento dessas reservas poderá ultrapassar R$ 70 bilhões (!). Se continuar elevando essas reservas, sem reduzir a Selic no próximo ano, como prevê o mercado financeiro, esse rombo em 2012 poderá chegar a R$ 90 bilhões (!).

Mas os danos causados por essa Selic não param por aí. Como dissemos, a dinheirama espalhada pelo mundo pelos países desenvolvidos são atraídos para o Brasil devido à Selic elevada, sem correr riscos e podendo repatriar os lucros rapidamente (alta liquidez). O ganho desses capitais é ainda maior do que só com os juros. Em junho de 2010, cada dólar valia R$ 1,81 e agora R$ 1,55 (dia 4/7). Ganham, pois duplamente: nos juros e na valorização do real.

Com a valorização do real, que não para, as importações ficaram mais baratas e substituíram produtos fabricados no País, gerando desempregos aqui e criando empregos lá fora. Os consumidores saem ganhando nessa situação por terem mais escolhas nos produtos, que apresentam qualidade similar ao produzido aqui e com preços inferiores.

As exportações foram, também, prejudicadas, pois ficaram mais caros os produtos fabricados aqui no confronto com os produtos similares de outros países. Mas é importante considerar se o desemprego gerado não irá causar redução do consumo. Já criou rombos nas contas externas desde 2008.

Diante dessas realidades não resta ao governo alternativa se não enfrentar a dominância financeira, que vem travando o desenvolvimento econômico e social do País. Não se trata de problema técnico ou econômico, mas de decisão política e, para isso, é necessário afrontar os interesses impostos pelo mercado financeiro. O governo até agora não demonstrou disposição nesse sentido.