segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Diversidade cultural na posse de Dilma Rousseff


Sol e chuva, calor e frio se alternavam em Brasília, mas a alegria e a emoção dos visitantes do Arena Brasil permanecia inabalável na Esplanada dos Ministérios. Cerca de 30 mil pessoas circularam pela manhã e pela tarde no espaço idealizado pela Fundação Cultural Palmares, em parceria com o Ministério da Cultura, para celebrar a posse da Presidenta da República, Dilma Rousseff.



Constituída de quatro tendas, representando as quatro macrorregiões brasileiras, a primeira edição do Arena Brasil reuniu artesanato, música e dança de todos os cantos do País - aliás, pessoas de todos os cantos do País. Braz Augusto de Menezes, por exemplo, veio de Barretos, São Paulo, para conferir a festa cívico-cultural. Enquanto não acontecia a passagem da faixa, o paulista curtia as apresentações musicais. "Está sendo uma festa maravilhosa, que faz jus à grandiosidade do momento", disse.



Já o vendedor ambulante Raimundo João, com seus dois nomes próprios, seus olhos azuis e seus 73 anos, veio da Paraíba há 33 anos e não voltou mais. No Arena Brasil, vendia bandeiras e faixas em homenagem à Presidenta, mas disse que viria de qualquer maneira, afinal, "é um momento muito importante, né?".



O presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, também participou das comemorações e fez questão de transitar por todas as tendas, conferindo as apresentações do dia. "Hoje é dia de celebração da diversidade cultural e de gênero, além, evidentemente, da cultura afro-brasileira", ressaltou.



SUDESTE - Mesmo com toda a diversidade, o Brasil, com suas dimensões continentais, consegue apresentar semelhanças, como explica a artesã Onilde Conrada, da tenda Sudeste: "O artesanato é muito parecido em todas as regiões do País. O que muda, muitas vezes, é o material". Sua parceira de vendas, Maria Joana, acrescenta: "Todas as regiões têm algo em comum, estão interligadas". Os ritmos são muitos e o País é plural, de modo que já não dá pra dizer o que é de onde.



O rap, por exemplo, com sua batida marcada e suas rimas enérgicas, característico de São Paulo e do Rio de Janeiro, foi apresentado pelo grupo Brô MC's, da reserva indígena Jaguapiru, de Mato Grosso do Sul. O Arena Brasil prova que, de uma ponta a outra, o que interliga os Brasis é a arte e suas muitas manifestações.



NORTE - Reconhecida internacionalmente pela Amazônia, a região Norte chamou a atenção no Arena Brasil pela alegria de sua plateia. As cores dos figurinos, as grandes saias rodadas e os ritmos marcados podiam ser vistos e ouvidos de longe. Representantes da tribo indígena Tuxauas, da reserva Raposa Serra do Sol, de Roraima, apresentaram danças tradicionais Macuxi. "É muito bom estar aqui hoje, valorizar a nossa cultura e tudo que nosso povo sabe", disse Mestre Jaci, após sua apresentação.



SUL - Roupas, acessórios e maquiagem que lembram países europeus, mas que são bem brasileiros. Só pode ser a região Sul, que trouxe para Brasília o grupo folclórico Ucraniano-Brasileiro Vesselka e seu lúdico balé, que deixou muito brasiliense confuso. "Entrei aqui e falei: daonde é isso" Lembrei que a Região Sul é quase um País diferente, mas gostei de ver, é muito curioso", disse Regina Magalhães, nascida em Brasília, e que nunca visitou a região, mas, depois da apresentação, tem ainda mais vontade de conhecer. É o Arena Brasil apresentando o Brasil aos brasileiros.



NORDESTE - Forró, frevo e quadrilha: a animação da região Nordeste transbordava de sua tenda, colocando até o presidente Zulu Araújo para dançar. O diretor da Palmares, Elísio Lopes Jr, também não foi poupado, sendo puxado pela própria apresentadora das atrações do espaço. Casais se formavam a cada minuto, e quem entrava na tenda automaticamente começava a "balançar o esqueleto".



"O Brasil inteiro está na Esplanada hoje. Me sinto de volta à minha terra", afirmou o pernambucano João Guimarães, enquanto simulava dançar forró sozinho assim que entrou na tenda, demonstrando que diminuir a saudade da terra natal é um dos resultados do Projeto Arena Brasil.



INFANTIL - Mas os pequenos não poderiam ficar de fora da festa e contaram com uma programação toda especial. A apresentação dos bonecos do Mamulengo sem Fronteiras hipnotizou crianças e adultos, que depois dançaram e cantaram com bonecos gigantes e os pernas de pau do grupo Mamãe Taguá - ambos do Distrito Federal. Tímidas no começo, as crianças participaram das brincadeiras propostas e se encantaram com as histórias, as máscaras e os figurinos caprichados. Ana Luiza Batista, mãe de Jéssica, de 7 anos, ficou satisfeita com a programação infantil: "São histórias e brincadeiras nossas, brasileiras, que valorizam nosso povo. Nossas crianças precisam ter mais acesso a isso".



CIRANDA - Parecia uma grande brincadeira de criança, mas era a prova concreta da união do nosso povo. A consagrada cantora Lia de Itamaracá puxou uma ciranda que reuniu artistas do bumba-meu-boi, passando pelo frevo, até o samba pisado. Cirandas dentro de cirandas. Brasileiros de todas as regiões do País cantavam e dançavam de mãos dadas, unidos em suas diferenças, como apenas o Brasil sabe ser.



Bandeiras, cores, bonecos, pernas de pau, índios, brancos, negros... O Brasil dançou uma grande ciranda no centro da Arena Brasil. "Minha ciranda não é minha, é de todos nós", cantava Lia de Itamaracá, que ouvia de volta: "é de todos nós", enquanto os pés marcavam a batida dos tambores.



Após duas animadas cirandas, eis que surge a mais brasileira das canções: o Hino Nacional, interpretado também como ciranda. As mãos dadas, os passos marcados, sorrisos largos e a multidão cantando em uníssono. Haja cores, culturas, misturas. No primeiro dia do ano, no dia da posse da primeira Presidenta da República, nada mais justo que celebrar a cultura plural deste povo trabalhador, alegre e criativo.


E viva o povo brasileiro!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

UMA REFLEXÃO

Saudações!!
Peço a benção aos meus mais velhos e também aos meus mais novos...sou membro dessa rede a muito tempo...recebo vários artigos que acho interessante a discussão mas..sempre observo.
Venho neste momento em que mais..um ano está se acabando...e..um...novo está vindo..novo esse que vem com grandes desafios para nós que somo do axé, para nós que somos lideranças espirituais, para nós que durante anos e anos, lutamos por 3 palavras e..é..com essas 3 que início a reflexão.
1- TOLERÂNCIA : Disposição de admitir, nos outros, modos de pensar, de agir e de sentir diferentes dos nossos: na vida social, a virtude mais útil é a tolerância. Favor feito a alguém em determinada circunstância: isto não é um direito, é uma tolerância.
Com esse ponto, quero deixar: O que adianta lutarmos por tolerância se internamente somos intolerantes..ao ponto de não nos respeitarmos..enquanto fazemos isso internamente...de Pai..falar mal de Mãe..de Mãe falar mal de Pai...de Ogã..não respeitar..de ekedji..não respeitar ninguém..de mais..velhos não respeitarem os mais novos..( esquecendo que tod@s já fomos nov@s) isso incluo todas as nações..PENSEM!!

2 - RESPEITO: Sentimento que leva a tratar alguém ou alguma coisa com grande atenção, profunda diferencia, consideração,reverência, respeito filial. Obediência, acatamento, submissão: respeito as leis.
Esse Ponto deixo a reflexão:
Quando entramos na vida do axé...aprendemos tudo isso..através dos ensinamentos dos nossos orixás, voduns, inkisses e caboclos. PENSEM!!

3- HUMILDADE: Ausência completa do orgulho. Rebaixamento voluntário por um sentimento de fraqueza ou respeito: praticar a humildade.
Esse último ponto falo:
Depois que aprendemos a respeitar..os nossos Orixás, Voduns, Inkisses e Caboclos nos ensinam a sermos HUMILDES, pois o que adianta se ter anos e anos de iniciação se não se tem a HUMILDADE.]
Hoje sofremos com ataques tanto da Igreja "Católica" como a "Protestante" e não fazemos nada..sabem por que meus/minhas irmão / irmãs. Por que não somos UNIDOS.
PENSEM!!
Escrevo este não como uma forma de desabafo..
Mas..pedindo ao Orixá que vai reinar o ano de 2011..que ponha isso na nossa cabeça ( e eu..estou incluído)
Que o ano de 2011..seja de muito AXÉ!!

LIÇÃO DE EXU

Em um Dia agitado em Todo Mundo Exu Rondava a Visitar os Seus Filhos Que Haviam se esquecido dos Aliados do Plano Espiritual Quando se deparou Com uma Situação Muito Interessante, era um filho Seu que Não Havia Esquecido o Pai, Porém Estava Revoltado e Decidido a Blasfemar o quanto Pudesse a quem um Dia o ajudara Tanto. Esse filho estava Tão Revoltado que Gritava aos Quatro Cantos e Exu Decidiu Parar Ali e Ver o Que Pensava Sobre ele Aquele Filho Revoltado Que Não Parava de Gritar:



-Foi Exu, é Tudo Culpa Daquele Demonio dos Infernos. Eu o Servi Por Muitos Anos Como um escravo e Veja Hoje a Minha Situação, Não Tenho Familia, Dinheiro, Amigos e Nem Mesmo um Teto Para Morar. Não Caiam na Tentação do Demonio Ele Lhes Prometera Muitas Coisas Mais no Final Nada Fará Por Vocês...

Ele Continuou Durante Horas a Blasfemar Quem Tanto o Ajudara Num Passado Recente e Só Parou Quando Viu a Magestosa Figura do Guardião das Encruzas a Sua Frente Indagando-o:

-Por Que essa Revolta Homem?

-Porque fez isso comigo? Para que me Deixar Chegar a esse Ponto?_respondeu Com Outra Indagação o Homem_



E Exu explicou:

-Não Fui Eu Que o Deixei Chegar a esse Ponto, você é Que se Jogou Nessa Lama Onde Hoje se Encontra! Lembra-se que Errou Querendo Fazer Furtuna Com um Dom que Lhe foi Concedido Para Auxiliar ao Proximo, Lembra-se que Nada Além da Paz e Satsfação Espiritual Foi Prometido a Você, e que Também Eu Lhe Disse que a Estabilidade Material Só Viria Após a Maturidade Espiritual.

-Sim Sei que Errei, Mas Sei Também que Vós Errou Junto a Mim Pois Quando Eu Lhe Enviava Algum Pensamento ou Pedido de Ma Fé o Senhor Não Me Dizia se eu Estava Certo ou Errado!_Respondeu o Homem em Prantos_



E Exu Após Uma Gargalhada Retrucou:

-Eu Nunca Lhe Disse se Estava Certo ou Errado Por Que Não Existe Certo ou Errado, Bom ou Ruim, Existe Apenas Aquilo que é Justo. Eu Sou Exu e Trabalho Em Harmonia Com o Universo, Eu Não Sou Bom e Não Sou Ruim, Não Sou Certo e Nem Tampouco Errado, Sou Apenas Justo. Você Fez Muito Mal a Muitos que o Procuraram Buscando Auxilio e Por Isso se encontra Assim Hoje Pois Não Procurou a Paz de Espirito, Apenas Visou a Abonança Material que Como Eu Ja o Havia Alertado Só Viria Após Uma Maturidade Espiritual, que Por Sua Vez Dependia de Sua Paz de Espirito que Só Viria Com a Cariade e Compaixão ao Proximo. Você Sabia De Tudo Isso, Porém Preferiu Seguir um Caminho Mais Longo e Doloroso. Eu Não Interferi em Nenhum Moento Pois se Assim Fizesse Estaria Influindo no Seu Livre Arbitrio.

-Tudo Bem Agora Compreendo que Para Estar Bem é Preciso Querer Bem a Todos a Nossa Volta e Não Somente o Nosso, Mas Agora que Entendi Por Favor Ajude-me, Esteja Ao Meu Lado e Reerga-me Com Todo Seu Axé?!_Implorou o Homem Ja Caido ao Chão Sem Forças Após Tanto Chorar_



E Exu Com Uma Nova Gargalhada Exclamou:



-Nunca Deixei de Estar ao Teu Lado, Nunca Lhe Neguei a Mão Você Foi quem Virou-me as Costas e Desistiu de Viver. Para se Reerguer Basta se Levantar e Continuar Sua Jornada Honestamente, e se Assim O Fizer Sempre que Precisar Eu Serei Justo e o Ajudarei, Porém se Novamente Errar Novamente Serei Justo e o Punirei.

EXU, O Justo Guardião das Encruzas

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por que o professor Paul Krugman defende a bandeira do Tio Sam

O economista Paul Krugman, que em suas colunas no New York Times normalmente rebate a defesa de Wall Street, concilia ao “culpar o estrangeiro” por tentar se salvar, ao invés do sistema e seus interesses corporativos, argumenta Michael Hudson no artigo que começamos a publicar hoje

MICHAEL HUDSON *

Eis o dilema no qual a economia dos EUA se encontra: a política do Fed de alívio quantitativo [Quantitative Easing (QE2): a emissão de mais US$ 600 bilhões] – criando mais liquidez de forma que os bancos possam emprestar mais – busca ajudar a economia a “tomar emprestado sua saída da dívida”. Porém os bancos não estão emprestando mais, pela simples razão de que um terço dos imóveis dos EUA já se encontram hipotecados, enquanto os negócios pequenos e médios (que criaram a maior parte dos empregos nas últimas décadas) têm visto suas garantias preferenciais (imóveis e duplicatas) encolherem. Como se pode esperar que os bancos emprestem mais para reinflar os preços dos ativos da economia enquanto os salários e os preços ao consumidor continuam a cair? A economia “real” como um todo, portanto, deve encolher.
O que tornou a discussão sobre a política do Fed tão importante na última semana foi uma série de debates entre republicanos e democratas. A situação em deterioração levou um grupo de estrategistas políticos e econômicos republicanos a publicarem uma carta aberta ao presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, criticando a política do Alívio Quantitativo, inundando a economia com liquidez que transborda para os mercados de câmbio estrangeiros, para empurrar a taxa de câmbio do dólar para baixo. Não deixa de ser uma crítica. Mas que apenas arranha a superfície.
Vem Paul Krugman, um dos mais progressistas defensores da política do Partido Democrata. Suas colunas no New York Times normalmente rebatem a defesa de Wall Street e dos interesses corporativos pelos republicanos. Porém, ele concilia ao bater na China. “Culpar o estrangeiro”, ao invés do sistema, é normalmente uma resposta direitista, e ainda assim Krugman acusa a China simplesmente porque ela tenta se salvar, evitando tornar-se vítima das políticas de Wall Street, que ele normalmente critica quando a presa é o trabalhador. Ao culpar a China, ele não apenas deixa o Conselho do Federal Reserve e sua configuração pró-Wall Street aliviados, como acusa virtualmente todo mundo que se confrontou, duas semanas atrás, como uma frente unida em Seul, com o nacionalismo financeiro de Obama, quando ele e sua entourage receberam um quase unânime tapa na cara nos encontros do Grupo dos 20.
Tristemente, a coluna de Krugman “Eixo da Depressão”, na sexta-feira, 19 de novembro, mostrou a extensão de suas soluções preferidas: não vão além de um remendo marginalista. Seu artigo endossa a tentativa do Fed, através do alívio quantitativo, de reinflar a bolha imobliliária, ao inundar os mercados com créditos suficientes às mais baixas taxas de juros. Ele credita ao Fed a busca por “criar empregos”, não simplesmente socorrer bancos e manter as hipotecas sobre as propriedades em condição devedora.
A realidade é que reinflar os preços dos imóveis não vai facilitar a vida dos que vivem de salários e dos mutuários que fazem equilibrismos para viver. Baixar os juros vai reinflar os preços dos imóveis (“criação de riqueza” no estilo Alan Greenspan), elevando o grau de endividamento a que os novos mutuários precisam incorrer para adquirir suas casas. E quanto mais se paga pelo financiamento, menos sobra para gastar com mercadorias e serviços (a economia “real”). O emprego vai encolher em uma espiral financeira de austeridade.
Infelizmente, a maioria dos economistas estão sob lavagem cerebral, submetidos à trivialização da fórmula MV=PT. A ideia é que mais dinheiro (M) aumenta os “preços” (P) – supõe-se que os preços dos bens de consumo e os salários. (Pode-se ignorar a velocidade (V), que é meramente um resíduo tautológico.) (T) são as “transações”, e, quando se refere ao PIB, passa a ser (O) [para Output – Produção].
Ocorre que em torno de 99,9% do dinheiro e do crédito não é gasto em produtos de consumo (o “T” da equação MV = PT). Todos os dias um PIB inteiro passa pela Caixa de Compensações de Nova Iorque e pelo Câmbio Mercantil de Chicago, através de empréstimos bancários, ações e títulos, pacotes de hipotecas, derivativos e outros ativos financeiros e apostas. De forma que o efeito do alívio quantitativo do Fed (inflação monetária) é inflar os preços dos ativos, não os preços dos produtos de consumo e de outras mercadorias.
Esta é a dinâmica central do capitalismo financeiro de hoje. Ele sobrecarrega as economias com dívidas – e quando o serviço da dívida ultrapassa o saldo com o qual ela é paga, o Banco Central tenta “inflá-lo a escapatória da dívida”, criando novo crédito (“dinheiro”) para valorizar os imóveis, ações e títulos – o suficiente para que os devedores possam tomar emprestado o valor que devem. Este é o deus ex machina, o influxo externo de crédito para permitir que as economias financeirizadas operem seus esquemas Ponzi [pirâmides financeiras]. A dinâmica é encorajada pela taxação dos ganhos (“capital”) especulativos a um índice mais baixo do que os salários e os lucros. Então, por que os investidores deveriam financiar investimento em capital palpável, quando eles podem surfar na onda da inflação dos preços de ativos? A Bolha Econômica se torna uma “criação de riqueza” especulativa.
Isso poderá funcionar? Por quanto tempo crédulos investidores irão apostar em esquemas de pirâmide que crescem a uma taxa exponencialmente impossível, desfrutando da fictícia “criação de riqueza”, ao mesmo tempo que os banqueiros sobrecarregam a economia com dívidas? Por quanto tempo as pessoas pensarão que a economia está realmente crescendo quando os bancos emprestam para uma economia supervisionada por desregulamentadores ideológicos das agências?
O ideal dos banqueiros é o superavit completo, além e acima da capacidade de subsistência, a ser pago na forma de juros e tarifas – toda a renda pessoal disponível, o fluxo de caixa das corporações e a renda dos imóveis. Portanto, quando a QE do Fed rebaixa as taxas de juros das hipotecas, isso vai permitir que os donos de casas paguem menos – ou simplesmente vai elevar a taxa de capitalização do valor dos aluguéis?
A história de cobertura do Fed é que a QE beneficia os mutuários ao reduzir a dívida que eles devem arcar. Porém, se isso fosse verdade, seu ganho seria a perda dos bancos – e os banqueiros são os que, principalmente, constituem o Fed. Para o Federal Reserve, o “problema” econômico é que os preços das moradias em queda (quer dizer, mais acessíveis) estão matando os balanços dos bancos. Portanto o real objetivo do Fed é reinflar a bolha imobiliária (enquanto estimula, também, se puder, uma bolha no mercado de ações).
Uma coluna de Andy Kessler no Wall Street Journal (também publicada na sexta, 19 de novembro, data da coluna de Krugman no The New York Times) apontou para isso – mas também reconheceu que o Fed iria criar um desastre em relações públicas se viesse explicar que sua motivação para o QE2 era reverter a queda nos preços das propriedades. “Bernanke criaria um pânico se declarasse de forma pública que se não fosse por seu pó mágico de dólares os imóveis cairiam em um despenhadeiro”, e se admitisse que os balanços dos bancos ainda sofrem com “hipotecas e derivativos tóxicos”. Mas o grau de informação sobre a solvência bancária é amplamente fictício e se reflete no fato de que o valor do Bank of America (que comprou o Countrywide Finance) para o mercado de ações é somente metade do informado em seus livros, enquanto que o do Citibank está descontado em 20%.
A execução é, claro, ruim para os mutuários, mas é até pior para os bancos, porque o valor da pirâmide financeira de crédito, erigida na última década, torna-se lixo hipotecário. O problema com a análise de Krugman é que ele presume que a QE – cuja intenção é reinflar a bolha imobiliária – é boa para o emprego e até para a renovação da competitividade dos EUA, e não sua antítese. Ao focar somente no comércio e no trabalho, ele conclui que o dólar está se enfraquecendo apenas por causa do deficit comercial, não por conta das despesas militares e do vôo de capitais [para o exterior]. E ele assume que reinflar a bolha imobiliária – o objetivo explícito do Fed – fará as exportações dos EUA mais competitivas ao invés de menos! Da forma mais séria, ele assegura em sua coluna de 19 de novembro que “a razão central do ataque ao Fed é o auto-interesse, puro e simples. A China e a Alemanha querem que a América siga não competitiva”.
Não é isso que tem sido dito a mim na China e na Alemanha. Eles simplesmente querem evitar uma instabilidade que perturbe seu comércio e sua produção interna, e evitar perdas em suas reservas internacionais, que mantiveram (principalmente após o efeito de inércia das I e II Guerras Mundiais, quando os Estados Unidos aumentaram sua participação no ouro de todo o mundo em 80%, em 1950). O Tesouro dos EUA gostaria que os bancos dos EUA e os especuladores ganhassem US$ 500 bilhões fáceis, às expensas do Banco Central da China, pelo deslizamento especulativo da moeda do comércio. O Fed gostaria de ver a economia dos EUA renascer pela pilhagem das demais economias.
Isso não vai acontecer. O decadente padrão dólar das finanças internacionais está sendo ferido à velocidade em que as outras moedas se tornam capazes de substituir o dólar por trocas de moedas entre eles, liderados pelos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). A África do Sul acaba de se juntar a estes países na qualidade de um quinto membro. Especialistas em petróleo da Nigéria, Venezuela e Irã se associam numa tentativa de tornar o sistema monetário internacional menos injusto e menos espoliador. O colega de Prêmio Nobel de Krugman, Joseph Stiglitz, destacou (parece que ironicamente, também em artigo no Wall Street Journal): “Aquele dinheiro era previsto para a reignição da economia americana, mas, ao invés disso, circula o mundo em busca de economias que atualmente parecem estar indo bem, e causam destruição nelas”.
O Fed e o Congresso têm dito à China para revalorizar sua moeda, o renminbi, acima em 20%. Isto obrigaria o governo chinês e seu banco central a absorver uma perda de meio trilhão de dólares sobre os US$ 2,6 trilhões de reservas que acumulou. Estas reservas não são resultado simplesmente das exportações, muito menos de exportações para os Estados Unidos. Elas provêm do vôo de capital realizado por administradores financeiros dos EUA, analistas de Wall Street, especuladores internacionais e outros interessados em comprar ativos chineses. E também resultam dos gastos militares dos EUA em bases asiáticas e em outras regiões – dólares que os países recebem e gastam na China.
Autoridades chinesas tentaram deixar claro que sua objeção é à política norte-americana de criar o “crédito de teclado eletrônico” de 0,25% para comprar ativos rentáveis no exterior (e quase qualquer ativo no exterior é mais rentável). O Grupo dos 20 em Seul, na semana passada, acusou os Estados Unidos de depreciação competitiva de moeda e agressão financeira, e os países avançaram em tentativas de afastarem-se do dólar e de fato evitar a fuga de superávits financeiros e de pagamentos.
O resultado é que não há jeito dos Estados Unidos defenderem a depreciação do dólar em termos que obriguem outros países a assumirem perdas em suas posses. Investidores pelo mundo afora perderam a fé no dólar e outros papéis-moedas e estão se movendo em direção ao ouro ou simplesmente guardando suas economias. Durante o ano passado – desde os encontros dos BRICs em Yekaterinburg, Rússia, verão de 2009 – suas respostas têm sido evitar usar o dólar para se protegerem do vôo agressivo de capital dos EUA, que busca invadir os bancos centrais, comprar suas economias, matéria-prima e ativos com “crédito de papel” e de fato elevar os gastos militares.
Ao invés de apoiar essa tentativa dos países – um movimento que tem a consequência positiva para a paz mundial de limitar o aventureirismo militar dos EUA (assim como a Guerra do Vietnã finalmente forçou o dólar a se descolar do ouro em 1971), Krugman está usando a crise para atacar a China – como se o seu sucesso fosse o que está prejudicando o trabalho nos EUA, não a política pós-industrial pró-financeira, que inflou a bolha imobiliária, privatizou a saúde sem uma opção pública – e sem mesmo um desconto para compras a granel de medicamentos pelo governo dos EUA – e o fracasso em contabilizar as hipotecas e outras dívidas bancárias para verificar a condição de pagamento dos bancos.
Hoje, bater na China é muito parecido com os anteriores ataques ao Japão e outros países asiáticos no final dos anos 80, demonizando economias bem sucedidas por haverem evitado práticas predatórias que corroeram a indústria norte-americana, financializando e pós-industrializando a sua economia. A pirâmide da dívida dos EUA, que ocorreu desde 1980, se tornou uma guerra de classes que tem pouca justificativa econômica. Portanto, culpar os estrangeiros – por enriquecerem exatamente da mesma forma que os Estados Unidos fizeram desde que o Norte venceu a Guerra Civil em 1865 – simplesmente oferece cobertura política para um status quo que não funciona.
* Michael Hudson foi economista em Wall Street e hoje é professor e pesquisador na Universidade de Missouri e autor de vários livros entre eles “Estratégia Econômica do Império Americano”.

Pronunciamento do Ministro da Cultura, Juca Ferreira,

Olá minha gente de todo o Brasil.

A cultura brasileira está vivendo um dos seus melhores momentos, graças a disposição do presidente Lula em encarar a cultura como estratégica para o desenvolvimento do nosso país.

Avançamos, e muito, na construção de uma nova política cultural. Nunca houve tantos recursos para se fazer arte e cultura neste país, e nunca o Brasil foi tão admirado internacionalmente. Nossa cultura é o nosso grande diferencial.

É com muita alegria que podemos comemorar o Plano Nacional de Cultura, já aprovado pelo congresso nacional e que está sendo sancionado pelo presidente da República.

Construído por milhares de brasileiros, este plano é um guia para orientar políticas e investimentos em cultura pelos próximos 10 anos. É um instrumento que articula os governos, federal, estaduais e municipais para que, junto com a sociedade e produtores culturais, atuem pelo desenvolvimento da cultura.

É importante registrar o apoio do parlamento, que contribuiu para a elaboração e aprovação deste plano.

O plano nacional de cultura dialoga com uma extensa e fundamental agenda em andamento no Congresso. Chamo a atenção para o novo modelo de financiamento da cultura (o Procultura), para a importância do Fundo Social do Pré-Sal. Destaco também o Vale-Cultura, que vai possibilitar, com a adesão dos empregadores, que até 12 milhões de trabalhadores possam ter acesso a teatros e cinemas, comprar livros, cds e outros bens culturais que escolherem.

Estas iniciativas dão ao Brasil a oportunidade de tornar-se um país à altura de sua exuberante diversidade cultural, oferecendo mais oportunidade para quem quer produzir, fortalecendo a economia da cultura no Brasil e garantindo o direito de cada cidadão deste país de ter acesso pleno aos bens culturais.

Estamos zerando o número de municípios sem biblioteca e acabamos de assinar uma portaria determinando que, de agora em diante, só podem receber recursos do ministério da cultura os municípios que mantiverem as suas bibliotecas em pleno funcionamento.

Hoje estamos entregando a 40 brasileiros a ordem do mérito cultural, destacando indivíduos e entidades que contribuíram de forma relevante para o país, além de prestar uma homenagem especial à Darcy Ribeiro, um dos grandes ícones da nossa cultura.

Quero parabenizar a todos os artistas, produtores e trabalhadores culturais que fazem o nosso Brasil bem mais democrático, plural e mais criativo.

Todos pela Cultura para todos

Muito obrigado.

LULA OUVE MANIFESTAÇÃO A FAVOR DE JUCA FERREIRA

“É pena que a companheira Dilma não esteja aqui para ouvir”, disse o presidente, no Rio

Em clima de despedida, o presidente Lula e o Ministro da Cultura Juca Ferreira participaram ontem à noite da entrega do prêmio Ordem do Mérito Cultural 2010, no Teatro Municipal, no Rio. A plateia, formada por artistas e trabalhadores da área cultural, recebeu o Ministro aos gritos de “Fica, Juca”, confirmando um movimento que se formou na classe artística pela permanência do Ministro no governo da presidente eleita, Dilma Rousseff. Ao discursar, no fim da premiação, o presidente Lula afirmou que gostaria que a presidente eleita estivesse no Teatro para ouvir os apelos:

“Eu vi que, quando você foi anunciado, gritaram “Fica, Juca; Fica, Juca”. É uma pena que a companheira Dilma não esteja aqui para ouvir” afirmou o presidente, comparando a situação à despedida de Pelé, no Maracanã. E não sei se você fica, mas eu quero dizer, do fundo do meu coração, que agradeço eternamente o fato de ter tido você como meu Ministro da Cultura no segundo mandato.

O presidente afirmou ainda que, independentemente permanecer no Ministério, Juca Ferreira, a quem chamou de Juquinha, continuará a fazer um bom trabalho pela cultura brasileira, já que não é o tipo de pessoa que precisa de cargo.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador Sérgio Cabral também participaram da cerimônia, que premiou, entre outros, Glória Pires, Hermeto Pascoal e Leonardo Boff. No início da premiação, o presidente Lula sancionou o Plano Nacional da Cultura, que vai estabelecer as diretrizes da política cultural do governo pelos próximos dez anos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Revolta da Chibata: há 100 anos, a saga do Almirante Negro e seus companheiros

Há 100 anos, no dia 22 de novembro, a Revolta da Chibata colocava fim ao mais repugnante resquício, até então, da escravidão. Apesar de decorrido um século, há ainda polêmica sobre esse acontecimento histórico. No entanto, a Marinha de hoje não é a mesma de um século atrás. Portanto, é possível ver que a Revolta da Chibata foi um acontecimento que livrou-a de uma mancha indigna.
A chibata fora introduzida na Marinha pelo almirante Cochrane e outros ingleses durante a Guerra de Independência. Em 1862, os castigos corporais levaram a uma polêmica parlamentar, com a defesa, pelo então deputado Tavares Bastos, da sua abolição. Permaneceu, porém, aquela mentalidade escravocrata, retratada por Gastão Penalva no almirante monarquista Luís Filipe Saldanha da Gama: “Saldanha, sobretudo, foi um temível chibateiro. Educado e fidalgo, originário do mais precioso estofo marinheiro - descendente dos Gama - filho dileto dos mais limpos armoriais do reino, impunha no seu navio a deplorável usança como torpe relíquia a conservar-se nos obscuros museus do crime” (cit. por Evaristo de Moraes Filho in Edmar Morel, “A Revolta da Chibata”).

A proclamação da República tornou ilegal a chibata. Os monarquistas da revolta da Armada a exumaram. Foi outra vez proibida pelo almirante Júlio César Noronha, ministro da Marinha do governo Rodrigues Alves. Mas, a despeito da posição do seu sucessor, almirante Alexandrino de Alencar, que conhecia bem - e amistosamente - desde jovem o líder da Revolta da Chibata, ela voltara a afligir os marinheiros, em geral negros, da então terceira maior esquadra do mundo.

Após um castigo de 250 chibatadas de um marinheiro do encouraçado Minas Gerais, a revolta estourou. Seu líder, o principal timoneiro do encouraçado, João Cândido, telegrafou ao Palácio do Catete: “Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República, ao ministro da Marinha. Queremos resposta já e já”.

E, na proclamação ao ministro da Marinha, depois de apresentar suas razões, diziam os marinheiros: “Por isto pedimos a V. Exa. abolir o castigo da chibata e os demais bárbaros castigos pelo direito da nossa liberdade, a fim de que a Marinha Brasileira seja uma Armada de cidadãos, e não uma fazenda de escravos, que só têm dos seus senhores o direito de serem chicoteados”.

O governo do marechal Hermes da Fonseca, que recém tomara posse, enviou o comandante da Marinha e deputado José Carlos Carvalho para conversar com os marinheiros. Eis um trecho do relato deste comandante ao Congresso:

“... perguntei quem se responsabilizava por aqueles atos. Responderam-me: ‘todos’. E um deles acrescentou: ‘estamos em um verdadeiro momento de desespero; sem comida, muito trabalho, e as nossas carnes rasgadas pelos castigos corporais que chegam à crueldade. Não nos incomodamos com o aumento de nossos vencimentos, porque um marinheiro nacional nunca trocou por dinheiro o cumprimento de seu dever e os seus serviços à Pátria. (....) Nada queremos senão que nos aliviem dos castigos corporais, que são bárbaros, que nos deem meios para trabalhar compatíveis com nossas forças. V. Sª pode percorrer o navio, para ver que está tudo em ordem, e até o nosso escrúpulo, sr. comandante, chegou a este ponto: ali estão guardando o cofre de bordo quatro praças, com as armas embaladas; para nós aquilo é sagrado. Só queremos que o sr. presidente da República nos dê liberdade, abolindo os castigos bárbaros que sofremos, dando-nos alimentação regular e folga no serviço. V. Sª vai ver se nós temos ou não razão’. Mandaram vir à minha presença uma praça que tinha sido castigado na véspera. As costas desse marinheiro assemelhavam-se a uma tainha lanhada para ser salgada”.

Posteriormente, no discurso em que propôs a anistia aos revoltosos, diria o senador Ruy Barbosa:

“... é necessário não esquecermos o valor da gente que tripula essas máquinas de guerra. Digamo-lo, com alguma vaidade, com algum desvanecimento, por honra dos nossos compatriotas. O que constitui as forças das máquinas de guerra não é a sua mole, não é a sua grandeza, não são os aparelhos de destruição – é a alma do homem que as ocupa, que as maneja, e as arremessa contra o inimigo. As almas dessas máquinas que povoam os nossos grandes dreadnoguths [vasos de guerra], hoje, em nossa baía, sejamos justos (…), as almas desses homens têm revelado virtudes que só honram a nossa gente e a nossa raça. (…) Gente dessa ordem não se despreza. (…) Estes castigos foram abolidos por ato legislativo do Governo Provisório. Abusos com os quais, na gloriosa época do abolicionismo, levantamos a indignação dos nossos compatriotas, quando nos batíamos pela liberdade, abusos que fazem desconhecer no soldado e no marinheiro as qualidades principais daqueles que têm de expor a vida para defender a Nação. A escravidão começa por desmoralizar e aviltar o senhor antes de desmoralizar o escravo”.

No entanto, não era essa a mentalidade predominante no governo da época – o que haveria de ser demonstrado pela traição à anistia – que é melhor representada, como disse Evaristo de Moraes Filho em seu prefácio à obra clássica de Edmar Morel, “A Revolta da Chibata”, pelo elitismo do então ministro da Guerra, Dantas Barreto, ao descrever os danos à casa do comandante do Batalhão Naval: “A casa do comandante Marques da Rocha, um primor de arte nos seus arranjos e decorações interiores, onde aos domingos aquele oficial levava homens da mais elevada categoria social do Brasil para almoços ou jantares especiais, estava como as outras construções da ilha [das Cobras], toda crivada de balas, com as paredes esboroadas, pinturas e quadros inutilizados por completo”.

Aos 87 anos, no dia 28 de março de 1968, o líder da revolta da Chibata concedeu entrevista para os arquivos do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Os trechos a seguir são dessa entrevista, realizada pelo historiador Hélio Silva, pela jornalista Dulce Alves, pelo superintendente do museu, Sérgio Junqueira e por seu diretor-executivo, Ricardo Cravo Albim, com a paritcipação do filho mais novo de João Cândido, Adalberto Cândido.
Entrevista do líder da Revolta da Chibata ao MIS, em 1968
Hélio Silva - Se hoje você voltasse a ser o mesmo marujo daquele dia [22 de novembro de 1910], você teria agido hoje como agiu?
JOÃO CÂNDIDO - Teria agido da mesma forma.

H.S. - Com que idade você ingressou na Marinha?
JOÃO CÂNDIDO - Com 14 anos. Pertenci à Marinha de 5 de dezembro de 1895 a 30 de dezembro de 1912. Eu entrei na Marinha com 14 anos e entrei bisonho. Entrei bisonho, toda luz que me iluminou, que me ilumina, graças a Deus, que é pouca, foi adquirida, posso dizer, na Marinha.

H.S. - Você teria, se possível, pertencido até hoje à Marinha?
JOÃO CÂNDIDO - Certamente. Eu estaria afastado já, pois já teria passado da idade.

H.S. - Você não guarda queixas da Marinha?
JOÃO CÂNDIDO - Não, nenhuma.

H.S. - Você não tem queixas do mar?
JOÃO CÂNDIDO - Não, o mar é meu amigo.

H.S. - No Brasil, legalmente, o castigo corporal foi abolido com a proclamação da República...
JOÃO CÂNDIDO - O terceiro decreto assinado por Deodoro foi abolindo o castigo corporal nas Forças Armadas.

H.S. - Por que faltas eram castigados os marinheiros?
JOÃO CÂNDIDO - Pelas mínimas, mínimas faltas. Era só antipatia. Tomava antipatia do oficial, pronto.

H.S. - Como era chicoteado o marinheiro?
JOÃO CÂNDIDO - Amarrados em um aparelho, um ferro que tem na coberta dos navios, eram expostos ali, amarrados e castigados brutalmente.

H.S. - Nus da cintura para cima?
JOÃO CÂNDIDO - Nus da cintura para cima.

H.S. - E a marujada formada, era um espetáculo público?
JOÃO CÂNDIDO - Era um espetáculo público.

H.S. - Como era esse instrumento de suplício?
JOÃO CÂNDIDO - Quando não eram as varas de marmelo, era uma corda intitulada corda de barca, linha de barca, e sempre os carrascos colocavam agulhas e pregos, preguinhos pequenos, na ponta cobertos...

H.S. - Alguma vez você foi chicoteado?
JOÃO CÂNDIDO - Não senhor, graças a Deus.

Ricardo Cravo Albin - Por que, com o seu tratamento, pelo menos ao senhor um tratamento correto, o que lhe deu o germe que culminou nesta revolta?
JOÃO CÂNDIDO - Vamos entrar nesse assunto. Já de moço, a rapaziada congregava muitos moços, eles sempre tinham uma certa confiança em mim. Eu, mesmo em criança, já era líder até dos velhos. Eu tinha interesse pelo bem estar de todos, pela saúde de todos e essas coisas.

H.S. - Havia uma conspiração em curso, um movimento articulado para um determinado protesto ou foi uma coisa que num dado momento espontâneo se generalizou?
JOÃO CÂNDIDO - Havia uma conspiração, havia uma conspiração de protesto. E a Marinha seguramente sabia, a Marinha toda sabia. Foi um movimento organizado. Levamos mais de dois anos como movimento organizado.

R.C.A. - Quais eram os outros chefes?
JOÃO CÂNDIDO - Dias Martins, que comandou mais tarde o cruzador “Bahia”, Gregório do Nascimento que mais tarde comandou o encouraçado “São Paulo”, André Avelino que comandou o encouraçado “Deodoro”. Todos congregaram os marinheiros dos navios em que serviam e outras repartições.

H.S. - Esse movimento pretendia, realmente, tomar conta de navios e fazer um ultimato ou pretendia lançar apenas um protesto, esperando que fosse bem ouvido?
JOÃO CÂNDIDO - Não senhor, nós pretendíamos era impor, impor como impusemos. Nada nos foi oferecido, nós só impusemos, queremos isso e tem que se decidir por isso. Há mil inimigos, inimigos a que pouca importância dou, eles criticam a revolta dos marinheiros, por esse ou aquele motivo. A chibata, na Marinha do Brasil, aqueles oficiais ingleses, Cochrane e outros que eram piratas na Marinha inglesa, expulsos de lá andaram pelo mundo roubando. Primeiro, organizou a Marinha chilena, depois veio para o Brasil, aqui no Brasil ele impunha. Eu, quando vim para a Marinha, ainda encontrei uma porção de oficiais ingleses contratados. Oficiais austríacos, portugueses, ainda na Marinha.

H.S. - No momento em que você tomou conta do navio, você tinha uma especialização, era marinheiro de primeira classe, portanto, você era um marinheiro já com certos estudos. Era o primeiro timoneiro...
JOÃO CÂNDIDO - Do Minas Gerais.

H.S. - Como foi possível você, assumindo o comando, dirigir as manobras do navio, você já tinha prática de fazer isso sob o comando dos oficiais?
JOÃO CÂNDIDO - Já, já. A gente já tinha prática, estava tudo dividido. (...) todas as frações, quem devia ocupar os postos de combate...

H.S. - Então a marujada executou aquilo que estava habituada a executar, apenas os oficiais não estavam dando ordens...
JOÃO CÂNDIDO - Quem estava dando as ordens era eu. Para o Minas Gerais e para todos os navios que haviam aderido ao movimento de pronto, além de que julgamos inconveniente e dispensamos. Dispensamos, não, aproveitamos a tripulação nos navios que estavam com a revolução.

H.S. - Você declara em seu depoimento: “o resto foi rotina de um navio de guerra”.
JOÃO CÂNDIDO - Além dos conhecimentos que já tínhamos na Marinha, ganhamos mais conhecimentos durante o tempo que estivemos lá assistindo à construção da nova esquadra. Eu, na Marinha, posso dizer, a arte de governar navio não é difícil, mas é espinhosa.