Ilhas tapuias
Um olhar antropoético da cidade morena de frente para o Rio Mar dirá que a velha “Cidade do Pará” cresceu de costas para o rio que a pariu e que, na Amazônia, o estado precedeu a sociedade. Ou não... Caso a democracia dos trabalhadores, levada às últimas consequências, venha a revogar completamente a jurisprudência caduca de Ginés Sepúlveda contra o indianismo de Las Casas, a célebre polêmica da corte de Valladolid, para no século XXI dar espaço ao índio e ao negro na República Federativa do Brasil onde deveriam estar desde as origens: assim, o direito territorial fundamental do bravo Povo Brasileiro há de estar mais seguro do que nunca no país do Futuro.
A história da Amazônia, então, começaria muito mais cedo nos compêndios escolares do que pinta a medo a teoria do segredo, na historiografia colonial luso-brasileira oficial; e a pré-história recuará para além do ano 400 da era cristã até 10 mil anos a.C., tal qual como a ciência do Homem amazônico informa nos círculos acadêmicos, a ser, enfim, popularizada e divulgada mundo afora.
Coincidência formidável: no velho mundo a civilização greco-romana entrava em declínio quando ao mesmo tempo, no Novo Mundo, foz do Amazonas; a civilização neotropical nascia na Ilha do Marajó sob alvoradas majestosas desde o fundo imaginário do rio Aracy, Ilha do Sol, Baía do Sol e as luzes aquáticas de Icoaracy, donde mais tarde o andejo guerreiro Tupinambá chegaria para contemplar à distância o mítico “Araquiçaua” como um chamado da utopia selvagem a incitar a travessia do grande mar de água doce, como um destino imperioso e inevitável coroado por ritos antropofágicos... Cadê o cinema nacional que anda cego (que nem no “Sermão aos Peixes” do padre Antônio Vieira) para este feito épico desconhecido?
A sociedade amazônica original terá começado, então, antes do estado-colônia com a primeira cultura complexa na ilha do Marajó, obra da necessidade e do acaso por mãos anônimas de pescadores de gapuia. A partir do primeiro teso (aterro artificial) da célebre Cultura Marajoara, há mais de mil anos antes da primeira viagem de Cristóvão Colombo a América.
Também no Ver O Peso a academia do peixe frito a dissertar acerca do folclore de São Benedito da Praia poderá, eventualmente, cogitar sobre a viagem do rei do Mali, Mansa Mussa, o qual em 1324 peregrinou a Meca e fez estada no Egito onde chegou com 60 mil carregadores levando cada um três quilos de ouro, ou seja, 180 toneladas. Uma verdadeira inflação na corte dos faraós. Vem daí o relato sobre expedição de seu predecessor Abu Bakar II, que teria entrado ao mar com dois mil caiaques decidido a encontrar um caminho marítimo para Meca. A flotilha saiu de porto do Senegal e nunca mais houve notícia dela... Acredita-se que o rei negro foi arrastado pela corrente equatorial marítima e, acidentalmente, atravessou o Oceano. Existem versões árabes de que o imperador mandinga teria chegado ao continente americano mais de um século e meio antes de Colombo.
Consta que duzentos dos remadores que exploravam o caminho para o rei chegaram à foz do Amazonas e foram tragados pela Pororoca. Exceto dois deles que conseguiram retornar e avisar o rei, tendo este prosseguido com a flotilha e passado pelas bocas do Drago (delta do Orenoco) levado pela corrente das Guianas até girar para as Antilhas. Mais tarde, marinheiros de Colombo teriam se admirado da existência de estranhos “índios negros” no Haiti usando lanças com ponta de cobre...
Claro, só se ama o que se conhece. Os brasileiros devem conhecer mais a Amazônia que lhes pertence e amazonizar o Brasil do porvir. No ano de 1494, em Tordesilhas, os reis de Espanha e Portugal brigavam pela partilha do mundo achado e por achar... Sem saber eles estavam afetando o destino de muitos povos distantes e a desatar a brutal corrida de destruição das Índias. A famosa “linha”, de polo a polo no mapa-múndi cortaria o Brasil numa nesga de terra costeira passando ao sul sobre Laguna (SC) e ao norte sobre Belém (PA). Portanto, a grande boca do Rio Mar de água doce se repartia em duas bandas: pelo acordo ibérico a margem direita do Pará a Portugal até o Mar-Oceano; pelo lado do arquipélago do Marajó para oeste até o Peru era tudo patrimônio dos Reis Católicos, por homologação de bula do papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia)... Não combinaram com os índios do Pará e a história acabou sendo outra, como agora se sabe.
Pois bem, do Ver O Peso quem souber ver com os olhos da história compreenderá que não foi pouco o feito daqueles mamelucos do Nordeste à frente da massagada tupinambá de arco e remo a levar milites portugueses mato adentro à conquista das Amazonas... Que resistência invencível aquelas ilhas que aparecem ao fundo da baia ofereceram ao passo audaz do conquistador! Quem sabe agora, pelos bares e lares da cidade, a ouvir a Voz do Brasil com os acordes de o “Guarani” desperte nesta gente curiosidade em saber a velha história da pátria diante da pressa do asfalto e a surdez dos arranha-céus?
José Saramago teve razão ao dizer que é o presente que explica o passado e não o contrário. O historiador José Honório Rodrigues, mais ainda, na “Teoria da História do Brasil”, ao defender o olhar das gerações presentes como marco que esclarece – com o progresso da Ciência – o obscuro fato histórico esquecido e velado pelo manto do tempo.
Sou Bàbá Kytalamy, Afro - Religioso da Nação Vodun Jeje ( Tambor de Mina) Filho do Grandioso João de Guapindaia ( Afro - Religioso, Folclorista) Neto de Manoel Colaço, Filho de Oxóssy com Iansã ( Toy Vondereji com Fina Jóia). Tenho 26 anos de Santo, defensor da Liberdade de Cultos, luta contra intolerância de uma sociedade que não conhece suas raízes afro. Também sou Mestre em Cultura Popular ( Pássaro Junino - Reconhecido pelo Minc)
quarta-feira, 21 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
sou negro e sou de axé!
No próximo mês de agosto, a população brasileira dos 5.565 municípios estará recebendo recenseadores e recenseadoras para o levantamento demográfico que desde o primeiro censo, em 1872, com 643 municípios, se mostrou como importante fonte de dados.
Sabemos do valor das informações coletadas para acompanhar o crescimento, a distribuição geográfica e a evolução das características da população e como elementos importantes para definição de políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal, bem como para a tomada de decisões na iniciativa privada, incluindo, atualmente (para algumas), as ações de responsabilidade social.
Foi no censo de 1872 que, pela primeira vez, o conjunto da população era compreendido oficialmente em termos raciais, base para o estabelecimento de novas diferenças entre os grupos sociais. Diferenças ainda longe das concepções hierarquizantes e poligenistas que se acercariam da noção de raça, anos mais tarde.
Naquele momento, tratava-se de conhecer uma população de ex-escravizados que começava a exceder cada vez mais o número dos ainda escravizados. E esta diferença era possível na medida em que a instituição escravista tinha perdido a legitimidade devido à ação de grupos abolicionistas ou mesmo por meio das consequências da abolição do tráfico (1850) ou das leis posteriores que prometiam, apesar de gradual, a abolição da escravidão: a lei do ventre livre (1871), depois a lei dos sexagenários (1885), seguida da proibição dos açoites (1886) .
É muito importante anotar que a noção de “cor”, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matrizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição social estavam indissociavelmente ligadas.
O novo Movimento Negro, surgido nos anos 1970, enfrentou a falácia da “democracia racial” entendendo que a o quesito “cor” era determinante do lugar social da população negra. Esse conhecimento, sustentado por militantes e pensadores na área das ciências humanas e sociais (incluindo a economia e a estatística), levou a uma campanha, em nível nacional, para o censo de 1991: “Não deixe sua cor passar em branco”.
Se fizermos uma breve retrospectiva do quesito “raça” / “cor” nos censos do País, não é difícil compreender a necessidade dessa campanha por parte do Movimento Negro:
1 - o quesito “raça” foi pesquisado nos censos de 1872 e de 1890;
2 - foi suprimido em 1900 e 1920;
3 - o quesito retorna em 1940, sob o rótulo de “cor”;
4 - em 1970, o questionário não contemplou o quesito “cor”;
5 - em 1980, o quesito volta a aparecer;
6 - em 1991 o quesito “cor” está presente, incorporando a (nova) categoria “indígenas e amarelos”;
7 - o censo de 2000 admitiu “raça e cor” como sinônimos, compondo uma única categoria (“cor ou raça”).
A força da campanha do Movimento Negro tinha ainda maior razão! Além da invisibilidade da população negra, pela falácia da “democracia racial”, o quesito “cor”, respondido apenas no Questionário Amostra, tangenciava uma população já impregnada pelo não lugar do ser negro, colocado sempre no lugar de 2ª classe!
“Não deixe sua cor passar em branco!” cobriu o censo de 1991 e foi reprisada no censo de 2000, com o objetivo de sensibilizar os negros e seus descendentes para assumirem sua identidade histórica insistentemente negada; ao mesmo tempo em que era um alerta para a manipulação da identidade étnico-racial dos negros brasileiros em virtude de uma miscigenação que se constitui num instrumento eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição de uma hierarquia cromática e de fenótipos que têm na base o negro retinto e no topo o ‘‘branco da terra'', oferecendo aos intermediários o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, o branco.
Apesar de, neste novo censo de 2010, o quesito “cor ou raça” sair do Questionário da Amostra e passar a ser investigado também no Questionário Básico, cobrindo toda a população recenseada , ainda há um longo caminho da superação do racismo para que todos e todas respondam pela dignidade e pelo reforço da auto-estima de pertencerem a um grupo étnico que só tem feito contribuir eficiente e eficazmente para o desenvolvimento do País.
Ao contrário do que propõe as “assertivas” de exclusão, a identificação da população negra se faz necessária sempre e a cada vez para que se constate em números (como gosta o parâmetro científico) o racismo histórico que ainda está perpetrado sobre a população negra. Só depois que alcançarmos a liberdade de fato é que as anotações étnicas passarão a ser fatores que dizem respeito exclusivamente à cultura. Enquanto estivermos, como estamos hoje – após 122 anos da abolição da escravatura – vivendo uma abolição não conclusa, precisaremos reafirmar nossa etnia do ponto de vista político; econômico; habitacional; na área da saúde; na área da educação; nas condições de supressão da liberdade que não se dá apenas aos presidiários, mas a pais e mães que clamam por políticas para garantir que seus filhos e filhas possam crescer com dignidade e sem ameaças.
A proposta do IBGE de tirar a “fotografia” mais nítida o possível do Brasil, ainda está longe de ser alcançada!
E a luta do povo negro não termina! O racismo é tão implacável que, a cada etapa alcançada, um novo desafio se apresenta!
Para este ano, novamente o Movimento Negro está em campanha, em nível nacional! E, agora, é para que todos aqueles que são adeptos das Religiões de Matrizes Africanas respondam sem qualquer dissimulação: “Quem é de Axé diz que é!”
O quesito “religião ou culto” continua no Questionário de Amostra e tem campo aberto para que o recenseador ou a recenseadora anote a “religião ou culto” declarado pelo cidadão, pela cidadã.
Tanto no quesito “cor ou raça” para todos (no Questionário Básico); quanto no quesito “religião ou culto” para alguns que responderão o Questionário Amostra, a população negra e seus descendentes estão conscientes de que suas palavras precisam ser firmes e que devem estar atentos para que a anotação seja feita sem qualquer margem de erro em relação ao que declarou.
Já se justificou essa omissão do quesito “cor” por um possível empenho do regime republicano brasileiro em apagar a memória da escravidão. Entretanto, parte da explicação pode vir do incômodo causado pela constatação de que nossa população era marcada e crescentemente mestiça, enquanto as teses explicativas do Brasil apontavam para os limites que essa realidade colocava à realização de um ideal de civilização e progresso.
Não temos qualquer dúvida de que a resistência em tratar de raça-cor e em tudo o que a discussão implica – como políticas de reparações, com fundo para superação do racismo histórico – é a mesma que teremos de enfrentar no tratamento das Religiões de Matrizes Africanas. Não dissimular a declaração de adepto ou adepta das religiões de Axé, trazidas e preservadas como memória ancestral por aqueles e aquelas que resistiram à travessia e morte nos porões dos navios tumbeiros é dignificar a humanidade que por princípio e necessidade é diversa e assim deve permanecer.
A poligenia está superada! As evidências de que a humanidade surgiu no continente africano são cada vez em maior número e com rigor científico sempre mais acurado. O conceito de raça não tem o menor sentido, dizem nossos opositores, no afã de jamais ceder o lugar histórico de conforto a que estão acostumados! Enquanto não repararmos o estrago que o uso histórico do conceito fez a cidadãos e cidadãs que hoje são em mais de 50% da população, qualquer discussão conceitual será apenas a má retórica que tenta persuadir para continuar reinando.
Por isso,
Não vamos deixar nossa cor passar em branco!
E vamos dizer que somos de Axé!
“Quem é de Axé diz que é!”
Sabemos do valor das informações coletadas para acompanhar o crescimento, a distribuição geográfica e a evolução das características da população e como elementos importantes para definição de políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal, bem como para a tomada de decisões na iniciativa privada, incluindo, atualmente (para algumas), as ações de responsabilidade social.
Foi no censo de 1872 que, pela primeira vez, o conjunto da população era compreendido oficialmente em termos raciais, base para o estabelecimento de novas diferenças entre os grupos sociais. Diferenças ainda longe das concepções hierarquizantes e poligenistas que se acercariam da noção de raça, anos mais tarde.
Naquele momento, tratava-se de conhecer uma população de ex-escravizados que começava a exceder cada vez mais o número dos ainda escravizados. E esta diferença era possível na medida em que a instituição escravista tinha perdido a legitimidade devido à ação de grupos abolicionistas ou mesmo por meio das consequências da abolição do tráfico (1850) ou das leis posteriores que prometiam, apesar de gradual, a abolição da escravidão: a lei do ventre livre (1871), depois a lei dos sexagenários (1885), seguida da proibição dos açoites (1886) .
É muito importante anotar que a noção de “cor”, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matrizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição social estavam indissociavelmente ligadas.
O novo Movimento Negro, surgido nos anos 1970, enfrentou a falácia da “democracia racial” entendendo que a o quesito “cor” era determinante do lugar social da população negra. Esse conhecimento, sustentado por militantes e pensadores na área das ciências humanas e sociais (incluindo a economia e a estatística), levou a uma campanha, em nível nacional, para o censo de 1991: “Não deixe sua cor passar em branco”.
Se fizermos uma breve retrospectiva do quesito “raça” / “cor” nos censos do País, não é difícil compreender a necessidade dessa campanha por parte do Movimento Negro:
1 - o quesito “raça” foi pesquisado nos censos de 1872 e de 1890;
2 - foi suprimido em 1900 e 1920;
3 - o quesito retorna em 1940, sob o rótulo de “cor”;
4 - em 1970, o questionário não contemplou o quesito “cor”;
5 - em 1980, o quesito volta a aparecer;
6 - em 1991 o quesito “cor” está presente, incorporando a (nova) categoria “indígenas e amarelos”;
7 - o censo de 2000 admitiu “raça e cor” como sinônimos, compondo uma única categoria (“cor ou raça”).
A força da campanha do Movimento Negro tinha ainda maior razão! Além da invisibilidade da população negra, pela falácia da “democracia racial”, o quesito “cor”, respondido apenas no Questionário Amostra, tangenciava uma população já impregnada pelo não lugar do ser negro, colocado sempre no lugar de 2ª classe!
“Não deixe sua cor passar em branco!” cobriu o censo de 1991 e foi reprisada no censo de 2000, com o objetivo de sensibilizar os negros e seus descendentes para assumirem sua identidade histórica insistentemente negada; ao mesmo tempo em que era um alerta para a manipulação da identidade étnico-racial dos negros brasileiros em virtude de uma miscigenação que se constitui num instrumento eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição de uma hierarquia cromática e de fenótipos que têm na base o negro retinto e no topo o ‘‘branco da terra'', oferecendo aos intermediários o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, o branco.
Apesar de, neste novo censo de 2010, o quesito “cor ou raça” sair do Questionário da Amostra e passar a ser investigado também no Questionário Básico, cobrindo toda a população recenseada , ainda há um longo caminho da superação do racismo para que todos e todas respondam pela dignidade e pelo reforço da auto-estima de pertencerem a um grupo étnico que só tem feito contribuir eficiente e eficazmente para o desenvolvimento do País.
Ao contrário do que propõe as “assertivas” de exclusão, a identificação da população negra se faz necessária sempre e a cada vez para que se constate em números (como gosta o parâmetro científico) o racismo histórico que ainda está perpetrado sobre a população negra. Só depois que alcançarmos a liberdade de fato é que as anotações étnicas passarão a ser fatores que dizem respeito exclusivamente à cultura. Enquanto estivermos, como estamos hoje – após 122 anos da abolição da escravatura – vivendo uma abolição não conclusa, precisaremos reafirmar nossa etnia do ponto de vista político; econômico; habitacional; na área da saúde; na área da educação; nas condições de supressão da liberdade que não se dá apenas aos presidiários, mas a pais e mães que clamam por políticas para garantir que seus filhos e filhas possam crescer com dignidade e sem ameaças.
A proposta do IBGE de tirar a “fotografia” mais nítida o possível do Brasil, ainda está longe de ser alcançada!
E a luta do povo negro não termina! O racismo é tão implacável que, a cada etapa alcançada, um novo desafio se apresenta!
Para este ano, novamente o Movimento Negro está em campanha, em nível nacional! E, agora, é para que todos aqueles que são adeptos das Religiões de Matrizes Africanas respondam sem qualquer dissimulação: “Quem é de Axé diz que é!”
O quesito “religião ou culto” continua no Questionário de Amostra e tem campo aberto para que o recenseador ou a recenseadora anote a “religião ou culto” declarado pelo cidadão, pela cidadã.
Tanto no quesito “cor ou raça” para todos (no Questionário Básico); quanto no quesito “religião ou culto” para alguns que responderão o Questionário Amostra, a população negra e seus descendentes estão conscientes de que suas palavras precisam ser firmes e que devem estar atentos para que a anotação seja feita sem qualquer margem de erro em relação ao que declarou.
Já se justificou essa omissão do quesito “cor” por um possível empenho do regime republicano brasileiro em apagar a memória da escravidão. Entretanto, parte da explicação pode vir do incômodo causado pela constatação de que nossa população era marcada e crescentemente mestiça, enquanto as teses explicativas do Brasil apontavam para os limites que essa realidade colocava à realização de um ideal de civilização e progresso.
Não temos qualquer dúvida de que a resistência em tratar de raça-cor e em tudo o que a discussão implica – como políticas de reparações, com fundo para superação do racismo histórico – é a mesma que teremos de enfrentar no tratamento das Religiões de Matrizes Africanas. Não dissimular a declaração de adepto ou adepta das religiões de Axé, trazidas e preservadas como memória ancestral por aqueles e aquelas que resistiram à travessia e morte nos porões dos navios tumbeiros é dignificar a humanidade que por princípio e necessidade é diversa e assim deve permanecer.
A poligenia está superada! As evidências de que a humanidade surgiu no continente africano são cada vez em maior número e com rigor científico sempre mais acurado. O conceito de raça não tem o menor sentido, dizem nossos opositores, no afã de jamais ceder o lugar histórico de conforto a que estão acostumados! Enquanto não repararmos o estrago que o uso histórico do conceito fez a cidadãos e cidadãs que hoje são em mais de 50% da população, qualquer discussão conceitual será apenas a má retórica que tenta persuadir para continuar reinando.
Por isso,
Não vamos deixar nossa cor passar em branco!
E vamos dizer que somos de Axé!
“Quem é de Axé diz que é!”
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Os Dez Mandamentos do bom professor
Esses mandamentos foram construídos para o professor do Ensino Básico brasileiro (caso ele ganhasse, no mínimo, 21 reais a hora aula)1. Ter o domínio do que pretende que seja aprendido. Há um ditado popular que diz “que quem não sabe ensina”. O bom professor prova que esse ditado está errado, só quem realmente sabe, ensina de modo efetivo a ponto do aprendizado ser completo. O aprendizado se dá não se o estudante sabe repetir enunciados sobre o que ouviu, mas se, de acordo com os conteúdos que foram ensinados, opera com eles em sua vida por meio de comportamentos e hábitos que passa a ter, e que antes não tinha.
2. Ter a capacidade de se colocar no lugar do aluno, ouvindo-o e levando-o a sério. Muitos adultos, pais e professores fazem “café com leite” das crianças. Jogam com eles através de artifícios. Esses artifícios começam cedo, quando elas são pequeninas (deixando-as ganhar em jogo que elas não entendem etc.) e, depois, erradamente, se mantém na escola. Eis então que toda a arte da conversação se torna falsa e mais falsa ainda quando a didática é artificial. O aluno percebe logo que esses adultos vivem na artificialidade e, então, identificam também no professor e na escola essa situação “de brincadeirinha”, ele ou se revolta ou se adapta de modo pouco produtivo ou aparentemente produtivo.
3. Saber convencer. O bom professor é alguém que “vende o seu peixe” ou “ganha o aluno para o seu negócio”. Não se ensina por meio de frases doutrinárias ou textos excessivamente posicionados que se negam a oferecer boas razões do que defendem. A conversação em sala de aula é um “dar e receber razões”. O professor é uma pessoa persuasiva ou não é professor. Mas a persuasão do professor não é qualquer uma, ela é feita por mostrar razões e ele ensina por meio de solicitar razões.
4. Ser razoável. Uma das coisas mais difíceis para o professor é ser razoável. Em geral ele ou cria situações que são impossíveis do aluno cumprir, que ele próprio, professor, não conseguiu e não conseguiria cumprir em situação normal, ou então ele adota a postura de “passar a mão na cabeça”, tomando os alunos como incapazes e facilitando o serviço deles para além da conta. Na sala de aula o professor faz o jogo de “dar e pedir razões” quanto ao conteúdo, mas na postura geral quanto aos alunos vale sua capacidade de ponderar, perante si mesmo, se ele realmente é uma pessoa razoável ou apenas alguém inconseqüente.
5. Ter grande percepção de si mesmo. O bom professor é um analista de si mesmo. Estou bem vestido para ir dar aula? Minha voz é boa? Estou atento aos alunos ou sou desleixado? Sou capaz de admitir quando erro? Gosto da atividade de professor? Tenho capacidade de não me deixar levar por impulsos meus, e inclusive por complexos psicológicos? Tenho mesmo a capacidade de ajudar os alunos ou sempre acho que há algum caçoando de mim, e quero prejudicá-lo. Trabalho antes por vingança contra aluno que por entender que faço parte de um grupo de elite que é “formador de opinião”? O professor que não consegue ser sincero para si mesmo diante dessas perguntas, que não consegue se preparar com isso, nunca será um bom professor. Preparar a aula é, antes de tudo, preparar a si mesmo.
6. Ter capacidade de compreender a profissão. O bom professor conhece a dimensão pedagógica, política e sindical de sua profissão. Na dimensão pedagógica, ele é alguém que não se admite despreparado para uma aula. Se não sabe, busca aprender. Na dimensão política, ele sabe que é um cidadão com o qual a sociedade conta como mais qualificado que outros, que é dele que se espera a vinda das idéias para as melhores mudanças. Na dimensão sindical ele mostra conhecer a legislação que rege o ensino e também a que rege a sua própria carreira. Está sempre pronto para atuar na articulação entre necessidades sindicais e necessidades pedagógicas. Não é bom professor aquele que nunca leu um bom manual de filosofia e história da educação brasileira.
7. Ser um leitor consciente. O bom professor não tira a cópia Xerox e nem incentiva o Xerox que, aliás, é crime. Ele valoriza o livro, educa seus alunos para terem uma mini-biblioteca, a freqüentarem livrarias presenciais ou virtuais. Fomenta o gosto pela leitura e, principalmente, ensina seus alunos a ler no sentido da ampliação do texto, não no sentido do “fichamento” ou “resumo”. Ele próprio é um leitor atento para todas as variáveis do texto, para o autor, jamais opinando somente porque leu o título ou fazendo do texto um pretexto para falar sobre outro assunto que não aquele que diz comentar. O professor de “cabeça cheia”, ou seja, aquele que só tem uma idéia e tudo que lê absorve segundo aquela idéia, gerará alunos frustrados ou então alunos limitados como ele.
8. Ser um desbravador criativo. Alunos são crateras ferventes, em vários níveis. Na adolescência, o vulcão entra em erupção. O professor não deve temer isso. Ele também foi criança e jovem. Não pode temer o seu passado. Deve compreender suas angústias e verificar se conseguiu superá-las. Caso tenha conseguido, poderá indicar caminhos para os alunos. Caso não tenha conseguido, deve se precaver para não perder o auto-controle diante dos problemas dos alunos que, enfim, o fazem lembrar que ele também não superou sua adolescência. Em um determinado nível, nunca somos adultos. No entanto, como professores, devemos saber quando é que o problema do aluno é o nosso, e como que não podemos nos perder nessa possível confusão. A conversa com os jovens fora da sala de aula, tentando compreendê-los, pode manter a profissão em seu exercício possível, diário, difícil, às vezes até perigoso. Entrar em novos campos exige capacidade criativa. Enfrentar a vida é para quem tem imaginação.
9. Ser capaz de fazer do aprendizado uma tarefa coletiva e desafiadora. A pior situação que o professor pode criar é aquela em que ele não consegue mostrar que os problemas que irá tentar resolver em sala de aula, durante o ano letivo, não são só dele ou “da escola” ou “para cumprir etapa”. Os problemas são problemas de todos. São desafios que devem ser postos para toda a classe que o professor tem diante de si e para ele mesmo. Posto um problema, o professor deve convidar os alunos a enfrentá-lo junto com ele, pois se trata de um problema de todos – real problema de todos. Ninguém escapa de problemas que se universalizam e que, por isso, são também particulares, que estão acontecendo com cada um de nós. Compreendido isso, então o problema ou “a matéria” se torna um desafio interessante e válido para o estudante. Do mesmo modo que ela o é para o professor – ou deveria ser.
10. Ser curioso. O professor é curioso ou não é nem nunca será professor. O professor que toma o assunto que irá ensinar não problemático, sem algo que desperte sua curiosidade e, então, seja capaz de aguçar a curiosidade do aluno, inclusive sua imaginação, não tem qualquer habilidade para ser professor. Deve desistir.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
TSE julga improcedente representação contra Dilma por propaganda antecipada
O ministro auxiliar Joelson Dias, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), julgou improcedente a representação contra a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, por propaganda eleitoral fora de época.
O Ministério Público Eleitoral pedia multa a Dilma por suposta propaganda antecipada feita em entrevista concedida, no dia 7 de abril, ao programa "Rádio Vivo", da rádio Itatiaia, em Belo Horizonte (MG).
Segundo a ação, Dilma mencionou na entrevista as eleições deste ano, com exposição de sua candidatura e da plataforma de governo, além de realizar comparações entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do qual seu adversário José Serra (PSDB) atuou como ministro.
Dias considerou a representação improcedente por não verificar a ocorrência de propaganda antecipada supostamente feita por Dilma na entrevista.
Segundo o ministro, pela mídia e degravação da entrevista, que acompanharam o processo, "não houve pedido expresso de votos durante a referida entrevista, tendo a representada [Dilma Rousseff] limitado-se à exposição de sua plataforma e projetos políticos".
Ele também não identificou nos autos a suposta propaganda negativa que Dilma teria feito de Serra. "No caso específico dos autos, no entanto, tenho que a representada não chegou necessariamente [na entrevista] a comparar as suas realizações com as de seu adversário político específico, o então também pré-candidato José Serra, nem a formular propriamente crítica à sua conduta."
O Ministério Público Eleitoral pedia multa a Dilma por suposta propaganda antecipada feita em entrevista concedida, no dia 7 de abril, ao programa "Rádio Vivo", da rádio Itatiaia, em Belo Horizonte (MG).
Segundo a ação, Dilma mencionou na entrevista as eleições deste ano, com exposição de sua candidatura e da plataforma de governo, além de realizar comparações entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do qual seu adversário José Serra (PSDB) atuou como ministro.
Dias considerou a representação improcedente por não verificar a ocorrência de propaganda antecipada supostamente feita por Dilma na entrevista.
Segundo o ministro, pela mídia e degravação da entrevista, que acompanharam o processo, "não houve pedido expresso de votos durante a referida entrevista, tendo a representada [Dilma Rousseff] limitado-se à exposição de sua plataforma e projetos políticos".
Ele também não identificou nos autos a suposta propaganda negativa que Dilma teria feito de Serra. "No caso específico dos autos, no entanto, tenho que a representada não chegou necessariamente [na entrevista] a comparar as suas realizações com as de seu adversário político específico, o então também pré-candidato José Serra, nem a formular propriamente crítica à sua conduta."
Eleição em 18 Estados pode ser definida em primeiro turno
Pesquisas disponíveis em 23 Estados e no Distrito Federal indicam que 18 disputas a governador podem ser definidas no 1º turno.
Também em 18 unidades da Federação há candidatos competitivos --que estão em primeiro lugar ou com chance de ir ao segundo turno-- representando as forças políticas que já estão no poder.
O Estado recordista da longevidade de um mesmo grupo no governo é São Paulo. Desde 1994 o PSDB ganha seguidamente as eleições. Não há equivalente em nenhuma outra região do país.
Os mapas do Brasil multicoloridos no topo da página indicam quais partidos venceram nos Estados em todas as eleições desde 1994. Foi nesse ano que presidente, governadores, deputados e senadores passaram a ser escolhidos na mesma data. Exceto por São Paulo, nenhum dos Estados nem o DF estão pintados apenas de uma cor.
Estados do Nordeste, em geral tidos como redutos de coronelismo político, tiveram alternância de poder. A Bahia, dominada historicamente por políticos ligados ao DEM (antigo PFL), foi conquistada pelo PT em 2006.
Agora, se vencer neste ano em São Paulo, o PSDB registrará um novo recorde: a chance de ficar 20 anos no poder. No momento, o candidato tucano ao Bandeirantes, Geraldo Alckmin, lidera as pesquisas --podendo encerrar a disputa no 1º turno.
O contraponto ao PSDB em termos de longevidade é o PT no Estado do Acre. Os petistas venceram todas as eleições desde 1998. Neste ano, o partido continua competitivo, com o senador Tião Viana à frente nas pesquisas.
CONTINUIDADE
As pesquisas listadas na tabela desta página mostram apenas a linha de largada da eleição deste ano. Feita a ressalva, se a tendência for mantida, não haverá grandes alterações na composição geral de número de governadores por sigla em 2011.
O PT, por exemplo, já governa hoje quatro Estados (Acre, Bahia, Pará e Sergipe). Em todos esses há petistas competitivos. O partido também tem Tarso Genro em primeiro no Rio Grande do Sul.
O PSDB governa no momento seis Estados (Alagoas, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e São Paulo). Não há pesquisa disponível sobre Alagoas. Nos cinco restantes, os tucanos são competitivos em Minas, Roraima e São Paulo. Em Santa Catarina, decidiu não ter candidato próprio.
O PMDB, que hoje governa nove Estados, tem chances em ao menos oito localidades. O DEM, que não governa nenhum Estado, é favorito só no Rio Grande do Norte.
Também em 18 unidades da Federação há candidatos competitivos --que estão em primeiro lugar ou com chance de ir ao segundo turno-- representando as forças políticas que já estão no poder.
O Estado recordista da longevidade de um mesmo grupo no governo é São Paulo. Desde 1994 o PSDB ganha seguidamente as eleições. Não há equivalente em nenhuma outra região do país.
Os mapas do Brasil multicoloridos no topo da página indicam quais partidos venceram nos Estados em todas as eleições desde 1994. Foi nesse ano que presidente, governadores, deputados e senadores passaram a ser escolhidos na mesma data. Exceto por São Paulo, nenhum dos Estados nem o DF estão pintados apenas de uma cor.
Estados do Nordeste, em geral tidos como redutos de coronelismo político, tiveram alternância de poder. A Bahia, dominada historicamente por políticos ligados ao DEM (antigo PFL), foi conquistada pelo PT em 2006.
Agora, se vencer neste ano em São Paulo, o PSDB registrará um novo recorde: a chance de ficar 20 anos no poder. No momento, o candidato tucano ao Bandeirantes, Geraldo Alckmin, lidera as pesquisas --podendo encerrar a disputa no 1º turno.
O contraponto ao PSDB em termos de longevidade é o PT no Estado do Acre. Os petistas venceram todas as eleições desde 1998. Neste ano, o partido continua competitivo, com o senador Tião Viana à frente nas pesquisas.
CONTINUIDADE
As pesquisas listadas na tabela desta página mostram apenas a linha de largada da eleição deste ano. Feita a ressalva, se a tendência for mantida, não haverá grandes alterações na composição geral de número de governadores por sigla em 2011.
O PT, por exemplo, já governa hoje quatro Estados (Acre, Bahia, Pará e Sergipe). Em todos esses há petistas competitivos. O partido também tem Tarso Genro em primeiro no Rio Grande do Sul.
O PSDB governa no momento seis Estados (Alagoas, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e São Paulo). Não há pesquisa disponível sobre Alagoas. Nos cinco restantes, os tucanos são competitivos em Minas, Roraima e São Paulo. Em Santa Catarina, decidiu não ter candidato próprio.
O PMDB, que hoje governa nove Estados, tem chances em ao menos oito localidades. O DEM, que não governa nenhum Estado, é favorito só no Rio Grande do Norte.
Brasil deve crescer pelo menos 7% em 2010
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse estar certo que o Brasil deve crescer a índices não inferiores a 7% em 2010. A declaração do persidente foi durante a 4ª Cúpula Brasil-União Europeia que ocorre em Brasília. Lula afirmou ainda que o País deve gerar mais de 2,5 milhões de empregos formais até o final do ano.
"Preferimos confiar em políticas anticíclicas de fomento ao crescimento em uma regulação bancária eficaz e bancos públicos robustos e no mercado interno pujante. Isso fez a diferença. Em 2010, projetamos um crescimento da economia brasileira não inferior a 7% e a geração de 2,5 milhões de empregos formais".
Ao lado do presidente da Comissão da Europeia, José Manuel Barroso, e do presidente do Conselho Europeu, Herman von Rompuy, Lula voltou a fazer críticas ao protecionismo da União Europeia na adoção de medidas que dificultam a entrada de estrangeiros nos países do bloco.
"Insistir no protecionismo e criminalizar a emigração só agrava essa situação. A porta do Brasil para responder a crise foi outra: no momento em que a crise ceifava os empregos no País não hesitamos em regularizar a situação de dezenas de milhares de imigrantes. Fomos e continuaremos a ser um país aberto e solidário àqueles que vêm procurar no Brasil trabalho digno e uma vida melhor".
"Preferimos confiar em políticas anticíclicas de fomento ao crescimento em uma regulação bancária eficaz e bancos públicos robustos e no mercado interno pujante. Isso fez a diferença. Em 2010, projetamos um crescimento da economia brasileira não inferior a 7% e a geração de 2,5 milhões de empregos formais".
Ao lado do presidente da Comissão da Europeia, José Manuel Barroso, e do presidente do Conselho Europeu, Herman von Rompuy, Lula voltou a fazer críticas ao protecionismo da União Europeia na adoção de medidas que dificultam a entrada de estrangeiros nos países do bloco.
"Insistir no protecionismo e criminalizar a emigração só agrava essa situação. A porta do Brasil para responder a crise foi outra: no momento em que a crise ceifava os empregos no País não hesitamos em regularizar a situação de dezenas de milhares de imigrantes. Fomos e continuaremos a ser um país aberto e solidário àqueles que vêm procurar no Brasil trabalho digno e uma vida melhor".
terça-feira, 13 de julho de 2010
As Águas de Oxalá
“As Águas de Oxalá” é um dos rituais mais eloqüentes e belos da tradição do Candomblé. Oxalá é o grande orixá, o Orixá Funfun (pureza), que representa a paz, a água, a harmonia, a criação dos seres humanos. Cultuado em todas as ”Nações“ de matriz africana, Oxalá traz a essência e o poder da fertilização. A significação da Oferenda denominada de ”Águas de Oxalá“ está pautada no dinamismo da renovação, da purificação e da preparação da Terra e dos homens para a semeadura em espaços férteis de procriação através do poder que a água veicula. A mudança entre o passado e o presente que se afirma, sem perder o elo de ligação. Poderia ser comparada como o renascer de um novo ano, de uma nova fase, de uma nova era. Onde todos os seres, todas as energias estão receptivas paras as inovações numa reflexão critica das necessidades de mudanças de comportamentais das relações universais em toda a sua amplitude, seja social, econômica, ecológica etc. visando sempre o equilíbrio necessário para a eternização do todo. A água é um dos elementos de grande importância de manutenção e preservação do axé. A água é um dos veículos de transporte do axé, a força mágica sagrada que permite as mudanças e transformações rumo ao equilíbrio dinâmico do universo.
Às ”Águas de Oxalá“ remonta uma das parábolas de tantas outras da Visão de Mundo de tradição africana, visão esta que é originária de uma cultura tradicional e religiosa, rica de ensinamentos e proposições bem elaboradas e bem definidas num contexto próprio, embora na sua tradução não fere princípios diferentes de outros povos. É sempre pensada no coletivo e na diversidade de todas as sociedades. Aprendi com o meu mentor espiritual, ou melhor, meu Babalorixá Paulinho de Oxossi, quando fizemos as primeiras cerimônias das ”Águas de Oxalá“, em Belém do Pará, no Ilé Axé Iya Omi Ofa Karé, nos idos do ano de 1987 o seguinte Itan (historias dos povos africanos, parábolas, Mitologia etc)”.
Oxalá tivera um sonho com Xangô e como este era um dos seus filhos mais querido, ficou muito preocupado, pois não conseguia ficar sem pensar no seu filho. Há muito tempo que Oxalá não tinha contato com Xangô e já que o fato o instigava, resolveu visitá-lo. Porém, antes da viagem foi consultar o Orunmilá, o Oluô, o Senhor do destino, o grande conhecedor do futuro, para fazer uma consulta e contar do ocorrido, além da grande saudade que sentia do seu filho. Orunmilá, grande amigo de Oxalá, observando a conformação dos seus ikins (elementos da adivinhação, búzios, caroços de dendê, nozes de cola, sementes consagradas); após jogá-los no seu opere (espécie de peneira ou tábua onde se joga os ikins), disse para Oxalá:
-Não é um bom momento para o senhor viajar, vejo muitas dificuldades e problemas durante o seu percurso. Muitas coisas poderão acontecer durante a sua caminhada.
Oxalá respondeu:
-Orunmilá, eu preciso muito conversar com Xangô, sei que ele enfrentará uma grande batalha e tenho que ajudá-lo. No seu reino tem muita discórdia e dias difíceis virão.
Orunmilá respondeu:
-O Senhor pode ir sim. Desde que faça algumas oferendas (ebós) para garantir a sua chegada em paz, vão ter problemas sim, mas vamos amenizá-los. Primeiro o senhor terá que preparar 03 peças de roupas brancas e durante a sua viagem não poderá conversar com ninguém e evitará ficar com as roupas suja. O seu silêncio só cessará quando o senhor encontrar com Xangô, além de evitar que as suas roupas fiquem sujas, repito: evite falar com as pessoas e jamais se desvie do caminho para que possas chegar em paz. O senhor só poderá conversar com Xangô quando chegar no seu destino.
Oxalá, após fazer as Oferendas indicadas por Orunmilá, vestiu-se com a primeira roupa, colocou as outras duas em um saco e começou a sua caminhada rumo a Oió (Terra do reino de Xangô), sustentado com o seu Opaxoro (Cajado sagrado).
Exu, o Orixá da palavra, a boca que tudo come, o transportador do ebó, resolveu testar Oxalá, para observar se ele iria cumprir a risca as determinações de Orunmilá.
Na primeira peça, Exu disfarçou-se de mendigo e atravessou no momento que Oxalá passava e lhe pediu uma esmola. Oxalá que é benigno, bondoso e a todos quer ajudar ofertou um pedaço de pão e nada falou. O mendigo solicitou a Oxalá que o ajudasse a colocar um saco na sua cabeça e Oxalá prontamente o ajudou. Quando Oxalá suspendeu o saco, o fundo do mesmo estava furado e cheio de pedras de carvão, que caíram sobre as suas vestes branca, ficando toda suja de carvão. Aí, Exu começou a dar gargalhadas e desapareceu. Oxalá, pacientemente foi ao rio, tomou um banho trocou a primeira peça de roupa que estava vestido pela segunda que guardara no saco. Oferendou a peça de roupa suja no tempo.
Na segunda peça. Exu se desfaça de salineiro e quando Oxalá passa próximo ao mar ele o chama. O salineiro estava descarregando o seu barco que estava cheio de sacos de sal e como Oxalá permanecia em silêncio, convidou Oxalá para ajudá-lo. Oxalá também é piedoso e resolveu acudir aquele pobre homem que trabalhava sozinho. Ao colocar o saco sobre as costas não percebera que este estava furado e todo o sal derramou sobre as suas vestes. Banhou-se, vestiu a sua última roupa e ofertou a que estava suja de sal para as águas.
Na 3ª e última peça, Exu é um viajante que comercializa óleos comestíveis e quando Oxalá passa por perto de sua taberna, pede a Oxalá para segurar o tacho onde ele derramará o óleo. O viajante propositadamente derrama o óleo que era à base de dendê sobre Oxalá. Exu dá uma grande gargalhada e desaparece. Oxalá vai ao rio banhar-se, mas não consegue limpar a sua roupa, como já não mais dispunha de outra peça limpa para trocar, teve que se conformar com as vestes sujas.
Próximo ao reino de Xangô, já cansado de tanto caminhar, Oxalá resolve repousar um pouco próximo a um alpendre, quando, de repente, aparece um lindo cavalo branco galopando sozinho. Oxalá começa a acariciar o cavalo, que muito parecia ao cavalo que outrora tinha presenteado a Xangô. Os soldados de Oió estavam à procura do cavalo do rei, que tinha sido roubado e ao vê-lo do lado de Oxalá, prenderam o forasteiro e o levaram para as masmorras, onde o mantiveram preso.
Durante o período em que Oxalá foi mantido preso, o Reino de Xangô passou por muitas dificuldades, a terra nada produzia, os animais morriam, das árvores não brotavam mais frutos. O povo sofria de infinitas mazelas e muito pouco tinha para comer, muitos morreram de fome e de doenças. As mulheres ficaram secas, estéreis, não geravam mais filhos e a população ficou reduzida a poucos. Os homens não dialogavam mais e as guerras, constantes, destruíam Oió impiedosamente. Xangô, justo, benevolente, pulso firme e sábio não sabia mais o que fazer. Resolveu consultar um grande Oluô da região que abrir o seu Ifá (jogo de Ifá - jogo de premunição). O respeitável adivinho, disse a Xangô que todas as dificuldades e sofrimentos que tomavam conta da nação não eram em vão. Xangô tinha cometido um tremendo engano no seu reino, ao manter preso nas suas masmorras um grande ser, que viera lhe visitar para trazer boas novas de paz e amor para seu povo, para a sua terra. Vá verificar com os seus próprios olhos.
Xangô foi pessoalmente visitar as prisões, quando reconheceu que aquele velho homem que ali se encontrava era seu pai. Chorou e imediatamente o carregou em suas costas, pedindo a todos que trouxessem bastante água para que pudesse limpá-lo e purificá-lo. Aparou as suas barbas, mandou preparar as mais belas vestes brancas e o vestiu. Providenciou que fosse organizada uma grande cerimônia, onde todos deveriam estar vestidos de branco para homenagear o rei.
O povo da cidade desceu em uma majestosa procissão contemplando Oxalá que andava lentamente guiado pelo seu Opaxorò (cajado sagrado de Oxalufã) e a cada passo era ajudado pelos seus filhos, todos protegidos por um grande manto branco sagrado, chamado de alá, que cobria as suas cabeças. Após a procissão, todos retornaram para o Palácio de Xangô, que ficava numa floresta sagrada onde foi oferecido um banquete e todos tiveram que comer uma massa feita de inhame bem passada, como prova da continua comunhão que devemos ter com o divino, com a criação.

E O reino de Xangô voltou a prosperar, as terras ficaram férteis, as mulheres germinaram e as guerras cessaram. A Paz, a justiça, o amor e a verdade voltaram a se abraçar para o bem do universo.
Esta viagem de Oxalá é relembrada quando fazemos o ritual das “Água de Oxalá”. É uma tradição das principais casas da chamada Nação “Ketu” no Brasil.
Fases:
I – Construção da casa onde Oxalá irá ficar durante as obrigações. Chamada de Boloti.
II - Todos dormem na casa de axé e preparam os seus quartilhões (jarros grandes, brancos, de louça ou barro) para carregar água para Oxalá.
III – De madrugada, por volta de quatro horas da manhã, todos se acordam em silêncio, pegam os seus quartilhões e se posicionam enfileirados respeitando a hierarquia do axé.
IV – Começa a procissão, e todos, em silêncio, vão para próximo da fonte de Oxalá, onde mora uma Iyaba, para alguns chamada de Oloxá (Senhora dos lagos, das fontes) que tem fundamento com Oxum e Nanã.
V – Cantam-se alguns fundamentos do axé relacionados com as oferendas e em silencio todos os quartilhões são preenchidos com água da fonte.
VI – Cada um carregado o seu quartilhão cheio de água se dirigem em procissão em direção ao Bolonti armado na área livre do templo.
VII – Entra um por um no Bolonti e suas cabeças são lavadas com a água de seus quartilhões.
VIII – Cada um tem que completar três viagens para encher novamente os quartilhões.
IX – Toda água recolhida, com exceção, da utilizada para purificar as cabeças vão primeiramente para o espaço onde mora o Oxalá da casa de axé e depois para os outros espaços onde moram os outros Orixás. Será utilizada para fazer o Osé (limpeza e purificação dos assentamentos dos Orixás e enchimento de todos os vasilhames que comportam água).
Cerimônias:
1º Domingo - Candomble
Homenagem a Oxoguiã / Oferendas do Pilão/ Simulação de Guerra com os Atoris/ Distribuição da Massa de Inhame para todos.
2º Domingo - Candomblé
Homenagem a Oxalufã. Toque de Ibin para Oxalá, que sai com o seu Opaxorò abençoando a todos. Depois todos carregam o Alá com Oxalá embaixo conduzido pelos seus filhos.
Esta simbologia se eterniza nos princípios fundamentais que são inerentes de todos os seres, animados e inanimados. Princípios estes, que sustentam e fundamentam a necessidade da convivência com: a diversidade, a respeitabilidade, a perseverança, o amor, a paz, a harmonia, a verdade e a justiça.
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